Estou terminando a leitura de mais um livro do Jared Diamond, professor da Universidade da California, Los Angeles. No caso, o livro se chama “O Terceiro Chimpanzé”, uma profunda reflexão que o biogeógrafo (também autor de clássicos como “Colapso”, “Armas, Germes e Aço” e “O Mundo até ontem”) faz sobre a evolução humana e as associações comportamentais e genéticas com outras espécies, especialmente outros primatas. E como bom leitor, acho que um bom livro deve ser acompanhado de um bom vinho.

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Vida particularmente difícil no momento.

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“O Terceiro Chimpanzé” é um livro extremamente instigante, como em geral são as obras de Jared Diamond. Publicado originalmente em 1992 e reeditado aqui no Brasil em 2018, o livro já insere questões embrionárias que o biogeógrafo irá trabalhar com bastante afinco em outros livros. Exemplo melhor é a Parte Quatro do livro, “Conquistadores do Mundo”, que podemos ler as reflexões iniciais que resultariam em “Armas, Germes e Aço”. E particularmente nesta Parte Quatro do livro há um capítulo, “Em preto e branco”, que me deixou absolutamente instigado: a ética do genocídio. Neste capítulo em especial, Jared Diamond retoma dezenas de exemplos de genocídios produzidos pela espécie humana, ao longo da história e dos continentes. E o autor busca contextualizar esses genocídios histórica e culturalmente, mas em atento paralelo com o comportamento de outras espécies que também matam seus semelhantes. É absolutamente assustadora a análise de Jared Diamond porque nos encurrala, como leitores, a revisitar nossas  leituras e interpretações sobre a “banalidade do mal”, termo que empresto da filósofa Hannah Arendt, para explicar os inúmeros casos de genocídio. Embora a ética seja um freio para o genocídio, não foi um freio muito eficaz ao longo da história.

Neste capítulo em especial Jared Diamond compara os procedimentos de limpeza étnica e as inúmeras e assustadoras justificativas para esses procedimentos. Diamond conduz sua argumentação usando exemplos bíblicos (a queda de Jericó e o extermínio de sua população), mas também com casos contemporâneos, como o genocídio dos tasmânianos pelos colonos britânicos numa operação planejada e executada pelo Estado apoiando material e politicamente os colonos, além do exemplos de presos políticos na Argentina durante a ditadura militar, com as centenas de casos de presas grávidas que, após o parto, foram executadas e seus filhos e filhas entregues a famílias de militares. A descrição das atrocidades cometidas e suas inúmeras justificativas fajutas são assustadoras e quando digo assustadoras porque são extremamente simples e fáceis de serem repetidas.

O TERCEIRO CHIMPANZÉ0001

Muito do que Diamond entrega em sua reflexão sobre porque nós, humanos, produzimos massacres como o extermínio de judeus, eslavos e ciganos (povo romani talvez seja mais correto até onde sei como um dos grupos étnicos) pelos nazistas ou a política de extermínios de povos aborígenes na Austrália e indígenas aqui no Brasil, pode ser reduzida a dicotomia “Nós” e “Eles”. Embora tenha sido registrado o comportamento assassino de chimpanzés em grupos contra outros chimpanzés, por exemplos, ainda assim nossa espécie é única na medida em que traz milhões de anos de evolução biológica e cultural para sermos mais precisos e eficientes no extermínio de semelhantes. Somos exemplares na prática de genocídio e no suicídio ecológico.

O que ajuda bastante a sepultar a ideia de que a evolução biológica de alguma forma está associada a uma evolução cultural. Não, não está, é o resultado da minha leitura. Jared Diamond ilustra bastante bem e com fartura de exemplos como o comportamento humano é predatório não apenas com sua própria espécie, mas também com as outras que dividimos o planeta. É interessante que no livro Diamond quase clama para que nossas mensagens enviadas às estrelas não sejam ouvidas pelos alienígenas, porque tal qual Stephen Hawking é muito temeroso do que possa ocorrer com um contato com uma espécie alienígena. E seu temor é bem fundamentado: o que nós, enquanto espécie, fizemos conosco mesmo? Europeus chegaram às terras que são hoje denominadas Américas e dizimaram (inadvertidamente com doenças ou de forma planejada, com doenças e espada) as populações originárias. Por que os aliens não fariam o mesmo conosco?

Como havia dito, também me chamou bastante atenção nesse comportamento predatório humano a capacidade de extremo impacto de nossa espécie sobre as outras e não foi muito difícil para Jared Diamond descrever o conceito de “suicídio ecológico”. Há casos abundantes ao longo da história para ilustrar como o comportamento predatório humano impacta o meio ambiente e danifica de forma gravíssima a capacidade de resiliência dos ecossistemas que dão suporte justamente aos seres humanos. Nessas horas me lembro do Agente Smith, personagem interpretado por Hugo Weaving no filme Matrix, sobre como somos uma espécie de vírus no planeta com a incrível capacidade de nos alocarmos num local, esgotarmos seus recursos e imediatamente buscarmos outros locais para utilizarmos ao máximo seus recursos, esgotarmos e, assim, prosseguirmos, mas o planeta é finito e os recursos naturais são, em sua imensa maioria, também finitos e esgotáveis.

Fica difícil não concordar que temos um comportamento ecológico suicida quando pipocam notícias como essa: Onças da América do Sul são mortas para virar remédio tradicional na China

Inclusive, pretendo dar um curso de curta duração sobre Bioética e certamente vou utilizar “O Terceiro Chimpanzé” como leitura obrigatória.

 

“O Terceiro Chimpanzé” é um livro excelente. Recomendo mesmo sua leitura, assim como toda a obra de Jared Diamond publicada no Brasil. Caso não o conheça, abaixo disponibilizo uma palestra que o biogeógrafo ministrou no TED TALKS.