Como vai ser o futuro? Bom, especificamente como vai ser o futuro da política ambiental?

Não, este post não é sobre astrologia ou qualquer outra forma de adivinhação, mas é uma reflexão livre em torno de inúmeros retrocessos que se avizinham no Brasil e no mundo quanto ao tema do meio ambiente. Não que hoje em dia as coisas já não sejam graves. Elas são, mas o que é ruim pode piorar. Não é assim o velho ditado?

Alguns exemplos do que estou dizendo noticiados pela imprensa internacional todos gratuitos para visualização no Youtube:

De acordo com a descrição do vídeo no Youtube do Canal do Instituto Socioambiental: Na região da bacia do Xingu a expansão do agronegócio tem causado sérios impactos na vida de agricultores e indígenas. Uma das consequências mais graves são as mudanças ambientais que impactam todas as formas de subsistência local. O documentário acompanha a rotina dos jovens Anderson, Milene, Oreme e Tawa que desvendam como a vida de suas famílias e de suas comunidades têm sido afetadas e o trabalho que se tem feito na tentativa de minimizar os efeitos dessas mudanças.

De acordo com a descrição do vídeo no Yotube do canal da TV Folha: Seca histórica já dura seis anos e ameaça tornar-se regra no semiárido.

Três perguntas se desdobram da pergunta que dá título a essa postagem e desses exemplos que recomendei serem visualizados para entendermos devidamente o impacto das mudanças ambientais:

  • Podemos responder a essas múltiplas ameaças adequadamente e a tempo de prevenir danos irreversíveis aos sistemas planetários que dão suporte a vida?
  • O desenvolvimento econômico necessariamente requer um elevado preço ambiental?
  • Se devemos tomar uma decisão entre desenvolvimento e ambiente, como devemos decidir o balanço apropriado?

Vou responder as perguntas orientado não apenas por minha produção científica, mas especialmente pela minha experiência de campo como pesquisador, mas pela vivência que tenho antes de me envolver com a pesquisa científica na área de Avaliação de Impactos Ambientais.

Minha resposta é sim para a primeira questão e ela termina por refletir as respostas para as outras duas perguntas. E essa resposta indica que sou relativamente otimista quanto ao que nos avizinha. É claro que também não sou nenhum Pangloss da área de Avaliação de Impactos Ambientais. Os indicadores de que o aquecimento global, por exemplo, resultará em uma série de catástrofes é clara para quem quer minimamente entender esse processo. Já em 2014 (antes da ascensão de Donald Trump à Presidência dos EUA e sua política anti-ambiental) o cenário desenhado pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) era alarmante: “grave, abrangente e irreversível”, eram os termos adotados no relatório publicado em 2014.

Os eventos que enfrentamos hoje já são extremos.

O que mais me deixa alarmado é que na meta-análise realizada pelo IPCC com uma centena de estudos que quantificaram os impactos do aquecimento global, a agricultura é altamente impactada com perdas estimadas em mais de 25% nas colheitas de milho, arroz e trigo até 2050.

ipcc_infografico_aquecimento_global_2

É muita coisa. E se temos perdas nessa grandeza, temos ao mesmo tempo um aumento populacional pressionando por mais alimentos. Aqui não estou adotando uma espécie de neomalthusianismo, dado que o maior problema social envolvendo alimentação não é relativo a quantidade, mas quanto ao fator distribuição dos alimentos.

E vai ser preciso muita política para que minha resposta sim faça sentido. Vai ser preciso muita política porque o mercado sozinho não dá conta de resolver problemas de redistribuição, por exemplo. E também porque se você lê minimamente sobre Economia sabe que existem falhas de mercado “clássicas” identificadas por economistas sérios e as externalidades ambientais surgem justamente para serem apontadas como falhas de mercado. Até publiquei recentemente uma forma do mercado agir para corrigir as falhas de mercado: o PSA. Nunca ouviu falar? Dê uma olhada nesse resumo aqui para entender melhor o Pagamento por Serviços Ambientais e para que serve.

O que digo é que, basicamente, nos modelos clássicos de Economia o “custo ambiental” não entra. A figura abaixo indica mais ou menos do que falo:

energia e reciclagem

O aquecimento global e, para ser mais exato, as mudanças ambientais globais para ser mais amplo e mesmo pertinente, demandam medidas políticas concertadas entre atores diversos, desde Estados nacionais e subnacionais, sociedade civil (incluindo aí movimentos sociais e ONGS) e o mercado (com atuação efetiva das empresas). Lindo de se imaginar, mas quem leu Mancur Olson e seu livro “A Lógica da Ação Coletiva” sabe o tamanho da encrenca que é juntar um bando enorme de pessoas e organizações para deliberar uma política que seja. Sabemos bem o quão devagar caminha a adoção de um protocolo substituto ao de Quioto para orientar as políticas de mudanças climáticas.

Toda a saída para esse dilema de ação coletiva depende das instituições e de como podemos fortalecê-las. A saída é política, fundamentalmente. E aí está a “salvação” e também a nossa “perdição”.

Porque o que é ruim, pode piorar.

No caso brasileiro, avizinha-se a provável eleição de Jair Bolsonaro, candidato à Presidência do Brasil pelo PSL e público opositor ao Acordo de Paris e a políticas de combate ao desmatamento na Amazônia e Cerrado brasileiros, nossa maior contribuição às mudanças climáticas. O agronegócio essencialmente financia o candidato e a Frente Parlamentar de Agropecuária dá suporte declarado a um futuro governo do candidato de extrema-direita e o que alarma é perceber como o setor do agronegócio não percebe o custo político de chancelar a saída do Brasil do Acordo de Paris para os mercados de soja, carne, algodão etc. Toda nossa competitividade e alta tecnologia agroindustrial será perdida graças a declarada emergência de uma política anti-ambiental com a ascensão de Bolsonaro à Presidência ou acha que as declarações do candidato sobre o fim do Ministério do Meio Ambiente e o desmonte do IBAMA e ICMBio não são indicadores sérios dos retrocessos ambientais que se avizinham?

Pelo que observo, ao menos no Brasil, vamos pagar para ver. Ou sofrer. Dá no mesmo.