A Índia caracterizou-se por uma sempre projetiva política externa, desde sua independência num contexto bipolar de Guerra Fria quando liderou o Movimento dos Não- Alinhados, política considerada fundamental para os interesses indiano no concerto internacional da época.
A inserção internacional da Índia, articulada em torno de múltiplas dimensões de interesses, é construída em torno de objetivos cooperativos, mas também competitivos. Cooperativos, observamos, nos foros internacionais que ao longo de sua política externa orquestrou conjuntamente a outros Estados (Movimento dos Não- Alinhados, G-77, G-23 e o Foro de Diálogo IBSA, em inglês Indian, Brazil and South África) para um maior equilíbrio de poder no sistema internacional, valorizando instâncias bilaterais como também as instituições internacionais. Outro ponto é o competitivo: esse aspecto da inserção internacional da Índia pode ser visualizado nos arranjos também multilaterais em torno das negociações internacionais como propriedade intelectual, fármacos, desenvolvimento tecnológico, produtos agrícolas, etc.
Esse momento histórico teve seus rearranjos, mas no cenário pós Guerra Fria a Índia acentuou sua vontade política em torno do multilateralismo internacional, em negociações econômicas e de segurança, já que o contexto presente tem uma característica unipolar e contrária ao fundamento do pensamento político indiano de concertos multilaterais amplos.


O comportamento de médias potências como a Índia, cuja parcela de âmbito de arranjo e articulação é de contra-hegemonia, postula-se dentro de uma nova “engenharia política internacional” ancorando rearranjos multilaterais em arenas consultivas globais. É o caso do desenho e reforma institucional do Conselho de Segurança, elemento fundamental da concertação multilateral contemporânea.
Um ponto levantado acerca da assimetria internacional é a maneira como se consubstancia o papel das instituições internacionais nesse cenário. Especialmente, consideraremos o papel das Nações Unidas, mas especificamente o papel do Conselho de Segurança, e guiaremos a reflexão dentro de uma prerrogativa: existe um esvaziamento de prestígio do Conselho de Segurança, mas porque a Índia, uma potência média de peso tanto econômico quanto político em sua região, denota uma política externa assertiva no objetivo especial de uma reforma do Conselho de Segurança da ONU? Configura-se como uma política externa cujo objetivo é a busca por prestígio? Não seria uma política inepta cujo objetivo final, a priori, não atingiria o objetivo de status maior do país, já que adentrar (ou não) uma instituição como o Conselho de Segurança não faria diferença consubstancial em minimizar a assimetria internacional?

Ou sua concertação multilateral é configurada dentro de uma tentativa idealizada de redimensionamento do cenário internacional unipolarizado refletido em uma instituição como o Conselho de Segurança, voltado à manutenção do status quo momentâneo e não à sua desvinculação e abertura a novos agentes?  
Desta forma, procuraremos analisar a inserção internacional indiana num quadro que possibilite entender a conjuntura pós Guerra Fria em termos de multilateralismo político contra – hegemônico indiano, mas também no sentido de um movimento de contraposição, ancorado no contexto de uma política estadunidense de manutenção desse cenário assimétrico e desigual. 
Para tanto, analiso a Índia e sua política multilateral assertiva no contexto específico do Conselho de Segurança da ONU em meio a arranjos e ajustes articulados pelas potências médias (e até mesmo com Estados desenvolvidos como Alemanha e Japão) para a superação de um modelo, um desenho institucional pouco contemplativo, efetivamente, a uma regionalização e maior distribuição de poder dentro do Conselho de Segurança.
Entretanto, posto o desenho institucional do Conselho de Segurança como um organismo ancorado na manutenção do status quo vigente, antes bi polar e agora unipolar, fada-se ao fracasso o multilateralismo político indiano? Por meio dessas indagações procuraremos estruturar o trabalho, articulando contribuições teóricas em Relações Internacionais tomadas dentro de aspectos considerados relevantes e, por conseguinte, analisando dados e discursos que versem sobre a conjuntura do trabalho. 

