Acho que existe para qualquer que seja a política pública dois consensos para analistas: é preciso investimento e é fundamental uma gestão precisa e eficiente desses investimentos na sua alocação e distribuição. E é exatamente assim no campo das políticas e programas na área de Saúde Pública. Esse tipo de observação é basicamente empírico, basta acompanhar noticiários no mundo para ver as experiências e compara-las.

E no campo da Saúde o Brasil é um exemplo em políticas de combate ao HIV/AIDS. A epidemia da infecção pelo HIV e da AIDS é um fenômeno global, dinâmico e instável e que se arrasta há mais de 30 anos e, não podemos nos esquecer, com características fortemente associadas a desigualdade social nos últimos vinte anos. Tens mais de 30 anos? Se sim, acompanhou certamente o impacto do HIV/AIDS nas pessoas, especialmente na década de 1980 e 1990. Como gosto e muito de rock, de imediato me lembro de Cazuza, Renato Russo e Freddie Mercury. No ano de 1984, por exemplo, 71% dos casos notificados eram referentes a homossexuais e bissexuais masculinos.

É muito artista de qualidade que se foi por conta dessa epidemia e, no período, pela falta de tratamento eficaz para o combate do HIV/AIDS.

Ao relembrar o surgimento e expansão do HIV/AIDS, a doença era essencialmente restrita aos grandes centros urbanos. Além dessa característica urbana, era fundamentalmente masculina (e muito associada a gays, por isso termos como “grupo de risco” eram usados e não comportamento de risco muito mais apropriado), mas isso lá na década de 1980 e primeira metade da década de 1990 especialmente, agora a atual epidemia do HIV e da AIDS caracteriza-se por quatro processos: (1) heterossexualização, (2) feminização, (3) interiorização e (4) pauperização.

Aqui no Brasil essas mudanças ocorreram pela dispersão geográfica da doença e acompanhou o crescimento demográfico das regiões interioranas brasileiras, mas também chama a atenção especialmente ao crescimento consistente de casos entre usuários de drogas. A epidemia de HIV/AIDS, definitivamente, é multifacetada.

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Observem, de acordo com os dados do Ministério da Saúde, a distribuição espacial dos municípios com pelo menos um caso de AIDS registrado, no Brasil, entre o período de 1980 a 1996, no mapa acima. Agora vejam esse outro mapa com a distribuição espacial dos municípios com pelo menos um caso de AIDS registrado, no Brasil, no mesmíssimo período. É a interiorização mesmo!

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Impressionante, não é? A relação dos casos de AIDS entre homens e mulheres que, desde 1997, se mantém na ordem de 2 para 1, já se inverteu em 229 dos 1.552 municípios que notificaram pelo menos 1 caso de AIDS no período de 1999/2000. Eis a feminilização da epidemia. E é assustador por conta de que a maior parte das vezes os relatos envolvem mulheres que souberam de forma inadvertida que eram soropositivas, por conta de outros exames que fizeram. Afinal, as mulheres acessam mais os serviços de saúde do que os homens. O problema é quando apenas ela quer se tratar e o marido não. É o machismo, literalmente, matando as mulheres.

No gráfico abaixo é possível perceber que a infecção por HIV caiu no Sudeste, mas cresceu no Norte, no Nordeste e no Sul. Os dados também são do Ministério da Saúde.

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Ainda comentando a taxa de incidência nos municípios com mais de 500 mil habitantes, na própria região Sudeste, houve crescimento da ordem de 20% ao ano de 2000. A proporção de casos masculinos notificados caiu de 90,1%, de 1980 a 1988, para 66,6%, em 1999/2000, ou seja, com a redução de 25%, enquanto entre as mulheres, a coisa realmente se inverteu: a proporção de casos elevou-se de 9,9% para 33,3% no mesmo período dos dados que apontam a queda de casos masculinos notificados. Mais uma vez é a feminilização do HIV/AIDS no Brasil. Embora ainda existam mais casos registrados entre homens que mulheres, essa diferença não é mais tão significativa quanto antes (lá por volta de 1990, por exemplo). A razão de sexos (número de casos masculinos divididos pelo número de casos femininos registrados) aponta que ao final da década de 1980 era de cerca de 6 casos de AIDS no sexo masculino para 1 caso no sexo feminino, já ao início da da década de 2010 era de 1,7 caso registrados masculinos para 1 caso registrado feminino.

Para finalizar, havia começado o post dizendo que é fundamental consistente investimento e boa gestão para tratar políticas de forma geral, porque uma coisa sem a outra resulta em políticas deficitárias que não atingem seus objetivos.

A falta de investimento aumenta de forma drástica o risco do descontrole da AIDS no mundo. Tem dúvida? Cheque esse artigo publicado na revista The Lancet [em inglês].

Para quem se interessa no tema, vejam esses dados da UNAIDS Brasil com dados para 2017:

Pessoas vivendo com HIV

  • Em 2017, havia 36,9 milhões [31,1 milhões–43,9 milhões] de pessoas vivendo com HIV
    • 35,1 milhões [29,6 milhões–41,7 milhões] de adultos
    • 1,8 milhão [1,3 milhão–2,4 milhões] de crianças (menores de 15 anos)
  • 75% [55–92%] de todas as pessoas vivendo com HIV conheciam seu estado sorológico positivo em 2017 (foram testadas para HIV)

Pessoas vivendo com HIV com acesso à terapia antirretroviral

  • Em 2017, 21,7 milhões [19,1 milhões–22,6 milhões] de pessoas vivendo com HIV tinham acesso à terapia antirretroviral, um aumento de 2,3 milhões em comparação com 2016 e de 8 milhões [7,1 milhões–8,3 milhões] em comparação com 2010
  • Em 2017, 59% [44%–73%] de todas as pessoas vivendo com HIV tiveram acesso ao tratamento
    • 59% [44%–73%] dos adultos com 15 ou mais anos vivendo com HIV tinham acesso ao tratamento, assim como 52% [37%–70%] das crianças de 0 a 14 anos
  • Em 2017, 80% [61%–>95%] das mulheres grávidas vivendo com HIV tinham acesso a medicamentos antirretrovirais para prevenir a transmissão do HIV para seus bebês

Novas infecções por HIV

  • O número de novas infecções por HIV caiu 47% desde o pico em 1996
    • Em 2017, houve 1,8 milhão [1,4 milhão–2,4 milhões] de novas infecções por HIV, em comparação com 3,4 milhões [2,6 milhões–4,4 milhões] em 1996
  • Desde 2010, as novas infecções por HIV entre adultos caíram cerca de 16%, de 1,9 milhão [1,5 milhão–2,5 milhões] para 1,6 milhão [1,3 milhão–2,1 milhões] em 2017
    • Desde 2010, as novas infecções por HIV entre crianças diminuíram 35%, de 270.000 [170.000–400.000] em 2010 para 180.000 [110.000–260.000] em 2017

Mortes relacionadas à AIDS

As mortes relacionadas à AIDS caíram mais de 51% desde o pico em 2004

  • Em 2017, 940.000 [670.000–1,3 milhão] pessoas morreram por doenças relacionadas à AIDS em todo o mundo, em comparação com 1,9 milhão [1,4 milhão–2,7 milhões] em 2004 e 1,4 milhão [1 milhão–2 milhões] em 2010.

Também há essa palestra do Dr. Drauzio Varella em seu canal no Youtube para maiores informações: