Neste semestre estou lecionando a disciplina de Manejo de Recursos Naturais para o curso de Engenharia Ambiental. Sempre digo que é um prazer enorme retomar o ensino desse tema por conta de sua importância para a disciplina de Avaliação de Impactos Ambientais e, além dela, da disciplina de Planejamento Urbano. Por conta dessa diversidade de disciplinas é possível ver o grau multidisciplinar e, por minha opção, interdisciplinar que emprego em minhas aulas.

É colocar os campos científicos para dialogar, até mesmo na marra. No caso, ninguém me convence que as abordagens científicas disciplinares hoje dão conta do recado dessa realidade que vivemos, ainda mais quando temos objetos como “cidades”, bem-estar social” e “ecologia”. Ou integramos as disciplinas ou não respondemos perguntas básicas como: “como podemos melhorar a vida nas cidades?”

Daí a importância do tema desse post: a resiliência urbana.

Mas o que vem a ser, então, resiliência urbana?

Primeiro é fundamental entender o que é resiliência. A definição mais simples que você pode encontrar, leitor e leitora do Observatório de Impactos, é a de que resiliência deve ser entendida como a capacidade que um ecossistema tem de responder a uma perturbação que lhe inflija danos e sua capacidade de recuperação. Também podemos acrescentar que a resiliência pode indicar a capacidade de sobrevivência, aprendizagem e adaptação desse ecossistema.

E aí chegamos a um ponto interessante que estou trabalhando com meus alunos e minhas alunas: é a cidade um ecossistema? A resposta que dou é positiva. Sim, é um ecossistema.

Por que? Minha resposta vem diretamente de um relatório da ONU (DOCUMENTOS TEMÁTICOS DA HABITAT III, 16 – ECOSSISTEMAS URBANOS E GESTÃO DE RECURSOS):

“Os sistemas sociais e econômicos que visivelmente formam as cidades são construídos com base nos ecossistemas que suplantam, e são perpetuamente dependentes do fluxo de serviços de ecossistema, tanto dentro quanto fora da cidade.”

Basicamente, a cidade depende diretamente para suas funções de suporte social de quatro serviços ambientais: moderação do microclima urbano e melhora da qualidade do ar, oportunidades para recreação e melhora da saúde dos cidadãos e devolve aos ecossistemas resíduos, gerando um déficit. É claro que outros serviços ambientais podem ser incluídos, não necessariamente de ecossistemas que as cidades estão inseridas, como alimentos, medicamente e madeira, mas vemos essa dependência cidade-ecossistema. Até escrevi em outro post o déficit ecológico das cidades que pode ser lido clicando aqui.

E dado que nossas cidades são ecossistemas, podemos dar um passo conceitual e visualizar que seu ecossistema também pode ser observada a partir de sua resiliência. É claro que estamos alargando um conceito da Ecologia para explicar o Desenvolvimento Urbano, mas é essa visão mais orgânica da cidade (especialmente a partir da Economia Ecológica que tenho) que demanda uma apropriação conceitual. Assim como nos ecossistemas naturais, as cidades também sofrem impactos e pressões em seus habitat e nas populações e comunidades que as integram.

Qual a capacidade de resposta a essa pressão?

Querem ver um exemplo? Em tempos de mudanças climáticas (discute-se muito mitigação, mas pouco adaptação, mas esse é tema para outro post) imaginemos uma cidade que enfrente enchentes recorrentes. Como ela mostra sua resiliência? Aí entra a dimensão política da resiliência urbana. Essa capacidade de resiliência se encontra na medida em que as políticas de planejamento urbano para as áreas afetadas também contemplem o enfrentamento de situações análogas e interdependentes como a desigualdade social na oferta de bens e serviços urbanos para as comunidades. Não é de se estranhar que famílias pobres tenham menos resiliência que famílias ricas ao enfrentarem uma situação de calamidade pública. Não é apenas por quanto dinheiro tem na conta corrente (e isso importa e muito), mas também que os bairros mais ricos tem melhor oferta de bens, equipamentos e serviços públicos para se recuperarem do impacto sofrido por alguma ameaça urbana.

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Vista de Manaus a partir da torre de observação do MUSA. Fotografia de Diego Freitas Rodrigues

Quando um ecossistema urbano é degradado, como o desmatamento em áreas de preservação permanente, as enchentes se tornam mais perigosas aumentando em muito o tamanho das áreas de risco numa cidade, o que afeta diretamente sua resiliência. Este tema, definitivamente, é muito interessante. E a ONU vem produzindo reuniões com policy makers ao redor do mundo para alavancar a qualidade do desenvolvimento urbano nos países. Também nas universidades o tema ganha mais e mais importância. Ainda bem.

Abaixo alguns vídeos que podem deixar ainda mais claro a importância desse debate.