Segundo o relatório Healthy Envrionment, Healthy People (2016) criado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a degradação ambiental foi responsável pela morte de aproximadamente 12.6 milhões de pessoas em todo o mundo no ano de 2012. Nem faz muito tempo, não é?!

A relação das doenças com o meio ambiente se da principalmente em áreas de alta vulnerabilidade socioambiental e reúnem fatores que facilitam a procriação dos vetores e consequentemente, a transmissão dessas doenças. A degradação ambiental está relacionada com o surgimento de novas doenças já que, em uma área degradada, há uma menor diversidade biológica, ou seja, o novo patógeno irá encontrar menos competidores e predadores. E aí entra um impacto da urbanização nos serviços ambientais: modulação de doenças infecciosas transmitidas por vetores.

Afrane et al. (2005) no artigo Effects of microclimatic changes caused by land use and land cover on duration of gonotrophic cycles of Anopheles gambiae (Diptera: Culicidae) in Western Kenya Highlands publicado no Journal of Medical Entomology identificaram que o aumento na temperatura de 0,5 °C (apenas) foi associado com o aceleramento do ciclo reprodutivo da espécie Anopheles, mosquito transmissor de doenças como a malária.

Percebam nesse diagrama a associação entre áreas verdes urbanas e saúde.

No Brasil, a maior parte da população vive em ambientes urbanos e, como é evidente na maioria dos casos, essas regiões passam por um processo de constante alteração, porém, estas acabam por causar algum tipo de impacto ao meio ambiente, sendo normalmente negativo. Invariavelmente o crescimento urbano é pouco planejado para a manutenção das áreas verdes que, no fim das contas, “sobrevivem” fragmentadas.

Vejam o caso de Maceió, Brasil, e Guadalajara, México, nas imagens de satélite abaixo.

De acordo com o World Health Organization de 1967, os “arbovírus são vírus que são mantidos principalmente na natureza, ou uma extensão importante, através da transmissão biológica entre hospedeiros vertebrados suscetíveis e artrópodes hematófagos“. O Zika vírus é um arbovírus do gênero Falvivírus, família Flaviviridae, que tem como vetor principal o mosquito Aedes aegypti (artrópode hematófago), o qual foi isolado pela primeira vez em 1947 em macacos Rhesus (hospedeiro vertebrado), na floresta Zika, em Uganda, o que deu origem à sua denominação.

E nas pesquisas que fazemos no Observatório de Impactos Ambientais e de Saúde, trabalhamos com a ideia de que assim como em qualquer outra doença infecciosa, a distribuição da Zika está relacionada à forma com que são realizadas as intervenções humanas no meio ambiente, por isso nosso foco em associar as variáveis epidemiológicas a variáveis de natureza urbana, ambiental e demográfica.

Daí essa observação de uma estreita relação que as doenças como dengue, zika ou chikungunya possuem com o meio ambiente impacta de forma mais severa áreas de alta vulnerabilidade socioambiental por conta da aglomeração de pessoas em habitações precárias ou simples abrigos, onde estão reunidos fatores que facilitam a procriação dos vetores e consequentemente, a transmissão dessas doenças.

Abaixo, temos a evolução dos casos de Infecção por Zika vírus notificados no município de Pilar no ano de 2016, logo após o boom de casos de zika vírus em Alagoas e Pernambuco.

Dados                             Frequência absoluta                               Frequência relativa (%)

Ignorado/Branco                     5                                                                      2,42

Confirmado                              4                                                                      1,93

Descartado                               1                                                                       0,48

Inconclusivo                          197                                                                    95,17

Total                                        207                                                                     100

O que chamou a atenção de meus bolsistas de iniciação científica, Pedro e Letícia, foi a quantidade significativa de casos notificamos, mas inconclusivos. É praticamente o quadro completo. Pilar é um município pertencente à região metropolitana de Maceió com sérios problemas de déficit habitacional e sanitário. Mas também devemos pensar num déficit de capacidade de gestão pública, muitas vezes por conta de recursos humanos na gestão que não atendem a pressão e demanda. Nessas horas vejo a urgência de estreitar laços entre as universidades e a gestão pública, especialmente municipal.

Agora vejam como ocorre o oposto em Rio Largo, outro município da região metropolitana de Maceió. Menos casos inconclusivos e mais casos confirmados.

E quando dizemos que as epidemias de arboviroses estão diretamente associadas ao déficit de infraestrutura urbana e ambiental não é brincadeira. Querem indicadores melhores para ver o grau de comprometimento da infraestrutura urbana e ambiental de um município que os indicadores de acesso à água e esgoto?

Há muito a ser pesquisado sobre a associação entre arboviroses, saúde e urbanização. Acho, inclusive, que é uma agenda de pesquisa que obrigatoriamente deveria incluir constantes reuniões entre grupos de pesquisa e gestores públicos. De toda forma, seguimos no Observatório de Impactos Ambientais e de Saúde com essa agenda de pesquisa. Estamos finalizando o banco de dados sobre casos notificados de dengue, zika e chikungunya no Brasil com dados do Ministério da Saúde e também estamos concluindo a distribuição espacial dos casos em Belém, Porto Alegre e Maceió.