Não é de hoje que o Aedes aegypty tem sua trajetória associada com o habitat humano, caracterizando-o com um comportamento sinantrópico e antropofílico, que acompanha o homem e seu deslocamento. Diversos estudos explicam que há fatores que determinam a distribuição geográfica deste vetor e a consequente infecção por arboviroses, entre eles encontram-se o clima, clima tropical e subtropical mostra-se mais susceptível a presença do vetor; fluxo populacional; condições precárias de saneamento básico; abastecimento de água inadequado; moradia inapropriada; coleta de lixo insuficiente, acarretando acúmulo de lixo como possível foco de vetores. Os casos de lixões se proliferam no Brasil, embora a Pol

Lixão do Aurá

A desigualdade social impacta diretamente nos indicadores de saúde pública. Isso pode soar meio óbvio, mas se há algo que descobrimos ao pesquisar a área de Saúde Ambiental (e de certa forma surpreende alguns incautos e incautas) é que as arboviroses acometem todos os grupos etários e sexos, sua infecção é assintomática, em geral, porém quando sintomática pode acarretar febre baixa (ou ausência de febre): “exantema máculopapular, artralgia, mialgia, cefaleia, hiperemia conjuntival e, menos frequentemente, edema, odinofagia, tosse seca e alterações gastrintestinais, principalmente vômitos” .

Desigualdade social e agravos à saúde andam bem juntinhos. E não é de se estranhar que essa relação pode ser associada com os casos do vírus Zika, Chikungunya e Dengue no Brasil e, especificamente em regiões caracterizadas por acentuada desigualdade intra-metropolitana. A maior proliferação do mosquito transmissor incorre justamente em aglomerados urbanos irregulares, caracterizados pelo déficit não apenas habitacional, mas também ambiental-sanitário. Em geral, inclusive, é comum que os lixões se tornem vetores de ocupação irregular nas áreas urbanas. Daí não é difícil visualizar o cenário de déficit de infraestrutura e serviços urbanos que vai afetar diretamente os moradores dessa área.

Lixão do Aurá aglomerados subnormais

Quanto aos casos notificados de chikungunya, temos os registros de 170 casos em 2015 no Estado de Alagoas e em 2016 temos o avanço significativo para 2.372 casos notificados, resultando na incidência de 5,1 para 71,0 por 100 mil habitantes. Já em Pernambuco, temos os registros de 56 casos notificados em 2015 e um salto para 13.285 casos notificados no Estado em 2016, resultando na incidência de 0,6 para 142,2 por 100 mil habitantes no Estado de Pernambuco. A Tabela 1 ilustra esse quadro.

Tabela 1. Casos prováveis de febre de chikungunya em 2015a e 2016b, até a Semana Epidemiológica 27, por Unidade da Federação.

Unidade da Federação Casos (n)

 

Incidência (/100 mil hab.)
2015a 2016b 2015 2016

 

Alagoas 167 8.287 5,0 248,0
Mato Grosso 12 802 0,4 24,6
Pará 43 1.274 0,5 15,6
Rio Grande do Sul 5 194 0,0 1,7

Fonte: Ministério da Saúde (2016).

 

Já quanto a incidência do zika vírus no Brasil, foram notificados 120.161 casos entre 03/01/2016 a 23/04/2016. Alagoas, por exemplo, no mesmo período, identificou 1.906 casos, totalizando uma incidência de 57,0 casos a cada 100 mil habitantes (BRASIL, 2016a). Quando comparamos com Estados vizinhos como Sergipe (404 casos notificados) e Pernambuco (367 casos notificados), observa-se a necessidade premente de pesquisas comparativas sobre a distribuição espacial das arboviroses (como o zika vírus, além da dengue e da chikungunya) e sua correlação com o desequilíbrio ambiental urbano. Cenário que resulta na pergunta: quais as respostas institucionais e como são implementadas políticas para prevenção e controle desse problema epidemiológico? É uma pergunta que levei adiante e submeti um projeto de pesquisa ao CNPq para obtenção de financiamento e responde-la minimamente. Estou aqui torcendo muito para que seja aprovado, mesmo com todo esse corte orçamentário do governo federal que impacta diretamente nas pesquisas científicas no Brasil.

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Crescimento urbano desordenado de Manaus. Cidade de Deus. Foto de Diego Freitas Rodrigues

Voltando ao tema das arboviroses, a taxa de agravo é elevada como disse antes. Por exemplo, somente em 2016, o Brasil apresentava 64.439 casos prováveis de Febre Chikungunya, em que destes Alagoas é responsável por 2.372 casos. O perfil da dengue é um tanto diferenciado, visto que foi a primeira arbovirose com transmissão pelo Aedes Aegypti a ser diagnosticada, em 2016 o país já apresenta 1.054.127 casos notificados, sendo que o Estado de Alagoas apresenta 7.842 casos (BRASIL, 2016).

Resultado de imagem para Casos prováveis de febre de chikungunya, por semana epidemiológica de início de sintomas, Brasil, 2015, 2016 e 2017

Agora mesmo construímos no Instituto de Tecnologia e Pesquisa, no Laboratório de Avaliação de Impacto Ambiental e Análise Espacial, um banco de dados com todos os casos notificados de arboviroses no Brasil associados a período e índices pluviométricos por cidades estudadas (Belém, Maceió, Cuiabá e Porto Alegre e, se tudo correr bem, futuramente Goiânia e Recife também) e, especialmente, fazemos a distribuição espacial desses dados avaliando as oscilações ao longo dos anos. É um baita trabalho, mas que vale a pena. Acredito que até novembro o banco de dados estará disponibilizado aqui no Observatório de Impactos para livre acesso.

Por fim, um documentário interessante produzido pela TV Brasil sobre os impactos do zika vírus em Pernambuco. Assistam, está disponível gratuitamente no Youtube.