Por BRUNO RIBEIRO

Além de alguns engajados moradores de Higienópolis, outras associações de bairros nobres vão à luta para proteger seus territórios

 
Em Higienópolis, um dos temores dos 3.500 signatários era que a estação, que seria instalada na avenida Angélica, atraísse camelôs e aumentasse o número de “ocorrências indesejáveis”. Havia também a alegação de que o bairro teria estações muito próximas -já está sendo construída uma parada a 600 metros dali, na rua da Consolação.

Só que o pleito ganhou ares de luta de classes com a adição de uma expressão, “gente diferenciada”, usada por uma moradora em entrevista à Folha para descrever os “mendigos e drogados” que a estação atrairia. Um protesto bem-humorado, chamado de “Churrascão da Gente Diferenciada”, conquistou 55 mil adeptos no Facebook e levou cerca de 600 pessoas às ruas do bairro no último dia 14. Até a quinta-feira passada, o governo afirmava que o projeto da estação seria deslocado para a rua Sergipe.

“Círculo invadido”
Para a socióloga Mônica de Carvalho, professora da PUC, o fato de os bairros da cidade terem crescido isolados uns dos outros favorece a falta de abertura para quem é de fora.

“É criado um círculo de vizinhança, um grupo de convivência. As pessoas se olham e se reconhecem. Por um lado, é importante, porque é um modo de elas se apropriarem do bairro. Por outro, cria situações meio xenofóbicas: não querer que esse círculo seja invadido”, afirma.

Mônica lembra que isso não ocorre só em regiões ricas: “No Jabaquara, já entrevistei pessoas de classe média baixa que reclamam de o metrô ter levado gente ‘estranha’ para o bairro”.

A diferença, diz João Whitaker Ferreira, professor de urbanismo da USP e do Mackenzie, é que a classe alta tem mais chance de ser ouvida. “Com mais contatos, eles são mais eficazes.”

Segundo Ferreira, eles só precisam brigar se o adversário é mais forte, como o mercado imobiliário. “Houve confronto quando o [ex-prefeito] Maluf [1993-1996] fez a nova avenida Juscelino Kubitschek, por cima da Vila Olímpia. Os moradores perderam.”

Em meio ao polêmico imbróglio em Higienópolis, a sãopaulo selecionou casos recentes em que moradores de bairros nobres se uniram para tentar mudar os planos do poder público.

MORUMBI x MONOTRILHO
Em junho do ano passado, um boato que se alastrava havia alguns meses pelos arredores da avenida Jorge João Saad, no Morumbi (zona oeste), foi confirmado. Um monotrilho -trem que circula por um viaduto de concreto- passaria pela região.

“Soube pelos jornais”, diz Reynaldo Abujamra, 48, síndico de um condomínio de casas do bairro. As notícias diziam que a licitação para a obra estava prestes a ser publicada.

O temor inicial dos moradores foi que um novo Minhocão pudesse acabar com o bairro. O receio motivou uma mobilização. Parte dos moradores definiu uma associação que já existia, a Saviah (Sociedade Amigos da Vila Inah), como representante legal do grupo e “partiu para a luta”. A estratégia de ação foi a preparação prévia. “Fizemos um rateio e contratamos um escritório de advocacia e um especialista em transporte para nos orientar”, conta Abujamra.

A análise realizada pela equipe apontou uma série de pontos falhos na proposta. Por exemplo: a licitação estava sendo lançada sem um projeto básico da obra.

Com base nessas informações, o grupo fez uma representação ao Ministério Público Estadual -que resultou em uma ação civil pública. A pedido da promotoria, em dezembro, a Justiça barrou o andamento do projeto (a obra continua suspensa).

“O metrô quis promover essa divisão entre ricos e pobres [entre moradores do Morumbi e da favela Paraisópolis, que seriam beneficiados pela nova linha]. Não é nada disso”, afirma Abujamra. “Somos a favor do transporte público. O que queremos é planejamento”, completa.

Ele argumenta que a região precisa de uma linha de metrô convencional, subterrânea. O Metrô não desistiu de seguir com o projeto. Afirma que a licitação está em fase final e que recorre da decisão da Justiça. A companhia defende a escolha do monotrilho argumentando que a opção garantiria qualidade ambiental e paisagística à região e melhoraria o trânsito.

BRÁS LEME x ÔNIBUS
A Sociedade Amigos de Casa Verde, na zona norte, diz que sempre teve uma relação amistosa com a subprefeitura da região. “Os subprefeitos eram pessoas fáceis. Tínhamos as portas abertas quando fazíamos alguma reivindicação”, conta Marcelo Gianantonio, 44, um dos diretores da entidade. “O penúltimo era até morador do bairro.”

Essa proximidade foi o ponto de partida para barrar, em 2007, o projeto que se apresentava à região: um corredor de ônibus que cruzaria a avenida Brás Leme, uma das mais valorizadas da zona norte. “O corredor era só uma ideia, uma especulação”, diz Gianantonio. Mesmo assim, quem morava ao redor da via já havia formado uma opinião. “Éramos contra”, afirma.

A avenida mantém um canteiro central com árvores e pista de exercícios, e os moradores não queriam perder essa opção de lazer. O projeto fazia parte de um plano da prefeitura de construir cinco corredores na cidade até 2008.

“Quando soubemos da obra, procuramos a subprefeitura e fizemos pressão forte junto ao subprefeito”, conta Gianantonio. A subprefeitura, diz ele, cedeu e ajudou a negociar a suspensão da obra na Secretaria Municipal dos Transportes, que tocaria o projeto.

