No mês de Setembro foi instituído no Brasil o “Setembro Amarelo“, um período todo ano que o suicídio é discutido em diversas plataformas e por diversos atores como pesquisadores, governo e a sociedade civil de forma geral, incluindo aí os influenciadores digitais. Estou lecionando Políticas Públicas no curso de Psicologia e não teria como deixar passar esse tema ao largo dos conteúdos da disciplina. Razão muito simples: o suicídio é um problema de saúde pública. É claro que aí reside também um lembrete que sempre repasso aos alunos e alunas da turma de graduação: o tema é espinhoso e podemos discuti-lo do ponto de vista da saúde pública ou do ponto de vista moral (e não estou me referindo ao debate em torno da Psicologia Moral ou mesmo da Bioética).  É óbvio que será do ponto de vista da saúde pública.

velha morsa
A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más. Nietzsche e seu humor peculiar.

O    suicídio     é    um    fenômeno     multi determinado,     para     o qual    contribuem    fatores    de    natureza: biológica, social, econômica, ambiental e psicológica e  psicológica, entre outras. O primeiro estudo sistemático realizado sobre o suicídio foi feito por Émile Durkheim. Para o sociólogo, o suicídio é resultado de causas e fatos sociais. Dessa forma, os fatores que poderíamos chamar de suicidas dependeriam das causas sociais e constituiriam um fenômeno coletivo, excluindo assim as causas individuais, o que já marcaria uma diferença epistêmica significativa com algumas abordagens da Psicologia.

A Organização Mundial da Saúde avalia o suicídio como um problema de saúde pública, estando entre as dez causas mais frequentes de morte, além de ser a segunda ou terceira causa de morte entre 15 e 34 anos de idade. Do ponto de vista econômico o impacto do suicídio (e também das tentativas de suicídio) é grande. Começa pela demanda de recursos públicos que poderiam estar sendo alocados de forma diferente (primeira aula de Economia: os recursos são escassos!) e depois porque envolve significativa perda de capital humano. Por exemplo, li um estudo realizado pelo IPEA que indicava que o valor médio das internações registradas como lesões auto provocadas intencionalmente entre 1998-2004 era de R$ 507. De acordo com o estudo, a média de permanência por internação no período foi de quatro dias e a taxa de mortalidade de 3,70% dos casos.

O Brasil, por meio do Ministério da Saúde, já vem adotando algumas estratégias de prevenção ao suicídio.

– Portaria GM nº 2.542 de 22/12/2005: institui grupo de trabalho com o objetivo de elaborar e implantar a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio;

– Portaria GM nº 1.876 de 14/08/2006: principais estratégias:

 – desenvolver estratégias de promoção de qualidade de vida, de educação, de proteção e de recuperação da saúde e de prevenção de danos;

 – desenvolver estratégias de informação, de comunicação e de sensibilização da sociedade de que o suicídio é um problema de saúde pública que pode ser prevenido;

– organizar linha de cuidados integrais (promoção, prevenção, tratamento e recuperação) em todos os níveis de atenção, garantindo o acesso às diferentes modalidades terapêuticas;

 – identificar a prevalência dos determinantes e condicionantes do suicídio e tentativas, assim como os fatores protetores e o desenvolvimento de ações intersetoriais de responsabilidade pública, sem excluir a responsabilidade de toda a sociedade;

 – promover a educação permanente dos profissionais de saúde das unidades de atenção básica, inclusive do Programa Saúde da Família, dos serviços de saúde mental, das unidades de urgência e emergência, de acordo com os princípios da integralidade e da humanização.

– Elaboração e publicação de material técnico: manual para profissionais de CAPS, Guia de referências e serviços para profissionais na área de suporte a sobreviventes.

É bem interessante de se observar o caráter interdependente das medidas que a estratégia de prevenção ao suicídio contempla. Até porque a gravidade do problema demanda ações que envolvam o próprio Estado (como a atenção primária), as famílias, escolas etc. Ao discutirmos as estratégias de prevenção é importante pensar que o suicídio é um fenômeno que precisa ser trabalhado por meio de grupos (idosos, adolescentes, pessoas em situação de desemprego, etc) porque é um fenômeno multifatorial e que também é interdependente. Muitas das causalidades da ideação suicida se conectam e atingem de forma diversa os grupos, inclusive pensando do ponto de vista da faixa etária. A própria OMS afirma que o suicídio é a segunda causa de morte na faixa etária dos 15 aos 29 anos. E varia também conforme o sexo.

Global_AS_suicide_rates_bothsexes_2016.pngBasicamente o que estou dizendo é que os dados epidemiológicos reportam diferenças na vulnerabilidade para os atos suicidas em função do sexo. Por exemplo, as garotas têm uma taxa de tentativas de suicídio duas a três vezes superior aos garotos, eles tem uma taxa de suicídio cinco vezes superior às das garotas. Se ficou curioso ou curiosa, dê uma checada nos dados da OMS. Basta clicar nesse link.

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Para finalizar esse post, incentivei meus alunos e alunas a debater o que seriam os fatores de risco associados ao suicídio. Quando digo fatores de risco, falo de situações que tornariam mais provável o desenvolvimento de ideação suicida ou mesmo a ocorrência dos atos suicidas propriamente ditos e que poderíamos resumir nos acontecimentos de vida negativos (AVN), por exemplo abusos psicológicos, dos abusos físicos, dos abusos sexuais e na desesperança.