Unipolaridade e hegemonia, quando inseridas como conceitos de suporte analítico podem nos trazer duas variáveis imediatas para análise do sistema internacional: a primeira diz respeito ao concerto internacional e a distribuição efetiva de poder entre os Estados no cenário mundial; a segunda trata de como instituições internacionais, como o próprio Conselho de Segurança da ONU, são constituídas e em como essa constituição consubstancia com medidas unilaterais e hegemônicas das potências, ou mesmo, especialmente, de uma “superpotência solitária”.
No nosso presente contexto internacional, os Estados Unidos emergiram do colapso da União Soviética em 1991 como a única superpotência do globo, tanto em níveis militares, quanto econômicos. O período que se passa entre o fim da URSS e o 11 de Setembro de 2001 pode ser encarado como um período de transição e adaptação coercitiva da política externa estadunidense, de uma doutrina de contenção para uma doutrina de preempção. Se tomarmos os ataques terroristas aos Estados Unidos em 11 de Setembro e seus conseqüentes e desastrosos desdobramentos essa postulação fica mais clara.     
Esse apontamento referencial aos conceitos anteriormente expostos é salutar na medida em que por eles o aspecto de problematização do artigo se insere primeiramente. Afinal, a relevância dos conceitos por meio de sua clarificação, ou por dizer explanação, é fundamental para um dimensionamento adequado do trabalho, entender analiticamente como se coadunou a política externa indiana e seu multilateralismo assertivo, tanto política quanto economicamente, ante um cenário de hegemonia norte americana, hegemonia que se desdobra nas arenas de atuação dos Estados na conjuntura internacional contemporânea.

A Índia caracterizou-se por uma sempre projetiva política externa, desde sua independência num contexto bipolar de Guerra Fria quando liderou o Movimento dos Não-Alinhados, política considerada fundamental para os interesses indiano no concerto internacional da época. É claro que esse contexto se modificou e mesmo durante esse momento histórico teve seus rearranjos, mas no cenário pós Guerra Fria a Índia acentuou sua vontade política em torno do multilateralismo internacional, em negociações econômicas e de segurança, já que o contexto presente tem uma característica unipolar e contrária ao fundamento do pensamento político indiano de concertos multilaterais amplos.
Ao fim da URSS e conseqüente término da Guerra Fria, criou-se um vazio diretivo na conduta da política externa indiana. Mas esse vazio diretivo foi rearranjado com uma aproximação maior com os EUA, aproximação de certa forma calculada e “cautelosa” (principalmente quanto à liberalização de seus mercados), mas as relações com a Rússia, “herdeira” da URSS, ainda são estreitas e no amplo concerto nuclear asiático, de fundamental costura para a Índia. 
A política externa indiana volta-se a temas amplos, que se configuram desde aspectos fundamentalmente comerciais até questões relativas à diáspora populacional e de tecnologias e também com questões estritamente voltadas ao âmbito securitivo, como sua política nuclear. Tanto no âmbito comercial quanto no de segurança internacional, a Índia fundou estratégias de inserção ao longo do século XX, desde sua independência até o presente momento, conformando essa inserção num aspecto de  busca por protagonismo.
Protagonismo no cenário internacional no sentido de formulações claras e contínuas em torno de uma política externa voltada ao tema do não-alinhamento (tanto na Guerra Fria quanto no pós Guerra Fria) e do pragmatismo assertivo (configurado em políticas de coadunação em torno de interesses setoriais, mas dentro de um quadro de multilateralismo) por isso gerando uma postura de liderança (ou co-liderança com o Brasil, por exemplo no G-77) e ampla concertação de interesses das potências médias.
Sua permanência no Conselho de Segurança, como membro não-permanente, deu-se entre os períodos de 1950-51, 1967-68, 1972-73, 1977-78, 1984-85, 1991-92.  Quando analisamos, por exemplo, o extenso descompasso entre as posturas estadunidenses e indianas defendidas nas votações da Assembléia Geral da ONU entre 1995 e 2000 podemos visualizar a postura de pragmatismo assertivo da política externa indiana. Analisando esse recorte de tempo, o grau de concomitância entre as disposições de EUA e Índia não ultrapassou 23,1 % em nenhum dos anos e a média ficou em 20,5 %. 

