Se há algo que percebi com o desenrolar da pandemia na vida das pessoas é que estamos vivendo uma experiência coletiva permeada de tragédias e uma delas envolve a saúde mental. Uma pandemia (por sua magnitude) ocasiona perturbações psicológicas (como o aumento de casos de depressão, transtorno de ansiedade, tentativas de suicídio etc) bem como perturbações sociais que vão afetar, em maior ou menor medida, a capacidade de resiliência individual e social, mas também a capacidade de governos e atores não estatais tem de criar mecanismos de mitigação da pandemia em níveis de intensidade e propagação do patógeno.

Acho que para qualquer um e qualquer uma que esteja passando por essa experiência da pandemia fica (em maior ou menor sentido) o medo de contrair a doença (a COVID-19), o que nos provoca insegurança (para não dizer medo mesmo) nos mais diversos aspectos da nossa vida, o que terminou por afetar nosso comportamento. Numa pandemia, o que devemos esperar caso as medidas de contenção não sejam tomada é o colapso dos sistemas de saúde e incluo aí um colapso que envolva o esgotamento mental e físico dos profissionais de saúde por conta da exaustiva jornada de trabalho, além de fatores externos ao ambiente de trabalho (como o desrespeito massificado pelas regras de segurança ou falta de infraestrutura para o trabalho). Temos que ter em mente que para lidar com uma pandemia devemos ter uma base de evidências, um planejamento para mitigação e enfrentamento à pandemia e, claro, óbvio, vontade política (e temos o Brasil como exemplo de ineficiência e irresponsabilidade por parte do governo federal em enfrentar a pandemia).

De toda forma, também devemos chamar a atenção que para ser eficaz na mitigação e enfrentamento da pandemia há um custo que deve ser pago: o distanciamento social, o que impactou, no caso da pandemia da covid-19, de forma severa a saúde mental da população.

E agora temos de pensar: quais os benefícios e quais os custos de medidas de distanciamento social como a quarentena? Fiz o resumo abaixo a partir de uma revisão rápida da literatura de Psicologia/Saúde Coletiva:

• Benefício maior da quarentena: medida usada há muitos anos para evitar a disseminação de doenças contagiosas.

• Estressores da quarentena:

•1) necessidade de afastamento de amigos e familiares, 2) incerteza quanto ao tempo de distanciamento, 3) tédio, 4) medo.

• Transtornos mentais comuns: •1) transtornos de ansiedade e 2) depressão e 3) indícios de aumento do comportamento suicida.

Basicamente os efeitos da pandemia (mas para qualquer situação de desastre, na verdade) na saúde mental podem ser divididos em três etapas: pré-crise (avaliação de riscos), intracrise e pós-crise.

A pré-crise é a etapa na qual as informações sobre o desastre (ou a pandemia) são divulgadas para a população em geral, com destaque para o problema a ser enfrentado do ponto de vista da saúde pública e, claro, como ocorre o contágio além do desenvolvimento da doenças e seus principais sintomas e processo de adoecimento. Já na etapa que a literatura científica designa como intracrise, podemos chama-la de aguda. Nessa etapa o problema de saúde ganha status de grave, com a verificação de risco significativo de contágio. Já no pós crise temos o que seria a fase de reconstrução social (que depende diretamente do contexto de cada local). Dada a redução do número de novos casos e a diminuição da transmissão comunitária (cenário positivo), as medidas de distanciamento social que foram tomadas vão sendo reduzidas em seu alcance e, de acordo com critérios epidemiológicos, a disseminação do patógeno encontra-se sob controle, mas devemos colocar essa etapa não como um etapa exata, mas que demanda vontade política e também capacidade política para frear coalizões de interesse que demandem a flexibilização das medidas sem, necessariamente, o controle da disseminação do vírus, por exemplo. Algo que ocorreu no Brasil em grande medida, mas não apenas no Brasil. Também na União Europeia e nos EUA ocorreu atropelos administrativos nessa etapa.