Os moradores até chegaram a organizar uma passeata, que não ocorreu porque a subprefeitura emitiu nota dizendo que a obra não sairia. Resultado: menos de um mês depois de anunciar o corredor, a prefeitura recuou.

Então o bairro não precisa de transporte público? “Não era uma obra necessária. Tem o terminal Barra Funda bem próximo da gente”, afirma o líder comunitário. Procurada pela reportagem, a prefeitura não comentou o caso.

REAL PARQUE x COHAB
No Real Parque (zona oeste), área próxima ao bairro do Morumbi, moradores de 260 apartamentos de alto padrão convivem há mais de dez anos com uma favela que tem cerca de 4.000 habitantes.

Em maio do ano passado, eles foram apresentados a um projeto de reurbanização da favela Real Parque e dizem ter concordado com as propostas da prefeitura. “Ficamos maravilhados”, afirma o engenheiro Antônio Nogueira, 50, que mora ali há 20 anos.

O que não estava combinado, segundo ele, era a aquisição de dois novos terrenos fora do perímetro da comunidade para a construção de conjuntos habitacionais. Preocupados com o aumento da área da favela, eles tentaram barrar a obra via Ministério Público, mas não foram atendidos.

A desvalorização imobiliária também tornou-se um problema. “No meu prédio, há um apartamento à venda por R$ 400 mil, e não há quem queira ver”, diz o empresário Luís Neto, 51, vizinho de Antônio.

Luís afirma que não se trata de luta de classes. “Eles [os moradores da favela] trabalham em nossas casas, brincam com nossos filhos. Convivemos bem.” Diz ainda que não é contra a urbanização da favela. “Queremos apenas que ela seja bem-feita.”

Hoje, eles reivindicam um posto policial para a área e um estacionamento para o conjunto habitacional. “Se isso não for feito, o trânsito nas vias estreitas do bairro ficará inviabilizado”, diz Luís.

ANÁLIA FRANCO x METRÔ
Mesmo sem a confirmação de que o metrô vai chegar ao Jardim Anália Franco, moradores do bairro nobre da zona leste já se uniram para decidir onde será estação.

Querem que a suposta parada fique na rua Felisbela Gonçalves, ao lado do shopping Anália Franco. Outra opção, que eles rejeitam, seria a avenida Regente Feijó.

O movimento já está adiantado porque as lideranças comunitárias dizem manter amigos em comum com membros do corpo técnico do Metrô.

Associada ao Rotary Club da Vila Formosa e atuante em outras organizações comunitárias, a administradora Sílvia Inez Machado, 59, diz que, em 2009, foi apresentada, durante um jantar, a um engenheiro que trabalha no Metrô.

Papo vai, papo vem, o funcionário lhe adiantou a extensão do metrô para o bairro. De lá para cá, ela tratou de se reunir com outros moradores para discutir o assunto. Eles já “decidiram” onde a estação deve ficar. Agora, só falta convencer o Metrô.

O motivo da rejeição à rua Regente Feijó é que parte dos moradores reivindica a construção de um centro cultural no local. “Seria uma coisa bem bonita, com teatro, que a gente pudesse usar”, diz Sílvia. O Metrô confirmou, em fevereiro, a intenção de construir a estação Jardim Anália Franco. Para Sílvia, um líder comunitário precisa saber “como arrombar portas” para ser ouvido. “Se não me atendem, vou aonde eles [políticos] estão.”

VILA MADALENA X SKATE
O Jardim das Bandeiras fica entre a Vila Madalena, o Jardim América e o Sumaré, na zona oeste. É um bairro ainda horizontal, repleto de áreas verdes e casarões. Segundo o presidente da Associação de Amigos do Jardim das Bandeiras, o arquiteto Caio Guimarães Machado, 55, foi para preservar essas características que os moradores se uniram e protestaram contra duas questões: o projeto de um piscinão na praça General Oliveira Alves e a presença de skatistas em outra praça, a Horácio Sabino.

No caso do piscinão, os moradores fizeram um estudo do projeto, buscaram a consultoria de um engenheiro e apresentaram ao Ministério Público um laudo -nele, argumentavam que a obra, além de cara, não resolveria o problema de enchentes nas proximidades da rua Medeiros de Albuquerque. Segundo eles, a proposta não contempla a reurbanização da praça e não tem licença ambiental. “Não somos contra o piscinão. Somos contra obras ineficazes”, afirma Caio.

Por quase oito anos, a associação conseguiu barrar a construção, mas, de acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, a prefeitura aguarda apenas a emissão da licença ambiental, que deverá sair nos próximos dias, para retomar o projeto.

Perto dali, contornando a praça Horácio Sabino, havia uma rua lisinha apelidada pelos skatistas de “ladeira do Alves”. O “downhill” (descida) perfeito reunia os amantes do esporte, mas desagradava à vizinhança.

O presidente da associação diz que moradores tiveram casas pichadas e vidros quebrados porque reclamaram do barulho. Fizeram a queixa para a Subprefeitura de Pinheiros e, em meados de 2007, a ladeira amanheceu com paralelepípedos.

Em nota, a subprefeitura esclarece que as faixas de paralelepípedos foram colocadas para reduzir a velocidade dos veículos na via, além de promover a diminuição da velocidade da água durante as chuvas, evitando enchentes.