Começou a ser desenhado nos últimos anos um sistema internacional multipolar. E neste mundo multipolar, a Índia bem como o Brasil e a África do Sul, devido ao porte regional de suas economias e a inserção estratégica que se situam no “oceano da globalização” vem galgando um espaço cada vez maior nas relações internacionais contemporâneas e, no caso dos três países, uma ação mutilateral coordenada através do Forum IBAS (Índia – Brasil – África do Sul). Parte do crescimento econômico dos últimos anos possibilitou agregar um tipo de desenvolvimento agregador, perspectiva comum aos três países. 
Mudanças de governos, continuísmo político trilateral do Fórum IBAS
Ainda assim, existem sérias divisões sociais nos três países pr motivos diferenciados, mas ainda assim de acentuada envergadura. O que resulta na necessidade de políticas que conciliem promoção de crescimento e desenvolvimento econômico com maiores liberdades políticas e desenvolvimento humano e, claro, maior controle da corrupção, uma espécie de epidemia que assola os três países (além de muitos outros) e para esse controle é necessário mais democracia, mais transparência nas relações público-privadas e para tanto incentivo às instituições de controle, como os Tribunais de Contas. É algo fácil? Definitivamente não, mas os três países mantém um contínuo de políticas com esse objetivo.
Na tabela abaixo posicionada é possível visualizar parte desse quadro.

Indíces Sociais, Econômicos e Políticos Comparados

Índia



Brasil

África do Sul
Índice de Desenvolvimento Humano – IDH
(2007-2008)
0,619
0,800
0,674
Posicionamento do IDH no Ranking da ONU (2007-2008)
128
70
121
Índice GINI (2007)
0,368
0,528
0,578
Índice de Competitividade Global segundo o Fórum Econômico Mundial – FEM (2007-2008)



4..33


3.99



4.42

Ranking de competitividade global do FEM (2007-2008)


48

72

44
Índice de Crescimento Econômico (1996-2006) segundo o Banco Mundial

7,4 (1996)
9,2 (2006)


2,1 (1996)
3,7 (2006)

4,3 (1996)
5,0 (2006)
Índice de Percepção de Corrupção segundo a Transparência Internacional (2007)


3,5

3,5

5,1
Posição no Ranking da Transparência Internacional  (2007)



72

72

43


Índia, Brasil e África do Sul apresentam índices ao mesmo tempo próximos, mas também distantes que tratarei de comentar nos tópicos abaixo relacionados:

a) índice de desenvolvimento humano[1]: dos três países, o Brasil possui hoje o melhor desempenho no ranking da ONU, o que, contudo, não deve ser encarado como algo eminentemente positivo, já que o quadro social indiano é deveras mais complexo, com desníveis sócio-econômicos agravados com sua milenar hierarquia de castas, por exemplo e o índice da África do Sul ainda sofre efeitos de décadas da institucionalização da segregação racial por parte do Estado. Esse quadro geral apresentado pelo IDH de cada país remete ao afastamento dos Estados e de suas políticas públicas do grande extrato das suas populações, variando ao longo dos anos o melhor e o pior desempenho do IDH dos países. Por exemplo, em 1985, a África do Sul detinha um IDH de 0,699, e em 1995 seu IDH era de 0,745, enquanto a Índia detinha em 1985 um IDH de 0,487 e já em 1995 seu IDH era de 0,551 e, por fim, o Brasil, em 1985, possuía um IDH de 0,7  e já em 1995 seu IDH era de 0,753;

b) índice GINI[2]: esse índice varia de 0 a 1, sendo que zero corresponde à igualdade perfeita e 1 à máxima desigualdade. Observa-se no quadro comparado entre os países que o Brasil e a África do Sul possuem índices mais próximos, o que salienta a condição, antes comentada, de que ambos os países encontram-se entre os piores do mundo no quesito distribuição eqüitativa de renda e o Brasil, diante de seu quadro econômico, ainda tem seu caráter desigual ainda mais acentuado que a África do Sul. Já quanto a Índia, observa-se uma maior distribuição de renda no país e, comparativamente ao Brasil e África do Sul, um maior grau de igualdade. É interessante ressaltar, ainda, que os três países encontram-se em contínuo amadurecimento de suas instituições democráticas. A Índia com maior experiência de continuidade democrática, enquanto o Brasil e a África do Sul, estranhamente exercendo uma relação esquizofrênica entre autocracia e democracia ao longo do século XX, ainda encontram-se em vias de fortalecimento de suas instituições, contexto que, invariavelmente, reflete numa maior ou menor distribuição de renda nos países;
Mapa do Coeficiente de Gini: desigualdades comuns ao Brasil, Índia e África do Sul

