KATHRINE THOMASSEN se empolga quando descobre que o passageiro viajando ao seu lado no voo entre Copenhague e Kangerlussuaq, uma vila de 600 habitantes que abriga o maior aeroporto da Groenlândia, é jornalista e se abalou do Brasil para fazer uma reportagem sobre o seu país. “Ah!”, sorri. “Veio escrever sobre o petróleo?”
Com uma bolsa de pele de foca numa mão e um MacBook prateado na outra, a groenlandesa de 58 anos desata a falar sobre os bilhões de barris que se estima haver na costa noroeste da ilha e as transformações que causarão na economia. “Para os jovens, vai ser mais fácil arrumar emprego.” Diz que se preocupa com os potenciais impactos ambientais da exploração, mas conforma-se: “Não dá para parar o tempo nem reverter a maré”.
Cinco dias depois, num outro voo, o geofísico alemão Michael Studinger aponta outra maré que não pode ser revertida.

Estamos sobrevoando a geleira de Jakobshavn a bordo de um avião de pesquisas P-3 da Nasa, a agência espacial americana. O glaciar desemboca num fiorde (um braço de mar escavado por geleira), no mesmo litoral noroeste groenlandês onde o óleo está sendo prospectado.
“Esta imagem é de dez anos atrás”, diz, apontando uma imagem de satélite da geleira em seu laptop. “E aqui é onde nós acabamos de passar.” O que aparece como uma grande língua de gelo na foto é apenas um fiorde coalhado de icebergs visto da janela. A frente do glaciar não está mais lá.
“Ele recuou 10 km em dez anos”, calcula Studinger. “Está mudando muito rápido.”

DILEMA As duas cenas resumem o dilema da Groenlândia nestes tempos de aquecimento global. O mesmo óleo que, queimado, produz o gás carbônico que derrete geleiras como Jakobshavn e traz a ameaça de elevação do nível do mar é a grande aposta num futuro de prosperidade econômica. Técnicos do governo comparam a prospecção de petróleo na costa da maior ilha do mundo com a descoberta do pré-sal brasileiro.
“Queremos ser como vocês”, diz Henrik Stendal, diretor de Geologia do Birô de Minas e Petróleo de Kalaallit Nunaat -nome do país na língua local.
Se a companhia escocesa Cairn Energy der sorte em quatro perfurações que fará a partir do meio do ano a 120 km da costa de Kalaallit Nunaat, Stendal poderá ser perdoado pela modéstia. As reservas groenlandesas, afinal, são quase quatro vezes maiores do que as já mapeadas no pré-sal: em torno de 48 bilhões de barris. Destes, 17 bilhões estariam no oeste da baía de Disko, onde se concentra a maior parte da indústria pesqueira da ilha -responsável pela quase totalidade das exportações da Groenlândia. Outros 31 bilhões de barris estariam escondidos sob a baía de Baffin, que separa a Groenlândia do Canadá. Em mais uma ironia, foi o derretimento do gelo marinho que pôs a região no mapa-múndi petroleiro.
“As empresas ganharam mais dois meses sem gelo por ano para operar ali, em comparação com dez anos atrás”, conta Stendal. As primeiras perfurações foram feitas em 2010, sob protestos do Greenpeace. Não acharam óleo nem gás com potencial comercial, mas o diretor da Cairn se diz otimista e planeja investir US$ 1,5 bilhão no país.

INDEPENDÊNCIA Para o governo da Groenlândia, que em 2009 conseguiu autonomia política em relação ao reino da Dinamarca após quase três séculos de tutela, o petróleo é uma oportunidade de comprar sua independência econômica. A Coroa dinamarquesa ainda subsidia anualmente a Groenlândia com US$ 600 milhões. “Estamos trabalhando duro para diversificar a economia”, afirmou à Folha o premiê groenlandês, Kuupik Kleist. “É muito frágil depender de apenas um recurso, a pesca, que pode ser afetado por clima, migração de estoques e mudanças na demanda dos mercados mundiais.” Kleist diz esperar que o óleo comece a jorrar em cinco ou dez anos. Enquanto os groenlandeses sonham com petróleo, o país esquenta como nenhum outro: os termômetros na ilha subiram 2ºC acima do normal no último século, contra 0,76ºC de aquecimento médio mundial. Isso acontece porque o Ártico tende a amplificar o aumento na temperatura.
“As superfícies do Ártico ou são neve e gelo, ou são mar aberto, ou são tundra verde. Quando você tem neve e gelo, 90% da energia que chega à superfície é refletida de volta”, diz Mark Fahnestock, glaciologista da Universidade de New Hampshire, EUA. “Quando o Ártico começa a esquentar, a neve e o gelo vão embora, a superfície fica mais escura e absorve mais energia. No caso do oceano Ártico, a energia é amplificada em nove vezes.”
Por esse motivo, os cientistas previram que os primeiros sinais de um planeta mais quente seriam detectados no Ártico. A amplificação ártica faz o manto de gelo da Groenlândia -a segunda maior reserva de água doce da Terra (só perde para a Antártida)- derreter aceleradamente: já responde por 20% da elevação do nível do mar no planeta.

