Fiquei sem publicar nada aqui no blog na última semana por conta de uma viagem extraordinária que fiz a Buenos Aires com a Professora Vivi (minha companheira de vida e de vinhos). Acreditem, muito vinho foi degustado nessa viagem com ampla vantagem aos Malbec de Mendoza. Meio óbvio, não?! Afinal, a Argentina é a “terra dos melhores Malbec”, ao menos é a fama que leva e, no final das contas, fez muito sentido. Citei vinhos de Mendoza, mas também provei outras variedades e localidades (por exemplo, Merlot e vinhos de Rio Negro).

Mas este post é sobre enologia, ou melhor, sobre avaliação de impactos da produção de vinho?

Não, talvez para uma próxima vez, mas por agora não. Este post é sobre os impactos da poluição do ar na saúde pública.

Tenho uma orientanda de Mestrado, bolsista CAPES, que estuda a associação em grandes regiões metropolitanas entre desmatamento, níveis de poluição e favelização. Eu e Tainá (dê uma olhada no lattes dela se quiserem saber o título da dissertação) “volta e meia” conversamos sobre a inclusão ou não de alguma variável relacionada a saúde (se independente ou controle não sabemos porque ainda estamos conversando) e de repente hoje, enquanto lia o jornal, me deparo com a notícia da publicação de um relatório publicado por Michael Greenstone e Claire Qing Fan, do Energy Policy Institute da University of Chicago. Foi um impacto (olha o trocadilho) enorme para meu café da manhã!

Óbvio que comecei a ler imediatamente (está em inglês) e já encaminhei o pdf para Tainá também fazer sua leitura. E posso adiantar para vocês, a coisa é assustadora!

Basicamente, a poluição do ar nas nossas grandes cidades mata mais que o cigarro. Material particulado na atmosfera tira 1,8 ano da expectativa de vida. Imaginem esse cenário replicado para países com megalópoles onde a expectativa de vida já é baixa?! Para citar dois casos: Mumbai, na Índia e a Cidade do México, no México.

Vamos lá! É importante saber minimamente o que seria material particulado para entendermos o tamanho da encrenca. De acordo com a CETESB:

poluente qualquer substância presente no ar e que, pela sua concentração, possa torná-lo impróprio, nocivo ou ofensivo à saúde, causando inconveniente ao bem estar público, danos aos materiais, à fauna e à flora ou prejudicial à segurança, ao uso e gozo da propriedade e às atividades normais da comunidade.

 

E Material particulado, que é a encrenca do dia? Também de acordo com a CETESB:

Material Particulado (MP), Partículas Totais em Suspensão(PTS), Partículas Inaláveis (MP10), Partículas Inaláveis Finas (MP2,5) e Fumaça (FMC). Sob a denominação geral de Material Particulado se encontra um conjunto de poluentes constituídos de poeiras, fumaças e todo tipo de material sólido e líquido que se mantém suspenso na atmosfera por causa de seu pequeno tamanho. As principais fontes de emissão de particulado para a atmosfera são: veículos automotores, processos industriais, queima de biomassa, ressuspensão de poeira do solo, entre outros. O material particulado pode também se formar na atmosfera a partir de gases como dióxido de enxofre (SO2), óxidos de nitrogênio (NOx) e compostos orgânicos voláteis (COVs), que são emitidos principalmente em atividades de combustão, transformando-se em partículas como resultado de reações químicas no ar.

Dado esse panorama geral do que é a encrenca, vamos comentar rapidamente o tamanho da encrenca.

De acordo com o estudo, a maior ameaça a saúde humana não é a Tuberculose e nem o HIV/AIDS, mas sim a poluição do ar. Não estranho nem um pouco, afinal, a maior parte das pessoas já vive em cidades e a tendência é que as cidades cresçam ainda mais, na maior parte das vezes sem planejamento urbano e ambiental algum. Na América Latina – o continente mais urbanizado do mundo –, a população urbana chega a 82%; no Brasil, a 84%. E no modelo de urbanização que vivemos a dependência de veículos automotores é enorme, para não falar da indústria que de forma geral ainda engatinha na mudança de padrões de emissão de poluentes atmosféricos.

causas de redução de expectativa de vida

Assusta o tamanho desse impacto, não é?Alcool e drogas perdem para a poluição particulada, ou seja, a vida urbana nos rouba bom tempo de vida.

Daí podemos observar os números alarmantes de doenças cardiorespiratórias que crescem ano após ano. Duvida? Dá uma olhada nesses dados:

Entre os anos de 1996 e 2000, houve um aumento de 10 μg/m3 do poluente MP10 (material particulado menor que 10 micrometros) que associou-se com o aumento nas admissões hospitalares de 4,6% por asma em crianças e 4,3% por doença pulmonar obstrutiva crônica. Caso tenha curiosidade sobre esse estudo, basta clicar aqui.

E retomando o relatório da Universidade de Chicago, uma das conclusões que a dupla de pesquisadores chega é que a produção de energia é a fonte primária para a poluição particulada. Abaixo a explicação em inglês:

Because coal contains sulfur, coal-fired power plants and industrial facilities generate sulfur dioxide gas. Once in the air, the gas may react with oxygen and then ammonia in the atmosphere to form sulfate particulates.
Combustion that occurs at high temperatures, such as in vehicle engines and power plants, releases nitrogen dioxide, which undergoes similar chemical reactions in the air to form nitrate particulates. Diesel engines, coal-fired power plants, and the burning of coal for household fuel all involve incomplete combustion. In this type of combustion, not enough oxygen is present to generate the maximum amount of energy possible given the amount of fuel. Part of the excess carbon from the fuel becomes black carbon, a component of PM2.5 that is also the second- or third-most important contributor to climate change after carbon dioxide and perhaps methane.

fumaça

Ah, mas a tecnologia não pode dar um jeito nisso daí, não?

Poder, pode, mas vai aumentar os custos energéticos. Daí podemos imaginar a velocidade da mudança que se faz necessária e a necessidade de controle de custos cada uma vindo na mesma direção à 200 km/h.

Só reforça a percepção de que as políticas envolvendo saúde, meio ambiente e desenvolvimento urbano e industrial precisam URGENTEMENTE ser desenhadas de maneira orgânica e articulada e não compartimentada. Acho que é óbvio demais para quem trabalha com políticas públicas, o desenho institucional importa demais para contornar custos de transação envolvendo tantos atores com tantos interesses. Imagina se há debate sobre custos em saúde na hora de se planejar linhas de créditos para montadoras de automóveis ou mesmo a abertura de novas vias urbanas par escoar trânsito. Desenhar instituições e políticas que levem sem seus respectivos processos decisórios esses custos incluindo aí sim agentes econômicos do mercado e sociedade civil e cientistas, todo mundo junto aumentando ainda mais os custos de transação, mas não vejo outro jeito. Ou encontramos uma solução conjunta ou vamos nos ferrar coletivamente compartimentados em nossos nichos de interesse. Por isso acho interessante que esse relatório seja destinado especialmente a policy makers.

Abaixo um vídeo com uma matéria da Al Jazeera em inglês sobre a poluição do ar na China.