Me surpreendi com essa notícia da Folha On-Line. E foi uma surpresa negativa. A cidade de 160.000 habitantes de Águas Lindas de Goiás, no entorno de Brasília, vai se tornar uma cidade ambientalmente inviável. É uma notícia pesada e assustadora. As causas são comuns aos locais insustentáveis: crescimento populacional descontrolado, desmatamento também descontrolado, contaminação dos lençóis freáticos, desenvolvimento humano local abaixo dos padrões sugeridos pela Organização das Nações Unidas, etc. O somatório perverso é resultado da percepção falsa de que crescer é igual a se desenvolver, observação contida no relatório produzido pela Universidade de Brasília. Segundo a pesquisadora Camila Guedes Ariza, autora do Relatório: “O crescimento não foi aliado ao desenvolvimento. A cidade apresenta diversos problemas ambientais”. Essa perspectiva é muito comum à Economia Ecológica, campo das Ciências Econômicas que costumo trabalhar em meus artigos e na tese de doutorado que escrevo atualmente. Espero que os formuladores de políticas públicas locais possam, de maneira urgente, reverter esse quadro perverso que vai desencadear, ainda, inúmeros efeitos perversos não somente locais, mas também para Brasília.
A notícia completa segue abaixo.

26/06/2011 – 18h38

Descaso com ambiente vai deixar pequena cidade goiana ‘inviável’

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RODRIGO VARGAS
ENVIADO A ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS (GO)
Uma pesquisa da UnB (Universidade de Brasília) em uma pequena cidade goiana de 160 mil habitantes revelou que o descaso com o ambiente poderá torná-la “inviável” em 20 anos e prejudicar o abastecimento de água no Distrito Federal.
Localizada a 50 km de Brasília, Águas Lindas de Goiás é uma cidade pobre que sofre com o crescimento desordenado: em 15 anos, sua população triplicou, sem investimentos em infraestrutura.
Não há rede de esgoto. Quando não correm a céu aberto, dejetos são despejados em fossas improvisadas, com riscos de contaminação do lençol freático “”base da rede de distribuição de água, alimentada por 110 poços.

Sergio Lima/Folhapress
Maria Ribeiro dos Santos, moradora de sítio próximo à área de preservação do lago Descoberto
Maria Ribeiro dos Santos, moradora de sítio próximo à área de preservação do lago Descoberto

“O crescimento não foi aliado ao desenvolvimento. A cidade apresenta diversos problemas ambientais”, diz a pesquisadora Camila Guedes Ariza, autora do trabalho.
Além do desmatamento indiscriminado e do assoreamento de áreas de nascentes, o estudo aponta a impermeabilização do solo como fatores de crescente esgotamento das fontes de água.
O sistema de poços, diz a pesquisa, ficará deficitário a partir de 2015. 

“CIDADE-DORMITÓRIO”
 
Os efeitos da degradação, ainda segundo o estudo, poderão atingir o Distrito Federal. Na região da APA (Área de Preservação Ambiental) do lago Descoberto, que responde por 60% do abastecimento no DF, vivem cerca de 3.000 famílias.
Desde sua fundação, em 1995, Águas Lindas tem se consolidado como “cidade-dormitório”, com moradias mais baratas para quem trabalha no Distrito Federal.
Outro estudo da UnB, feito em 2006, apontou que os “novos candangos” –migrantes recentes para a região– são em sua maioria nordestinos de origem (55%).
Também há migração: em Águas Lindas, quase 70% dos migrantes afirmam ser ex-moradores do DF.

Sergio Lima/Folhapress
Marivânia da Silva lava roupas com água direto do poço
Marivânia da Silva lava roupas com água direto do poço
DESEMPREGO
Vindo de Barra do Rio Grande (BA), Deílton Teixeira de Morais, 29, chegou há quatro meses. Ocupa um cômodo cedido por amigos.
“Lá não tem emprego. Aqui é mais fácil conseguir alguma coisa”, justifica ele, que declara ter experiência apenas como “ajudante”.
A casa em que vive com mais quatro pessoas fica a 500 metros da faixa de proteção da APA do Descoberto. O lixo é depositado em um buraco coberto com madeira. Um filete de água suja escorre pelo quintal.
Na casa de Marivânia da Silva, 32, a fossa fica na calçada da frente, entreaberta. O quintal dos fundos faz divisa com um terreno baldio que é usado pelo vizinhos como depósito de lixo.
A combinação de inchaço populacional com ausência de investimentos foi mensurado na pesquisa da UnB por meio do indicador P.E.I.R (pressão, estado, impacto e resposta),das Nações Unidas.
Até 2025, Águas Lindas deverá ter 270 mil habitantes, segundo a pesquisa. “Se nada for feito, a cidade terá um quadro de insustentabilidade ambiental [em 2030].”

Editoria de Arte/Folhapress
Arte - INSUSTENTÁVEL Descaso com o ambiente pode deixar cidade "inviável" em 20 anos