AMPLIFICAÇÃO Numa mesa do restaurante India Place, no centro de Copenhague, Shfaqat Abbas Khan explica como a amplificação funciona. O geofísico de origem paquistanesa mede com GPS e dados de satélites o movimento das geleiras e o seu balanço de massa – a diferença entre o que o manto de gelo ganha (por precipitação de neve) e perde (por degelo e fragmentação dos glaciares).
No ano passado, Khan e colegas no Instituto Nacional de Estudos Espaciais dinamarquês publicaram um estudo no periódico “Geophysical Research Letters” que faz um alerta: o derretimento vem se espalhando do sul em direção ao noroeste.
Uma animação condensa os dados adquiridos entre 2003 e 2009. A altura do gelo é indicada por um código de cores: o verde é a altura em 2003, o amarelo e o vermelho representam elevações, e o azul sinaliza redução. Quando o pesquisador põe o filme para rodar em seu computador, a imagem é tomada por uma imensa mancha azul-escura. Pergunto se isso é degelo sazonal do verão. Abbas sacode a cabeça. “Isso é gelo perdido.” Há lugares onde a frente do glaciar registra diferenças de cem metros ou até 500 metros de altura entre um ano e outro. Em suas palavras: “Você vai lá num ano e ela tem cem metros de altura. No ano seguinte, ‘bum!’, sumiu.”
Pergunto se não é verdade, por outro lado, que em algumas áreas o manto de gelo está ficando mais espesso. Ele faz uma pausa dramática e sorri. “Sim, há espessamento”, confirma. “Mas estamos falando de 50 cm de espessamento contra 500 m de rebaixamento.”
O aquecimento global amenizou o trabalho dos glaciologistas. Hoje, são comuns as temperaturas de até 25ºC positivos em cima do manto de gelo, algo impensável há 15 anos. “Às vezes, fico de camiseta”, diz Khan. Mas a velocidade do degelo também aumenta os riscos da profissão. Um helicóptero despeja a equipe na superfície de uma geleira em movimento constante, cheia de fendas que se abrem o tempo todo. Lá em cima, fazem medições com GPS e, dez minutos depois, são resgatados pelo helicóptero, que não pode pousar -sob risco de cair numa fenda de centenas de metros de profundidade.

RIOS CONGELADOS Mas também está ficando mais perigoso trabalhar nas geleiras, colossais rios congelados que têm fluído mais depressa em direção ao mar. Há 15 anos, a geleira Jakobshavn “andava” dez metros por dia. Há uma década, começou a andar 20 metros por dia. Hoje, anda 40. Isso aumenta a velocidade com que eles cospem icebergs no oceano. Como a descarga de gelo é bem maior do que a precipitação de neve a montante, o manto inteiro acaba emagrecendo.
O problema, diz Khan, é que não dá para prever aonde vai chegar o emagrecimento da Groenlândia, nem qual será seu impacto no nível do mar daqui a um século: um metro ou 20 centímetros? Ele diz serem necessários mais dez anos de coleta de dados. “Sim, eu estou vendo isso ano após ano, mas sou um cientista. Preciso ter certeza de que isso vai continuar acontecendo. Até lá, não estou convencido.”
O americano Fahnestock está bastante convencido. Quando nos encontramos pela primeira vez, num laboratório de química do Kiss (Centro de Apoio Internacional à Ciência de Kangerlussuaq, na sigla em inglês), misto de alojamento e estação de pesquisas, ele acabara de voltar de um dia de trabalho de campo em Jakobshavn.
Fahnestock e seus colegas vêm observando que, nos últimos dois anos, a geleira tem conseguido formar icebergs, fenômeno típico do verão, em pleno inverno. Isso em tese não seria possível: o fiorde no qual ela desemboca costumava ficar congelado durante toda a estação, contendo, assim, o escoamento do glaciar.
Essa “represa” de gelo não funciona mais. Dias depois, eu caminharia com Fahnestock até a beira do fiorde, nos arredores da cidade de Ilulissat, e veríamos barcos de pesca indo e vindo num mar quase livre de gelo. O pesquisador americano John Sonntag, da Nasa, que sobrevoa a região todos os anos há uma década, disse nunca ter visto o fiorde tão aberto como neste ano.
“Há exemplos de aquecimento repentino no passado”, pondera o cientista. “Na década de 1930, várias geleiras se retraíram, algumas bem rápido.” O problema, diz, é que hoje há um pacote completo de mudanças: além do derretimento na Groenlândia e no Alasca, há uma perda acelerada de gelo marinho, o que causa erosão em vilas litorâneas que costumavam ficar abrigadas do efeito das ondas pelo mar congelado.
O permafrost, nome dado ao subsolo permanentemente congelado do Ártico, ficou vários anos estável e só recentemente começou a derreter. “Todas essas mudanças são coisas que você esperaria ver num Ártico em aquecimento.”

