Ao escrever esse post para o blog do Observatório de Impactos faço, a bem da verdade, uma individuação (que Jung me perdoe no inconsciente coletivo, mas o trocadilho era perfeito) sobre esse ano combo (porque acho, de verdade, que 2020 não acabou, apenas incorporou 2021 para si).

A pandemia do Coronavírus, melhor entendida como uma sindemia por suas características associadas a uma crise também econômica e social e por isso sem dúvida uma crise humanitaria e que ultrapassa em muito o combate apenas ao coronavírus, traz em sua bagagem um componente de sofrimento emocional, que será manifestado especialmente em AVN e mesmo desesperança, componentes que podem fazer parte de um quadro maior de tragédia humanitária envolvendo a saúde mental.

A ansiedade, sem dúvida, parece ser um componente “obrigatório” dessa realidade que vivemos. Quem não sentiu em algum momento aquela falta de ar? A famosa “pressão no peito”? Para dizer a verdade, agora que escrevo esse post estou sentindo.

Outro efeito da pandemia foi sobre o luto. Como a recomendação é que sejam evitadas as aglomerações, o ritual de despedida que é um processo socializador dos mais fundamentais, se perde. E não podemos esquecer que transtornos mentais comuns, como transtornos depressivo-ansiosos com somatizações e aqueles(as) com ansiedade de saúde/doença. Toda essa situação envolvendo a pandemia do coronavírus e a saúde mental me fez lembrar um dado que os transtornos mentais em situação de crise humanitária gira em torno de pelo menos 20 a 25% da população.

É assustador.

O CDC (Centers for Disease Control and Prevention) dos EUA alertou que por volta de:

  • 40% população referiu-se questões mentais ou comportamentais de ordem emocional, 31% – sintomas depressivo-ansiosos;
  • 26% sintomas relacionados ao estresse;
  • 11% ideação suicida;
  • 13% aumento do uso de substancias.

Aumento de relatos de ideação suicida ou abuso de drogas legais e ilegais é um efeito esperado diante desse quadro desalentador. De forma geral, a pandemia terminou por alterar comportamentos no mundo, especialmente nas áreas mais urbanizadas. No Brasil não foi diferente. Um estudo interessante foi feito e publicado na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde com uma conclusão que nos faz pensar no tamanho da encrenca que vivemos: o estudo foi feito com 45.161 indivíduos com mais de 18 anos de idade durante os diversos períodos de maior ou menor restrição ao longo de 2020.

Nessa tabela 2 do artigo podemos já perceber o impacto da pandemia no comportamento dos brasileiros e brasileiras.

E adivinhem… diminuição da prática de atividade física e aumento do tempo em frente a telas, da ingestão de alimentos ultraprocessados, do número de cigarros fumados e do consumo de bebidas alcóolicas, com variações conforme renda e faixa etária. Não é de se estranhar que a conclusão do estudo é que houve uma piora dos estilos de vida e aumento de comportamentos de risco à saúde. Se quiser ler o estudo, clique aqui.

Precisamos muitas vezes apenas entrar em alguma das nossas redes sociais para observar que a COVID-19 traz medo, muito medo e é uma consequência gerar estresse. E esse medo, acredito, é piorado com duas coisas especialmente: o desconhecimento (que pode gerar uma situação de medo ainda maior que o risco) e a desinformação. E a desinformação, como é noticiado diariamente nos mais variados canais de notícias, por exemplo, tem um impacto direto na aceitação ou não de alguma das vacinas contra a COVID-19 ou no uso de medicamentos sem eficácia comprovada no combate ao coronavírus, como é o caso da Hidroxicloroquina ou a Cloroquina (que comento a respeito no vídeo abaixo) que pode trazer efeitos perversos na saúde de quem os usa de forma indiscriminada.

Não podemos nos esquecer, também, que a “Ansiedade com a Saúde” (conhecida popularmente como hipocondria) também pode ganhar uma maior dimensão diante da sindemia que enfrentamos. Outro efeito desse cenário é o aumento significativo de violência contra mulheres, idosos e crianças. Para enfrentar essa situação os/as profissionais de Saúde são essenciais. Na Atenção Básica o estabelecimento de vínculos de confiança é um passo fundamental para monitorar e intervir nesses casos. No caso das crianças que sofrem violência, a ausência da presença escolar também reflete na maior dificuldade nesse monitoramento, o que atrapalha consideravelmente o trabalho do Conselho Tutelar.

Por fim, não podemos esquecer, multiplicam-se relatos de profissionais de saúde esgotados diante do aumento da demanda por atendimento nos hospitais. Um dos efeitos é a multiplicação de casos de Burnout relatados. Aumentar a resiliência individual desses profissionais e também a resiliência sistêmica da equipe é um dos maiores desafios a serem enfrentados.