A Economia Política é fascinante. Particularmente, seu fascínio (ao menos para mim) ocorre pela sua capacidade teórica, enquanto campo disciplinar, em apontar as transformações e reviravoltas que as relações entre Capital e Estado são passíveis de sofrerem. E uma dessas transformações, em minha opinião, ocorre pela nova modalidade de “colonialismo”: o ambiental.
Simples: os denominados recursos naturais renováveis e não-renováveis, bióticos e abióticos, se tornam, cada vez mais, recursos econômicos valorizados. E essa valoração econômica dos recursos naturais não ocorre, em grande medida, pela real necessidade de se valorar os bens e serviços ecossistêmicos. A valoração econômica ocorre pela necessidade cada vez maior de se alimentar uma população que cresce exponencialmente e, principalmente, que ganha hábitos consumidores cada vez menos sustentáveis.
As economias emergentes vem mantendo um padrão de crescimento econômico contínuo e estável. E até mesmo a renda per capita vem acompanhando esse crescimento econômico, em alguns casos com maior ou menor intensidade. Escrevi um artigo para o periódico Política Hoje no qual debati esse crescimento econômico associado a renda per capita dentro da discussão da maior emissão de Gases de Efeito Estufa por parte das economias emergentes. O artigo pode ser acessado clicando aqui
O Brasil e a China, por exemplo, vem mantendo um ritmo crescente e sólido tanto de crescimento econômico (aumento do PIB) e quanto renda per capita ao longo dos últimos 20 anos.
 Gráfico 1. Crescimento Econômico (linha vermelha) do Brasil e Renda Per Capita (em azul)
Gráfico 2. Crescimento Econômico (linha vermelha) e Renda Per Capita (em azul) da China
 A África do Sul, outra economia emegente, mantém um contínuo ritmo de crescimento econômico também. 
E economias em franco crescimento e expansão demandam fortemente por recursos naturais. Recentemente escrevi um paper para o IX Encontro da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica em que avaliei a capacidade que a estabilidade política em países da América do Sul desempenharam no aumento de capacidade de atração de investimentos estrangeiros diretos (IED) em países como Argentina, Brasil e Peru. E, no caso, boa parte desse IED – a China é o maior país-investidor – é destinado a exploração de recursos naturais. O que me faz retomar o ponto inicial do post: novas formas de colonialismo.
Embora exista estabilidade política, grosso modo, na região, ainda é carente – alguns países mais outros menos – de accountability. A transparência política ainda é baixa e muitas das instituições que regulam os mecanismos de mercado (e também as instituições de controle, como os Tribunais de Conta) são limitados ou com pouca margem de manobra. E, especialmente por causa disto, há uma verdadeira “farra” em contratos de exploração e poucos estudos sérios sobre impacto ambiental e social de alguns empreendimentos. E isto tanto para o Brasil – com a usina de Belo Monte – ou para a Argentina. E é com a Argentina que vou encerrar o post.
 
“É exploração colonial do país”, diz ambientalista DE BUENOS AIRES
O avanço chinês em Río Negro está provocando reação negativa entre ambientalistas. Segundo o biólogo Raúl Montenegro, presidente da Funam (Fundação para a Defesa do Ambiente), “iniciar projetos faraônicos de irrigação em ambientes semiáridos, ventosos e com recursos hidráulicos altamente sensíveis é um despropósito”.
Montenegro considera que, como são necessários cerca de 1.500 litros de água para produzir um quilo de soja, é possível esperar grandes gastos dos recursos naturais e perda de nutrientes do solo.
O ambientalista crê que o projeto não avaliou bem as consequências do impacto do investimento nos ambientes terrestres nativos e em seus ecossistemas aquáticos.
“Em nome dos rendimentos e dos benefícios econômicos, se reduz de forma alarmante a resistência ambiental e se compromete o funcionamento ambiental do país a médio e a longo prazo.”
Além dessas objeções, Montenegro chama a atenção para o que considera “um novo modelo de exploração colonial”. “Agora, os países não são invadidos nem se compram mais as suas terras, mas se arrendam propriedades. Isso tem muita vantagem para os chineses porque a resistência social tende a ser menor se a terra continuar sendo argentina”.