SUPERMERCADO Um sinal das mudanças na Groenlândia pode ser visto no mais insuspeito dos lugares: o supermercado.
Em Ilulissat, terceira maior cidade do país (4.500 habitantes), 250 km ao norte do Círculo Polar Ártico, as gôndolas exibem, além dos tradicionais pacotes de carne de baleia congelada, suculentos limões sicilianos e mirradas batatas. Aqueles são importados da Europa, cuja ligação com a Groenlândia por ar e mar é cada vez mais frequente. Já as batatas são, como sugerem seu tamanho e aspecto mortiço, legítimos produtos da terra.
O sul da ilha vive um “boom” agrícola sem paralelo desde o Período Quente Medieval (entre os anos 1.000 e 1.400), quando Erik, o Vermelho, aportou ali, fugindo de problemas com a lei na Islândia. O viking batizou o local de “Grønland”, ou “Terra Verde”.
Acadêmicos até hoje debatem se o topônimo foi uma jogada de marketing para atrair mais nórdicos para uma ilha cujo território é 80% gelo ou se a Groenlândia de fato era verdejante no passado. (Ao desembarcar na pequena Kangerlussuaq em plena primavera, sob neve e temperatura de -13ºC, fiquei inclinado pela primeira interpretação.)
A ocupação viking durou cerca de 500 anos (o filho de Erik, Leif, descobriu a América no processo). Plantaram capim e criaram gado até o fim do período quente, quando as colheitas de feno que alimentavam os animais começaram a despencar. Os noruegueses acabaram se mudando da Terra Verde.
Hoje, as temperaturas médias ali são muito semelhantes às que possibilitaram o florescimento da sociedade norueguesa na ilha. Agricultores se arriscam a criar ovelhas e a plantar brócolis e outras culturas resistentes ao frio.
E, claro, batatas. Michael Pendersen, do Ministério da Habitação, da Infraestrutura e dos Transportes, que supervisiona a política de mudanças climáticas da Groenlândia, comemora a expansão das terras cultiváveis no sul.
“Mas não está claro se isso se deve ao aquecimento ou a melhorias tecnológicas”, diz ele.

NAVEGAÇÃO O que definitivamente está mudando por obra e graça do aquecimento é a navegação. Isso é boa notícia para os 56 mil groenlandeses -população que caberia com folga no estádio do Morumbi-, já que praticamente tudo na ilha que não seja peixe ou peles é importado.
“Cinco anos atrás, tínhamos de manter a produção de pescado processado em um depósito por cinco meses, para ser despachado em maio ou abril e só então chegar aos clientes. Hoje, eles podem consumir produtos mais frescos”, diz Niels Ole Moller, gerente da usina da Royal Greenland em Ilulissat.
De um escritório cheirando a peixe dentro de um prédio cheirando a peixe, Moller comanda boa parte da sempre deficitária balança comercial groenlandesa. A Royal Greenland é a maior processadora do país de camarão-do-norte (Pandalus borealis), produto que responde sozinho por 54% da pauta de exportações, e a baía de Disko, onde fica Ilulissat, é sua principal zona pesqueira.
O declínio do gelo marinho na região tem sido ótimo para os negócios, permitindo a pesca do camarão entre dezembro e abril, tradicional período morto para a atividade. “Agora não há mais gelo, e as pessoas podem pescar o ano todo”, diz. “É melhor, não é?”
A pesca do camarão em Disko foi tão favorecida pelo novo clima que, hoje, donos de barcos grandes precisam comprar a cota de barcos menores, já que eles estouram a própria.

