Pense na associação entre essas três variáveis: (1) clima, (2) saúde e (3) ecossistemas urbanos. Parecem bem distantes, embora eu acredite que no fundo você, leitor e leitora do Observatório de Impactos, sinta que essas três variáveis se relacionam sim de forma bem evidente.

Eu também acho e vou explicar o porque nesse post.

Primeiro quero relembrar que venho me debruçando nos últimos anos em pesquisas de caráter fortemente interdisciplinar para poder responder perguntas relativamente simples. Alguns artigos foram publicados sobre o tema com pesquisadoras e bolsistas de iniciação científica do Observatório de Impactos Ambientais e de Saúde. “Saneamento, Arboviroses e Determinantes Ambientais: Impactos na saúde urbana” e “O IMPACTO DAS ÁREAS DEGRADADAS NA DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DO ZIKA VÍRUS: UM ESTUDO DE CASO”.

Esta é uma das perguntas que me fiz:

Como a saúde pública é afetada pela degradação dos ecossistemas urbanos?

Esta pergunta que fiz, por exemplo, traz em si uma premissa interessante (na minha opinião): incluir as cidades como componentes ecossistêmicos, lapidando uma percepção mais orgânica e interdependente da ecologia, da economia e da saúde. E tudo isso mediado pela capacidade de políticas e planejamento urbano que adotem essa interdependência. Quanto mais a visão da cidade é orgânica e conectada, maior a capacidade de visualizar essa interdependência entre ecologia, economia e saúde nas cidades.

A resposta que dei a pergunta que fiz anteriormente não traz nenhuma novidade. Refletir a saúde pública demanda incorporarmos variáveis como componentes do clima, a temperatura, a umidade, a radiação e o vento para entender melhor como se comportam algumas doenças que impactam diretamente a saúde pública. As arboviroses são excelentes exemplos e, inclusive, são o tema do projeto de pesquisa que aprovei no edital universal do CNPq em 2018.

Querem ver um exemplo dessa conexão clima, saúde e ecossistemas urbanos?

Hoje podemos dizer que nossa espécie humana é majoritariamente urbana. E dado o crescimento exponencial das cidades no último meio século, as áreas que anteriormente eram habitat de inúmeras espécies (fauna e flora) foram sistematicamente reduzidas. A mudança na cobertura do solo com a retirada de florestas e substituição por ruas, casas e prédios produziu impactos como as ilhas de calor (já que perde-se cobertura vegetal para a pavimentação) que variam em conformidade ao horário do dia e ao tempo de exposição à radiação solar. Resultado? As ilhas de calor alteram tanto a magnitude do calor sensível e latente bem como os fluxos de momentum e massa e o aumento da precipitação convectiva, entre outros efeitos.

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Um dos efeitos mais nefastos das ilhas de calor se dá sobre grupos populacionais mais vulneráveis a mudança micro climática urbana e aqui me refiro às ondas de calor que provocam impactos significativos em crianças, idosos e também em pessoas com doenças crônicas. Em 2018 no Japão, por exemplo, mais de 80 idosos moradores de áreas urbanas morreram devido a ondas de calor. E não foi só no Japão.

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A meteorologista Renata Libonati e seu grupo de pesquisa publicaram um artigo intitulado “Caracterizando as condições atmosféricas durante a onda de calor de 2010 no Rio de Janeiro, marcadas por taxas excessivas de mortalidade” que apontam o impacto das ondas de calor numa cidade brasileira e a coisa, definitivamente, não está promissora para esse lado de cá. Num estudo publicado recentemente na PLOS Medicine, o Brasil (ao lado da Colômbia e das Filipinas) sofrerão nas próximas décadas com as ondas de calor, o que resultará no aumento da taxa de mortalidade de grupos mais vulneráveis a essa intempérie. A coisa é séria mesmo: numa avaliação mais “otimista” o aumento na taxa de mortalidade será de até 25% e numa visão mais pessimista até 75% de aumento na taxa de mortalidade.

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O pesquisador em profunda reflexão: nem com toda cerveja mais gelada é possível amenizar as ondas de calor

Outro exemplo da relação entre clima, saúde e ecossistemas urbanos: num estudo publicado em 2012 por Coelho-Zanotti e Massad sobre o impacto das enchentes na saúde urbana em São Paulo, os autores identificaram que dado uma chuva de 100 mm, depois de 14 dias da ocorrência da enchente, há um aumento aproximado de 150% nas internações por leptospirose.

Clima urbano e saúde

Por conta dessa interdependência de eventos venho desenvolvendo pesquisas comparativas para entender o status de cidades brasileiras para enfrentar esse mosaico de problemas que a urbanização ambientalmente não planejada estimula. Aí entra justamente o componente de políticas públicas.

Como os gestores públicos planejam medidas para mitigar as calamidades envolvendo enchentes, ondas de calor, epidemias de arboviroses?

Por enquanto as respostas não são muito positivas.