Fazer ciência faz a diferença na saúde pública.

Sabe aquela famosa história do viagra? Não? Bom, vou contar rapidamente.

Era uma vez uma indústria farmacêutica (Pfi zer) que pesquisava um novo medicamento para tratamento de uma doença cardíaca chamada angina. No vai e volta dos experimentos envolvendo a droga descobriu-se o aumento na irrigação sangüínea no pênis. Simplesmente era a otimização do óxido nítrico e, trocando em miúdos, era a arma mais combativa contra a impotência sexual masculina. E todos ficaram felizes no final: a Pfi zer ganhou e ganha muito dinheiro com o viagra, os homens que necessitavam dessa medicação ficaram muito felizes e até a biodiversidade agradeceu.

Sério. Até esse efeito benéfico o viagra produziu. Sabe por que? Vamos lá!

Basicamente o viagra reduziu a procura por remédios caseiros que, invariavelmente, tinham como matéria prima para sua produção alguns animais, caçados até se encontrarem em risco de extinção ou mesmo serem extintos. O impacto foi tal que houve uma queda por volta de 70% no comércio mundial de algumas espécies como a rena do Alasca, caçada por seu chifre aveludado, e dois tipos de focas, caçados por seus testículos. Segundo eles, a venda da rena caiu 72%, passando de US$ 700 mil em 1997 para US$ 200 mil em 1998. Já o número de focas mortas caiu 50%, de 40 mil em 1996 para 20 mil em 1998.

Contei essa história do viagra para poder contar outra notícia. E tão boa quanto.

Recentemente pesquisadoras (Mary A. M. Rogers, Tanima Basu & Catherine Kim) publicaram um artigo na Scientific Reports um estudo com dados entre 2001 e 2017, realizado nos Estados Unidos, sugeriu que a vacinação contra rotavírus pode ser a primeira medida prática a ser utilizada na prevenção da diabetes tipo 1.

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Não vou detalhar completamente o artigo que pode ser lido clicando aqui, mas basicamente o estudo de coorte envolveu 1.474.535 bebês nos Estados Unidos entre 2001 e 2017, usando dados de uma seguradora de saúde em todo o país. Como pesquisador fiquei interessado na fonte dos dados das pesquisadoras e achei a estratégia bem interessante.

 

Nos Estados Unidos são aplicados dois tipos de vacina contra o rotavírus: a vacina pentavalente RotaTeq, introduzida em 2006 e administrada em 3 doses aos 2, 4 e 6 meses; e o Rotarix monovalente introduzido em 2008 e administrado em 2 doses aos 2 meses e 4 meses. Como os dados nacionais sobre datas, tipos e doses de vacinas estão disponíveis nas seguradoras de saúde, as autoras puderam investigar (com uma dimensão superlativa nacional) a hipótese de que a vacina contra o rotavírus poderia reduzir a probabilidade de diabetes tipo 1 em crianças.

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Os resultados apontaram a redução de 33% no risco de diabetes tipo 1 após a conclusão da vacinação contra o rotavírus quando comparados o grupo de vacinados e não vacinados (IC 95%: 17%, 46%). As autoras concluíram que a finalização da série da vacina pentavalente foi associada com a taxa de 37% de menor risco envolvendo a diabetes tipo 1, o que é bastante significativo do ponto de vista estatístico (95% CI: 22%, 50%). Outro dado importante foi que foi reduzida em 31% as hospitalizações no período de 60 dias após a vacinação (95% CI: 27%, 35%) em comparação com crianças não vacinadas. O cômputo geral foi de que ocorreu uma redução de 3,4% na incidência anual em crianças de 0 a 4 anos no país entre os anos de 2006 a 2017. Aí reside a correlação entre a introdução da vacina em 2006 e a redução da incidência de diabetes tipo 1.

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As autoras recomendam no artigo que a manutenção dessa estratégia de vacinação pode produzir efeitos benéficos diretos na prevenção da diabetes tipo 1.

A ciência é fabulosa. Mira num alvo e muitas vezes acerta outro também. E numa era de terraplanismo e movimento antivacina ou o uso de dióxido de cloro usado para “tratar autismo, HIV/AIDS, câncer etc” no mais puro charlatanismo e mau caratismo que tenho notícia, esse tipo de publicação científica baseada em evidência e sua aplicação como política pública é fundamental para afastar essa era de trevas que nos assombra, seja nos EUA, na Europa ou na América Latina.