c) índice de competitividade global: onde a África do Sul tem ligeira melhor avaliação que a Índia e ambas com melhor avaliação que o Brasil na análise emitida pelo Fórum Econômico Mundial. É interessante observar que no Relatório The Investment Climate in Brazil, India, and South Africa: A contribution to the IBSA Debate (2006, p. 04) produzido pelo Banco Mundial, a África do Sul, num ranking sobre clima de investimento de 175 países, recebe uma acentuada melhor avaliação (29a posição) que a Índia (121a) e o Brasil (134a);

d) índice de crescimento econômico: a alocação do índice de crescimento econômico para comparar grandes economias emergentes deve ser disposta com cuidado, já que, invariavelmente, quando medidas apenas pelo Produto Interno Bruto (PIB), pode gerar avaliações muito desiguais. Essa inferência deve-se a observação que taxas de crescimento econômico semelhantes podem esconder amplas variações de desempenho do IDH, por exemplo. É importante ressaltar que o crescimento econômico é um fator fundamental na redução da pobreza e no melhor desempenho do IDH, ainda que este impacto tenha um caráter de variação acentuado. Na tabela é possível observar a distância acentuada, do ponto de vista do crescimento econômico comparativo, entre a Índia e os demais países em análise, Brasil e África do Sul;

e) índice de percepção de corrupção: a corrupção é aqui avaliada como a interação de caráter voluntário de indivíduos racionais, articulada de maneira a influir ordenadamente as preferências, buscando, com isto, agregar de maneira ilegal recursos econômicos de instituições públicas (aqui com maior amplitude de percepção).  A ampliação da corrupção gera deficiências que  comprometem (ou mesmo impedem) a eficácia administrativa, resultando, neste contexto, um fraco desempenho das instituições responsivas às políticas sociais, por exemplo, dos Estados. O último índice disponibilizado com vistas ao exercício comparativo, aqui dimensionado como instrumento de análise dos países, é o ofertado pela Transparência Internacional (2007) onde os três países tem desempenhos no controle da corrupção ainda frágeis, percebendo, pela disposição da tabela, que a África do Sul tem melhor avaliação que Índia e Brasil, empatados no índice de avaliação. Desta forma, é possível inferir que devido a baixa accountability existente no ambiente institucional, maior a tendência dos níveis de corrupção, gerando a percepção de que a corrupção como fenômeno sócio-político tem ampliado, cada vez mais, suas teias nas sociedades contemporâneas, em graus maiores ou menores.
Índia, Brasil e África do Sul: desempenho contra corrupção abaixo do mediano

Esse quadro comparado aproximado pode ser visualizado, também, por meio dos índices de governança e processos democráticos e de crescimento econômico dos três países. Esse quadro será discorrido, primeiramente, em torno das dimensões políticas (institucionalização democrática) e, por conseguinte, da dimensão econômica dos países, ressaltando o caráter comparativo das duas abordagens.
Existe na literatura de Ciência Política um apontamento positivo da relação entre a democracia e o desenvolvimento econômico. Lipset (1959), por exemplo, inspirou uma extensa rede de pesquisa sobre a relação entre democracia e desenvolvimento econômico. Sua argumentação repousa na premissa de que em um país com grau maior de desenvolvimento a democracia tende a ter maior aderência no tecido social. Índia, Brasil e África do Sul encontram-se num estágio de desenvolvimento avançado, dentro do quadro dos países do Sul, e suas democracias mostram-se maduras. O intuito, portanto, dessa vinculação (democracia e desenvolvimento econômico) é poder comparar os quadros específicos de cada país, com similitudes e diferenciações.

Saliento, entretanto, que a comparação entre a Índia, o Brasil e a África do Sul requer um quadro equilibrado entre os pontos semelhantes e diferentes entre os países. Fundamentalmente, comparar exige acuidade analítica, identificando um equilíbrio ideal entre uma variedade menor ou maior de aproximações e distanciamentos de realidades, derivando das observações promovidas a visualização e esclarecimento de desafios em comum aos países. 

            

[1]     Disponível em http://data.un.org/DocumentData.aspx?id=32  último acesso em 21 de Outubro de 2008.
[2]     O índice GINI deriva do matemático italiano Conrado Gini, que desenvolveu o coeficiente, apropriado pela ONU com fins de mensurar a igualdade ou desigualdade dos países na distribuição de renda da população.  O cálculo considera variáveis econômicas para analisar o grau distributivo da renda, numa escala de 0 a 1. Neste sentido, quanto mais próximo do 0 (zero) encontrar-se o país, mais a tendência igualitária de sua sociedade quanto mais próximo do 1 (hum) maior a tendência de concentração de renda na sociedade. Ressaltando-se que o índice GINI não busca mensurar a riqueza ou pobreza de um país e sim a homogeneidade econômico-social de sua sociedade.