Passei um bom tempo lendo com demasiada empolgação clássicos da Economia do Meio Ambiente (incluindo aí na brincadeira tanto as escolas Neoclássicas quanto a Economia Ecológica com especial ênfase nessa última) e me lembro que uma vez me deparei com uma observação que considerei bem interessante sobre a Ecologia das Cidades do ponto de vista da Termodinâmica, parâmetro que guiava as reflexões de Georgescu-Roegen. Não conhece esse economista? Então aqui está o link para o artigo “A economia ecológica e evolucionária de Georgescu-Roegen” do Andrei Domingues Cechin e do José Eli da Veiga que pode ser acessado clicando aqui.

Não lembra exatamente das Leis da Termodinâmica, ou melhor, da Lei de Conservação da Energia?

Vamos refrescar a memória porque a minha mesmo está cada vez mais falha. Mas aqui o que vai importar para o paralelo é a denominada:

1º Lei da Termodinâmica

Vamos lá! dada uma transformação, existem duas formas de que o gás possa trocar energia com o meio ambiente: calor e trabalho. Daí que dada essa troca, três situações se tornam possíveis quanto a energia (podemos dizer num sistema fechado): (1) aumento, (2) redução ou (3) estabilidade (constante),  no qual ΔU = Q – W. Daí justamente a ideia da conservação da energia, mas atentem para a ideia de troca envolvendo energia com o meio ambiente para pensarmos na relação entre cidades e meio ambiente.

Quais trocas ocorrem entre o meio urbano e ecológico?

Podemos observar nosso comportamento para intuir uma resposta. Já disse aqui pelo blog que de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), entre 2007 e 2050, a população urbana  registrará um aumento da envergadura de 3,1 bilhões de pessoas. Na América Latina registra-se que: “75% da população vive em áreas urbanas, o que, em números absolutos, se traduz em 375 milhões dos 500 milhões de habitantes da região”. Dos quais, frisa-se, 120 milhões encontram-se abaixo da linha de pobreza.

Imagina toda essa gente consumindo cada vez mais os ditos recursos naturais e gerando impactos diversos e estratificados (de acordo com renda per capita), por exemplo. Consumimos serviços ambientais (como polinização e água, muita água, entre outros) para nos alimentar, para construir (caso de areia, por exemplo e o que? sim, ela, a água) e o que devolvemos para o meio ambiente? Resíduos. Muitos resíduos.

Também recebemos filtragem do ar e o que devolvemos para o ambiente? Poluição. E para piorar, ainda desmatamos o que resta de áreas verdes nas cidades. Mas calma lá, nem todas as cidades. Na verdade, até selecionei algumas imagens de satélite de cidades pelo mundo para conseguirmos identificar como essas áreas verdes vão perdendo terreno para concreto e asfalto. E em cidades com temperaturas médias altas, imagina o sofrimento de calorão que se passa?!

LAGOS
Lagos, Nigéria: temperatura varia de 24 °C a 33 °C e raramente é inferior a 21 °C ou superior a 34°C

Lembra de que insisti que um dos serviços ambientais que mais impactamos pelo comportamento urbano predatório que mantemos com o ambiente é o relativo aos serviços hídricos? Pois é. Perda de cobertura vegetal, alta emissão de poluentes atmosféricos, produção de resíduos industriais e contaminação de corpos hídricos, entre outros.

LAGOS street view
Só por essa imagem do Street View já conseguimos visualizar bem o déficit ecológico envolvendo as cidades

Não é de se estranhar que o epistemólogo Enrique Leff considere que as cidades são “naturalmente” insustentáveis. Acompanhando sua linha de raciocínio, a insustentabilidade da cidade se dá por sua capacidade, enquanto organismo, de concentrar produção, avolumar população se produzindo mais consumo e, consequentemente, degradando ainda mais seus ecossistemas por falta de regulação e planejamento.

Los Angeles
Los Angeles: mais um caso de urbanização com múltiplos fragmentos de áreas verdes, mas com incidência maior de arborização em bairros mais ricos.

Por exemplo, a falta de arborização urbana impacta muito mais áreas mais pobres do que áreas mais ricas. O ponto é: para acomodação urbana, seja rico, pobre ou a famosa classe média a perda de cobertura vegetal é a regra, o que varia entre as cidades é a capacidade que o Estado oferta para que a sociedade civil se organize para manter ou mesmo rearborizar uma área na cidade. A desigualdade importa muito nessas horas, porque a desigualdade afeta inclusive o acesso aos serviços públicos.

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Desigualdade ambiental em duas imagens em Los Angeles. Fotografia de Johnny Miller.

E a troca de energia entre cidade e meio ambiente?

Bom, essa foi a razão do post. E a resposta é que vivemos um enorme déficit nessa troca. Se tem dúvida, basta passar uma semana percorrendo a cidade que mora. Observe o esgoto que transborda na rua, a água da chuva que não escoa ou aquela área verde que virou um lixão. Tudo isso tem um custo não contabilizado e gera um déficit ainda maior na troca de energia entre cidade e meio ambiente.

Agora assistam esse vídeo abaixo e vejam se ainda não impactamos ainda mais o meio ambiente ao usar a água para amenizar a poluição atmosférica. Água que já é um recurso escasso sendo usada para amenizar os efeitos dos impactos de um modelo econômico altamente poluidor. É surreal. Parece ficção científica de Perry Rodhan, mas é a realidade.