Não é de hoje que chama a atenção, na literatura de Economia do Meio Ambiente e nas mais diversas áreas científicas ou na mídia em geral, o dilema que cerca a conexão entre o crescimento econômico e a degradação ambiental. Qualquer bom manual de Economia do Meio Ambiente (seja de viés neoclássico ou da Economia Ecológica) indica esse trade-off que pode ser visualizado na Curva Ambiental de Kuznets.

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Ao se analisar o trade-off entre crescimento e poluição, alguns modelos apontaram uma relação não linear entre os dois fatores. Em alguns casos, as análises de regressão geraram curvas em formato “U” invertido.

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Simon Kuznets

A interpretação derivada apontou que, realmente, a poluição acompanha, inicialmente, o crescimento da produção nacional, configurando um “efeito renda”, entretanto, ao se atingir determinado nível de renda, a qualidade ambiental começa a crescer de forma paralela ao PIB per capita. Seguiram-se diversos trabalhos na área da Economia, nos quais muitas análises de regressão empregadas geraram curvas com o formato “U” invertido, batizando-se, no caso, de Curva Ambiental de Kuznets pela similaridade analítico-empírica entre o trade-off entre crescimento econômico e degradação ambiental e crescimento econômico e distribuição de renda, alvo do trabalho de Kuznets em artigo publicado em 1955.

O ponto em comum dos modelos econométricos que utilizam a Curva Ambiental de Kuznets é a estimação de uma relação quadrática entre: (1) a medida de degradação ambiental, como emissões de CO2 per capita e a (2) renda per capita para a realização do teste do desenho de “U” invertido observado nesta curva.

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Nesse modelo basicamente o que se indica é que dado o estoque inicial de capital reduzido numa economia, as taxas de emissão até vão crescer, mas a tendência é de queda com o avançar do tempo. Do outro lado, caso o estoque inicial de capital na economia for alto, ocorre o contrário: uma queda nas taxas de emissão de poluentes dado o crescimento da economia, configurando um animador “estado de equilíbrio”.

Pois é.

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O que basicamente quer dizer que a melhoria ambiental não virá sem, necessariamente, o crescimento econômico, algo que particularmente discordo (e não sou o único): Herman Daly, um dos maiores figurões da Economia Ecológica aponta com seus trabalhos um caminho contrário que terminou por levá-lo a defender até o decrescimento.

De toda forma, na abordagem neoclássica, ao final dessa curva estilizada, desenhada de maneira progressiva, o crescimento econômico não resultaria no aumento da degradação ambiental. É meio que pagar para ver o que é uma verdadeira manifestação  “Poliana” de ingenuidade, em minha opinião. Sou muito mais o bom e velho princípio da precaução.

Esse debate, de toda forma, é muito rico. A própria correlação entre crescimento econômico e degradação ambiental em formato de “U” invertido, como aponta a Curva Ambiental de Kuznets, e uma diminuição desse impacto das atividades econômicas no meio ambiente ao se atingir um padrão de desenvolvimento não é inteiramente consensual na própria Economia Ambiental Neoclássica.

Curioso, não?! Fazer ciência é basicamente isto. O debate se faz através do questionamento.

Veja, a ideia é que o formato de “U” invertido não seria um “fim” em si mesmo, mas apenas um estágio da relação entre crescimento econômico e degradação ambiental. Segundo essa análise, atingindo-se determinado nível de renda, ocorreria uma nova trajetória de ascendência dos impactos do crescimento econômico sobre o meio ambiente, fomentando na verdade uma curva “N”, no qual a degradação ambiental seria retomada ao se elevar os níveis de crescimento econômico.

Faz muito mais sentido.

Adicionalmente, alguns economistas acreditam que países com taxas de crescimento menores são mais propensos a sacrificar seus recursos naturais em prol do desenvolvimento econômico.

Também faz muito sentido. E aí chegamos ao objetivo desse post: as tão divulgadas mudanças climáticas.

A mudança do clima é um tipo acentuadamente dificultoso de externalidade para a Economia (seja da Ecológica ou Ambiental Neoclássica), pois afeta uma imensa e diversa rede de atividades econômicas e de bens e serviços ambientais pelo seu caráter de fenômeno interdependente. Esse quadro resulta na dificuldade de elaborar, do ponto de vista analítico, padrões eficientes de redução de emissão de GEE que possam, de forma adequada e “consensual” entre agentes públicos e privados, estipular um valor do custo social do carbono para a orientação de políticas públicas.

O custo social do carbono é igual ao valor presente líquido do custo marginal relativo à emissão de GEE. Para o economista, este valor – uma espécie de taxa pigouviana – seria igual a uma taxa de desconto que teria por objetivo a internalização desse custo social do carbono numa economia.

Lá pelos idos de 2010 (eu, bolsista da FAPESP e doutorando suando pra entregar a tese) li algumas estimativas do Banco Mundial para uma Economia de Baixo Carbono para o Brasil. E a coisa era relativamente “simples”: com a adoção de medidas políticas de mitigação e adaptação ou sem a adoção. Lembro-me de ficar assustado com o que a modelagem econômico-climática apontava:

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Notem que a 2ª coluna – Referência 2030 – representa o cenário inercial, enquanto a 3ª coluna – Baixo Carbono 2030 – reflete possibilidades de mudança relacionadas à adoção de políticas públicas e instrumentos econômicos que desincentivem o crescimento de emissões e promovam mudanças na matriz energética e reduza emissões nos setores de transportes, resíduos, atividades agropecuárias, bem como redução do desflorestamento.

E qual é o grande problema atual? Nosso indicador de maior emissão, o desmatamento, voltou a crescer. E com o que o atual governo federal demonstra, não será prioridade reduzir esse impacto do desmatamento.

E o que me deixa ainda mais alarmado é que nem a retomada da industrialização é avistada. Não crescemos economicamente, nos desindustrializamos, caminhamos a passos largos para a reprimarização da economia brasileira e ainda por cima aumentamos a taxa de emissão de gases do efeito estufa. É trágico.

Caso se interesse sobre área da Economia do Meio Ambiente segue abaixo um vídeo do Tim Jackson:

Abaixo um vídeo sobre desindustrialização e estruturas produtivas no Brasil para quem tem curiosidade sobre o tema.

Caso tenha achado o debate sobre crescimento econômico e degradação ambiental interessante, segue abaixo algumas referências legais para ler:

DE BRUYN, S. M. Economic Growth and the Environment. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2000.

MEADOWS, D. H. et al. The limits to growth. New York: Universe Books, 1972.

SHAFIK, N.; BANDYOPADHYAY, S. Economic growth and environmental quality: a time series and cross-country evidence. Journal of Environmental Economics and Management, v. 4, p. 1-24, 1992.