O mais interessante de se analisar uma política atual é a sensação que seu objeto de análise, na maior parte das vezes, está bem diante de você. Que essa política analisada atinge @ analista de alguma forma e ele ou ela experencia historicamente esse processo analisado. E é mais ou menos essa a sensação que tenho ao analisar o denominado “Consenso de Brasília” que considero uma espécie de antítese política e econômica dos princípios (não todos, mas a imensa maioria) do “Consenso de Washington”. Este último foi uma espécie de cartilha de neoliberalismo econômico “optatoriamente” oferecida (ou imposta através dos tradicionais mecanismos de coerção de mercado) pelos organismos econômicos multilaterais, especialmente o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. 
Ex-Presidente Lula: “olha o passarinho!”
 As palavrinhas mágicas do “Consenso de Washington” eram: privatização e desregulamentação num Estado apenas levemente regulador e nunca incentivador das atividades econômicas e, claro, sem contabilizar os ativos sociais como parcela benéfica de estímulo econômico. E, grosso modo, eram isso mesmo. A promessa era de que com essas duas medidas o crescimento econômico na América Latina (foco desse post no Poliarquias) seria intensificado, deixando para trás a nefasta e nada saudosa “década perdida – 1980”. Mas e o “Consenso de Brasília”? Bom, aí é que “a porca torce o rabo”, poderia dizer o Filósofo.
No gráfico abaixo posicionado é possível observar o crescimento econômico (em vermelho) e também de renda per capita (em azul) no Brasil ao longo de mais de 30 anos. E a diferença de crescimento positivo é nítida.
Fonte: Banco Mundial (2010)
Como um conceito recente (e excelente, na minha opinião), o “Consenso de Brasília” segue uma margem diferenciada na condução das políticas econômicas. Primeiramente, o Estado é presente, diferentemente do outro “Consenso” que apregoava, feito mantra, que o Estado deveria ser cada vez mais reduzido e parcela de suas atribuições deveriam ser atribuídas ao Mercado. O “Consenso de Brasília” nasce com o governo do Presidente Luis Inácio Lula da Silva. E o modelo lulista, como passou também a ser conhecido, absorveu parte da herança do governo de Fernando Henrique Cardoso – especialmente a estabilidade econômica e políticas de incentivos a exportação de commodities – e intensificou um processo singular que pode ser identificado por estes fatores: (1) concessão de benefícios sociais, (2) ganho no poder de compra e aumentos salariais consistentes, (3) acesso facilitado ao crédito e (4) a manutenção de uma economia estável (acrescentaria um fator a mais: (5) investimento pesado no campo da educação superior/tecnológica). A consequência da convergência desses fatores (somados ao maior investimento público-privado em infra-estrutura, ainda que a necessidade continue exarcebada) foi a retirada de mais de 30 milhões de pessoas da pobreza, resultando numa ampliação das classes econômicas (ver renda per capita) e maior capacitação econômica brasileira. No gráfico abaixo posicionado é possível observar um panorama de crescimento na América Latina, ilustrativo do percentual crescente das economias regionais.
Fonte: Cepal (2010)

Dois problemas enfrentados pela equipe econômica do governo Lula (e até hoje, no governo Dilma) são os juros elevados e o Real superaquecido que atrapalha, de forma perversa, a produção industrial e a exportação e competitividade econômica da indústria brasileira nos mercados internacionais (ainda mais com a China baseando sua alta produtividade em salários nanicos e incentivos fiscais onerosos aos concorrentes estrangeiros). Um fator que tem sido levantado por economistas brasileiros é a inflação, preocupação compartilhada por economistas de outras nacionalidades e em análises de outros países (União Européia e China, por exemplo), mas acredito que o controle da inflação esteja sendo realizada de forma ponderada pelo Banco Central e pelo Ministério da Fazenda do Brasil. O único problema é que o preço é a manutenção dos juros elevados criando efeitos perversos nos setores econômicos já listados nesse post, especialmente o industrial e desindustrialização é um verdadeiro pesadelo econômico que une tanto os representantes das indústrias quanto os trabalhadores. 
Mas o “Consenso de Brasília” fraqueja nessa turbulência econômica que assola os países desenvolvidos? Não acredito. Justamente por causa dos princípios políticos e econômicos que nutrem esse “Consenso de Brasília” não acredito numa “falha sistêmica” de seus princípios (já elencados no post). O “Consenso de Brasília” é tomado como um modelo e começa a ser incorporado por outros países da região, reforçando, até mesmo, um maior diálogo e ação política conjunta na região. O caso peruano, após a eleição de Ollanta Humala, é o mais claro de adesão: crescimento e desenvolvimento econômico com inclusão social. Os princípios básicos me lembram muito os trabalhos do Prêmio Nobel de Economia, o indiano Amartya Sen (do qual sou fã de carteirinha e, ao lado de Herman Daly, é o meu economista referência).
Presidente Ollanta Humala, do Peru e o Ex-Presidente Lula do Brasil.

São necessárias melhoras? É claro. Talvez a mais fundamental seja maior investimento em logística/infra-estrutura: estradas péssimas e de baixissima eficiência e altissima perda de produção, aeroportos aquém do potencial e portos e ferrovias com baixissima conexão. Sem falar, claro, de mais investimentos em educação, especialmente técnica para atender a demanda crescente de uma economia aquecida como a brasileira. De qualquer forma, acredito que os sinais são positivos. E que continuem a ser.