PESCA ARTESANAL Mas não há só ganhadores nessa jogada. Moller conta que, no norte da Groenlândia, a redução do período com gelo está acabando com a pesca artesanal, ganha-pão da maioria da população.
Os inuítes sempre contaram com o espesso gelo marinho dos cinco ou seis meses de inverno para saírem com suas motos de neve ou seus trenós movidos a cães para caçar focas e pescar halibite. Como os peixes se refugiam debaixo da banquisa, basta abrir um buraco no gelo e jogar a linha.
Hoje, o gelo é fino demais para permitir o trânsito de trenós, mas grosso demais para permitir que os pescadores saiam com seus barcos. Cidades importantes do norte, como Upernavik e Ummanaq, cercadas de assentamentos tradicionais inuítes, estão na proverbial pindaíba.

SUPRIMENTOS A mudança climática também vem tirando algumas cidades do isolamento do gelo. Se o aquecimento causa sério impacto na pesca tradicional, permite o aumento do fluxo de navios que abastecem lugares remotos. Upernavik, por exemplo, ficava sem receber suprimentos de novembro a junho. Neste ano, recebeu um navio pela primeira vez em fevereiro, o mês mais frio do inverno ártico.
O responsável pela proeza é Thorkil Riis, um dinamarquês parrudo e bem-humorado que comanda o Irina Arctica. O colossal quebra-gelo da Royal Arctic Line e sua nave-gêmea, o Arina Arctica, levam peixe e camarão da Groenlândia para a Europa e trazem todo o resto, de cerveja a automóveis, de roupas a geradores a diesel. Nunca tiveram tanto trabalho.
“Há 22 anos, no tempo em que fazia frio, levávamos quatro dias para entrar na baía de Disko nesta época do ano”, diz. “O gelo marinho aqui neste porto tinha de um metro a 1,5 metro de espessura. Hoje, só chega a 60 centímetros.”
Se já é possível navegar o ano inteiro pela maior parte da Groenlândia, a perda do gelo marinho aumenta a quantidade de vapor d’água, uma receita para tempestades. Em fevereiro, Ilulissat viu a tormenta mais forte de que a maioria de seus habitantes tem memória. O vento arrancou telhados de várias casas. “Ninguém gosta do verão por aqui”, diz o marinheiro.
Kleist, o premiê, reconhece a complexidade do assunto e diz que seu governo está quebrando a cabeça para montar um plano de adaptação da Groenlândia ao seu novo clima. Apesar das tempestades, ele se diz “majoritariamente otimista” com os impactos do aquecimento global no futuro de seu país.
Riis tem uma visão pragmática. “Não acho que as pessoas realmente contem com isso aqui”, afirma, sobre a perspectiva de navios de abastecimento indo e vindo toda semana. “Acho que eles ainda têm papel higiênico guardado para o inverno inteiro.”

POLARLICHT
As imagens que ilustram a capa e estas páginas não foram feitas na Groenlândia, mas nos Alpes austríacos, onde a artista plástica paulistana Estela Sokol, 31, realizou um projeto de Land art, ou seja, arte na paisagem. Estela “pintou” paisagens nevadas com peças de acrílico, látex e PVC. A série, intitulada “Polarlicht”, será apresentada em uma exposição individual em junho, na Gallery 32, em Londres. Veja mais imagens em folha.com/ilustrissima

Para o governo da Groenlândia, o petróleo é uma oportunidade de comprar sua independência econômica

Enquanto sonha com petróleo, o país esquenta como nenhum outro: os termômetros subiram 2ºC acima do normal

O aquecimento amenizou o trabalho dos glaciologistas -são comuns as temperaturas de até 25ºC positivos no gelo

A geleira tem conseguido formar icebergs, fenômeno típico do verão, em pleno inverno. Isso em tese não seria possível

No norte do país, a redução do período com gelo acaba com a pesca artesanal, ganha-pão da maioria da população

Autoria de CLAUDIO ANGELO da Folha de São Paulo.