Esse pragmatismo assertivo indiano estrutura-se, no campo das relações internacionais, em torno de círculos concêntricos (Dixit, 1997). Um em torno da maior estrutura internacional, contextualizada tanto no período bi polar da Guerra Fria quanto no período unipolar pós Guerra Fria com a hegemonia da “superpotência solitária”, os EUA, procurando, como anteriormente afirmamos, um Não-Alinhamento restritivo configurado dentro de um equilíbrio. Outro círculo seria o regional, no qual a Índia exerce forte influência no Sul da Ásia, mas também é um agente de peso em toda a região, seja no âmbito militar quanto no econômico.
Sua inserção regional é contrabalançada pelas presenças de China e Paquistão, sendo o último o antagonista histórico de maior peso desde a criação de ambos os Estados Nacionais no século XX, entretanto, esse cenário cercado não inviabiliza a postura assertiva indiana na região, por meio de acordos comercial-energéticos com outros Estados regionais do sul da Ásia ou da Ásia central (Cazaquistão, Irã) ou em acordos de segurança regional (Sri Lanka, Bangladesh). A Índia enfrenta uma clara e visível oposição por parte do Paquistão (e também da China) a obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Um aspecto fundamental de análise e explicação desse pragmatismo da Índia na maneira como o país tem dimensionado sua finalidade de autonomia política concerne ao contexto de que os policy making acreditam que o papel da Índia no sistema internacional seja muito maior que o de um país periférico (Harris in Vizentini e Wiesebron, p.199): “é claro que o ‘clube exclusivo’, no qual as elites mais aspiram ver seu país (…) é o de membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas.”
Essa pressuposição é muito mais do que apenas retórica e suas implicações assertivas são visualizadas em uma continuidade madura da política externa indiana quanto ao objetivo de manter-se presente nos principais fóruns políticos internacionais e mesmo promover, junto a outros agentes, a reestruturação de instituições como a ONU e especialmente o Conselho de Segurança. 

Jean Luc Racine, comentando sobre a ampliação do Conselho de Segurança da ONU toma as palavras do Ministro das Relações Exteriores da Índia, em pronunciamento na Assembléia das Nações Unidas em 1994, para poder dimensionar o espectro de atenção existente entre os policy making indianos quanto ao tema de uma nova concertação internacional e a valorização da ONU, por parte da Índia como sua estratégia de poder, para um efetivo equilíbrio no sistema internacional (Racine in Guimarães, 1997, p. 101): “O Conselho de Segurança não é um Conselho corporativo onde o número de ações determina o poder de voto.”


Deixando um pouco o aspecto de interesses da Índia na ampliação do Conselho de Segurança, é importante considerar, antes de qualquer coisa, que os mecanismos internos do Conselho de Segurança atuam sob uma orientação não voltada a manutenção da paz e da segurança internacional, embora contenha essa diretiva na Carta das Nações Unidas. O objetivo do Conselho de Segurança é refletido pelo contexto histórico ao qual está inserido. 

Foi assim configurado no período de Guerra Fria, quando a União Soviética e também os Estados Unidos exerceram permanentemente o poder de veto ao qual podiam operacionalizar, trancando o efetivo exercício do Conselho de Segurança, e de certa forma também agora no período pós Guerra Fria, no qual a “superpotência solitária”, após a ascensão dos “falcões republicanos” com a Administração Bush, busca ao mesmo tempo esvaziar de prestígio a ONU com sua política unilateral, mas faz um movimento contrário, também buscando a instituição para suporte de sua política externa em regiões de tensão, especialmente, como o sudeste/sudoeste asiático, o Oriente Médio e a África.