O mundo árabe vem passando, desde o final de 2010, por uma turbulência social e política sem precedentes regionais. E não é para menos. Ao longo dos últimos séculos as regiões do Norte da África e do Oriente Médio foram, fundamentalmente, parcelas regionais de impérios. Seja o Árabe, Otomano ou Britânico. Essa dominação, com excessão árabe, nunca foi completa e gerou, após a partilha do Império Otomano pelas potências européias (França e Grã-Bretanha), Estados fragmentados com pouca coesão política. Especialmente após o processo de descolonização, historicamente na segunda metade do século XX, as unidades nacionais começaram a ser fortalecidas. E da maneira políticamente mais rígida: através de regimes hegemônicos com pouca abertura ou mesmo nenhuma abertura política. Inclusive, algo muito comum nos regimes hegemônicos que se espalharam como vírus após a descolonização foram as “Leis de Emergência”. Trocando em miúdos: liberdade de associação política era algo pernicioso para a segurança do Estado e, portanto, nada de pluralidade partidária e/ou organizações não-governamentais e imprensa livre. O paraíso para ditaduras.


 
Ok! Regimes hegemônicos, com baixíssima representatividade e rotatividade de decisores políticos, resultando em regimes personalistas. Para imperar esse modelo de regime uma instituição é fundamental: o Exército. E, na maioria imensa de países árabes (mas não os únicos), o Exército é a instituição mais sólida.  Mas essa recente revolução, denominada de “primavera árabe”, iniciou-se nos pontos mais sensíveis, talvez, para qualquer coletividade humana: desemprego e fome.
 
Caso não se lembre, leitor@ do Política & Ambiente, o estopim dessa revolução foi a auto-imolação de um trabalhador (feirante) na Tunísia, desencadeando um processo social que levou a queda do ditador e do regime que lhe dava sustentação. O motivo de tão impactante ação foi o controle desenfreado do Estado tunisiano sobre as atividades econômicas e os incentivos baixíssimos ao desenvolvimento sócio-econômico, associando-se, claro, a nefasta pandemia de corrupção que assola diversos desses países que perpassam por turbulências sociais e políticas.
 
Muit@s analistas apontaram que essa onda revolucionária não deveria ser apontada como onda (e sim uma marolinha) e nem como revolucionária (mas qualquer outra coisa). Discordo de ambas as análises. Do ponto de vista geopolítico, há sim uma onda de levantes populares nos países árabes que pedem, acima de tudo, liberdade política e maior desenvolvimento socioeconômico. Associados, indubitavelmente, a queda de ditadores e regimes políticos hegemônicos. O desejo por um novo tipo de regime, que contenha em suas entranhas maior abertura política é um denominador comum aos diversos levantes. Seja na Líbia, seja no Egito, Iêmen ou Síria e Egito. A mudança de regime ou, ao menos, a constante batalha por direitos políticos é continuamente expresso nas redes sociais, seja Facebook ou Twitter. 
 
Mas os processos endógenos dessa revolução também variam conforme os países e seus tipos de regimes hegemônicos, embora as ditaduras personalistas sejam comuns. E centenas de milhares de pessoas já foram mortas devido ao desejo por liberdade política. O que esperar, portanto, de um cenário de forte instabilidade política como a que já perdura no norte da África e no Oriente Médio?
Regimes hegemônicos como existentes no Egito e Tunísia já caíram. O que sucederá nestes países, politicamente, ainda está sendo desenhado através de abertura política (legalização de partidos políticos e suspensão das “Leis de Emergência”). No caso Líbio, Muamar Kadafi continua lutando para se manter no Poder, ainda que, recentemente, sofra o revés da coalizão internacional, autorizada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, para proteger civis no país. O caso líbio, realmente, é um dos mais graves (ao lado do iemenita) e uma guerra civil, evidentemente, já está implantada no país.
Talvez, para responder a pergunta sobre o que esperar desse cenário de forte instabilidade, seja necessário olhar para além da cultura, especialmente além da religião. Essa revolução indica que a democracia definitivamente ampliou-se de suas bases ocidentais e talvez, mesmo, esteja se apropriando mais do liberalismo político do que do liberalismo econômico, em um primeiro momento. A religião, no caso, importa apenas quando convém importar. É como o caso dos EUA, onde a bandeira religiosa está cada vez mais acentuada nas campanhas do Tea Party, mas ainda assim as pretensas raízes democráticas estadunidenses são existentes.
Mas e o caso árabe? Bom, embora cultura política não seja “minha praia”, julgo uma grande bobagem considerar a existência de um regime democráticos diretamente dependente de um processo histórico “igual” ao europeu-norte americano. Uma “prova histórica” de que regimes democráticos são viáveis em países muçulmanos (não necessariamente árabes) foi o Irã: na decada de 1950 o regime de Mossadegh foi um típico regime secular e democrático. O “problema” foi que a democracia iraniana foi de cunho nacionalista e a Grã-Bretanha e os EUA, através de espionagem e um golpe, derrubaram o regime. Os resultados históricos das relações entre Irã e EUA estão aí até hoje. O que se pede nessa revolução árabe não é a implantação da Sharia. É uma revolução de jovens que exigem experimentar democracia e não mais uma ditadura.
 
Mas retomando a questão da revolução árabe que varre o norte da África e o Oriente Médio, acredito que as mais essenciais raízes democráticas existem: vontade popular de abertura política. Com isto, alguns dos princípios poliárquicos são contemplados: igualdade política, liberdade de associação e liberdade de expressão.
Mas na verdade, apenas a História poderá responder devidamente às questões que emergem dessa revolução.