Sou daqueles que gostam e muito de passear pelas cidades, especialmente ao fazer um turismo básico. Caminhar pelas ruas e ir conhecendo cafés, praças, mercados populares etc. E caminhar por uma cidade arborizada é muito melhor que caminhar por uma cidade no qual sobra cimento e a vista fica até cinzenta de tanto concreto. Algumas cidades me apetecem bastante pelas suas características verdes, como Belém do Pará. Rodando pela América Latina, caminhei por Bogotá, Buenos Aires, Cidade do México, Santiago, Lima, entre outras. Em comum a todas uma infraestrutura onde o verde não é prioritário no planejamento urbano. Outra coisa: percebia que até mesmo a existência de áreas verdes nos bairros acabavam por indicar se a região era mais pobre, se era de classe média ou rica. Isso mesmo. Quanto mais árvores, maior renda per capita.

É claro que tais características variam de uma cidade para outra e também de um bairro para outro. Exemplo é a Cidade do México. Basta dar uma olhada na imagem de satélite abaixo:

Cidade do México

Notem pela visualização da imagem de satélite que há uma significativa densidade urbana. Não é de se espantar, afinal de contas a população da Cidade do México gira em torno de 20 milhões de habitantes, 1/5 da população mexicana. E a região de La Condesa é uma das áreas mais nobres da Cidade do México e concentra “equipamentos públicos” que prestam serviços ambientais (regulagem climática) e recreação (lazer no parque Chapultepec). É importante também reforçar que as áreas mais verdes da Cidade do México estão mais ao Sul, especialmente em Xochimilco, como pode ser visualizado na imagem de satélite. Embora as áreas verdes não formem corredores (que potencializaria a biodiversidade urbana), ainda assim é possível observar que as áreas verdes constituem-se em “oásis verdes” num ambiente altamente urbanizado.

Xochimilco

Do ponto de vista dos serviços ambientais, Xochimilco é um caso extremamente interessante pelos serviços hídricos e de recreação que prestam. Inclusive, podem observar que enquanto vivi na Cidade do México tratei de ter minha experiência nas “trajineras” (mui habilidoso, la garantia soy yo). Sério, é muito comum famílias e grupos de amigos se reunirem e alugarem essas embarcações e festarem com comidas e bebidas.

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Pesquisador latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vivendo no exterior

Deixando o saudosismo de lado (e estou com uma baita saudade do México), as áreas verdes urbanas podem ser consideradas como espaços livres compostos por vegetação arbórea, arbustiva e com solo livre de edificações, capazes de proporcionar funções ecológicas estéticas e de lazer. Esse termo pode ser aplicado a diferentes tipos de ambientes urbanos, que tem em comum serem relacionados com saúde, recreação e geram interações da população com a biota, como identifiquei com experiências que descrevi anteriormente no post.

A preservação das áreas verdes urbanas é estratégica para a própria manutenção da cidade. E digo isso com toda a segurança, pois vejam a quantidade de serviços ofertados aos moradores da cidade e fundamentais também para a economia: regulação do microclima, redução de ruídos, filtração do ar, lazer, drenagem da águas pluviais, entre outros. Como disse, a manutenção de áreas verdes é imprescindível para a própria saúde urbana. Um caso que me chama muito a atenção é da área do Museu da Amazônia em Belém, próximo do bairro “Cidade de Deus” em Manaus.

MUSA Cidade de Deus

A área do Museu da Amazônia tornou-se uma contenção na favelização de toda a área.

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Visita técnica no Museu da Amazônia, Manaus, Amazonas, Brasil.

Os contrastes entre urbano, rural e natural são muito evidentes, o quer favorece uma abordagem didática, embora isto seguramente gere implicações no cotidiano dos cidadãos, não é possível negar, pois é bastante conhecida a relação direta entre a presença de vegetação amenizando o clima urbano e protegendo mananciais, ou como sua ausência influencia situações extremas, como no caso de deslizamentos em encostas desprotegidas ou na ocorrência de enchentes.

De acordo com o relatório “Avaliação Ecossistêmica do Milênio” da ONU publicado em 2005, os serviços ecossistêmicos podem ser enquadrados em: (1) Serviços de Provisão; (2) Serviços de Regulação; (3) Serviços Culturais; (4) Serviços de Suporte. Destes serviços ecossistêmicos, as cidades dependem em maior ou menor medida de todos os serviços ecossistêmicos, sejam os de provisão, como alimentos, água doce e madeira, de regulação, como a absorção de CO² pela fotossíntese das florestas, o controle do clima e de doenças e pragas, quanto os culturais, como parques recreativos ou de suporte, como a dispersão de sementes ou a formação do solo.

Alô, alô gestores e economistas: as cidades, bem como a economia, são sustentadas pelos ecossistemas e não o contrário, caracterizando-se pela dependência direta e indireta do fluxo de serviços ecossistêmicos. O cenário de demandas ecossistêmicas, reforça-se, só vai aumentar, ao mesmo tempo que a capacidade de conservação dos ativos ambientais que ofertam esses serviços ecossistêmicos é impactado pelas atividades antrópicas, inclusa a expansão regulada ou não das metrópoles.

Acho que fico por aqui com uma certeza: ou recuperamos a saúde das cidades ou adoeceremos cada vez mais com elas. Por fim, deixo esse vídeo no Youtube com uma palestra super interessante sobre cidades sustentáveis.