Saiu na Folha de São Paulo há um bom tempo, mas essa notícia que me chamou a atenção de forma negativa, ainda assombra: Projeto de bancada evangélica propõe legalizar ‘cura gay’. Me assustou não apenas o tipo de projeto de decreto legislativo apresentado na Câmara dos Deputados, mas o princípio que o norteia e como há pessoas que insistem em dizer que está tudo bem com a ideia desse projeto. E aí se encontra o que considero um terrível mal da modernidade: o fundamentalismo religioso, uma aberração que mistura elementos religiosos com supostos e nada empíricos respaldos “científicos” e coloquem aspas nisto.
E mais: num Estado laico, em tese, como o Brasil – que separa o Estado da Igreja – um projeto de decreto legislativo como este revela dois fatores associados: há um aumento de importância política de bancada parlamentar religiosa (essencialmente cristã, dividida entre protestantes evangélicos e católicos) e este aumento incorre na “religiozação” da política, algo diretamente relacionado ao fundamentalismo religioso. E reside aí um perigo funesto. 
Muitas das garantias civis constitucionais derivam de um Estado laico. Para citar apenas uma: o direito feminino de votar e ser elegida.
Leitor e leitora do Política & Ambiente, não pense que esse direito hoje gozado pelas mulheres “brotou” e foi uma conquista fácil e com apoio das alas religiosas. Ao contrário. Até hoje as mulheres da Arábia Saudita, exemplo de um Estado teocrático e com políticas restringem as liberdades civis e políticas graças a “religiozação” da política, não possuem esse direito político elementar. E, ao que parece, só o poderão exercer a partir de 2015, como indica uma matéria do Estadão.
Em nome de uma pretensa “moralização” da sociedade, alguns direitos são cassados ou restringidos. Muito da culpa desse aumento da intromissão de fatores religiosos na vida política brasileira se deve aos partidos políticos. Podem ser PT ou PSDB, PMDB ou PSB e DEM, todos, institucionalmente, abriram mão – de forma mais ou menos conveniente – do debate público de ideias para apostarem em ganhos oriundos de mais ou menos tempo de TV no horário eleitoral gratuito nas campanhas. Se em 2010, nas eleições presidenciais pudemos acompanhar a tragicômica intromissão de temas religiosos nas campanhas do PT e do PSDB, para 2012 não será diferente.
Essa prática enfraquece ainda mais os partidos políticos brasileiros e fortalece a criação de bancadas religiosas suprapartidárias que criam e fomentam restrições civis e políticas. Outro fator que me lembra a intromissão de líderes políticos religiosos em assuntos civis é a busca política por enfraquecer o ensino de Ciências e mesmo cortar financiamento para o desenvolvimento científico. Algo que está acontecendo com maior intensidade a cada eleição nos EUA (desde o corte de investimento em Genética até a perseguição a cientistas que pesquisam as mudanças climáticas). E, temo, que venha a se dar um dia no Brasil.
 
Todo fundamentalismo é perigoso, seja um fundamentalismo de teor religioso – como o cristão, hindu, judeu, muçulmano, etc – como o fundamentalismo ateu – como o experimentado na extinta União Soviética, na Coréia do Norte e na China atuais ou a atrocidade que muitos “cientistas sociais” fizeram da obra genial de Charles Darwin, “A Origem das Espécies”, e que resultou no Darwinismo Social que alimentou “cientificamente” o racismo e teve como resultado o Holocausto.
Funeral de Mahatma Gandhi
O fanático só precisa de um motivo para ser intolerante – e sempre seleciona aquilo que lhe convém num texto sagrado – e não suporta o debate de ideias. A verdade está com ele (ela) e pronto. Uma saída é, inclusive, matar: Mahatma Gandhi, Itzak Rabin ou Martin Luther King são exemplos de mortes por fanáticos religiosos. Este motivo – causar a morte de alguém em virtude da proteção de algum preceito religioso – pode estar no Evangelho, na Torah, no Corão, na Gitâ, no Dhammapadda ou, também, no Manifesto Comunista ou na cartilha econômica de Milton Friedman, etc. O fanatismo – independente de qual sua origem – é o verdadeiro perigo político e social para as minorias, religiosas, sexuais, étnicas, etc.