Quando assisto a algum noticiário sobre a macro tragédia na região Serrana do Rio de Janeiro fico com a forte sensação de que o título do romance de Gabriel García Marques, Crônica de uma morte anunciada, serve muito bem para classificar, em parte, essa tragédia das chuvas na região serrana do Rio. Essas centenas de mortes, parece-me que são 700 mortos até agora, são exemplos perversos de como existe certo ciclo de perversidade, por parte do poder público e do mercado, na condução repetitiva dessas tragédias devidas, em sua maior parte, pela catastrófica especulação imobiliária e acentuada corrupção [basta observar os escândalos nas prefeituras sobre desvio de verbas públicas para sanar os problemas relativos às enchentes] e ineficiência nas políticas públicas no controle da expansão de moradias em encostas, topos de morros e margens de rios. E, no caso, não existe muita diferença entre ricos e pobres no caso da ocupação irresponsável de áreas de preservação permanente. O que difere de verdade é que existem muito mais pobres e menos ricos, mas ambos ocupam, degradam o meio ambiente e pagam o preço por isso, no caso, de forma nefasta como essas ciclicas tragédias relativas às chuvas de janeiro. Sem esquecer, claro, que o preço pago pelos pobres é muito maior e mais salgado.


Mas o que leva a essas tragédias? como evitá-las? 
O preço amargo que os mais pobres pagam diretamente pela inação pública
São duas perguntas fundamentais e batidas de certa forma nos noticiários. Mas ao mesmo tempo que são batidas, causa certa agonia na falta de respostas, por parte do poder público em respondê-las. Talvez o primeiro ponto que deva ser admitido seja a complexidade da situação. Mas complexidade não é desculpa para inação de governos municipais e estaduais (e governo federal sim, que até hoje não desenvolveu um sistema de prevenção de enchentes no Brasil). Muitas vezes a inação é resultado direto da corrupção, do famoso “jeitinho” para as coisas [CORRUPÇÃO, a gente vê por aqui]. Muito desse preço a ser pago deve-se a especulação imobiliária, que desespera-se em “otimizar” áreas de preservação permanente com vistas a construção de resorts e condomínios horizontais para a classe média alta e classe alta. O boom imobiliário nessas regiões de tragédias de chuvas, no Rio de Janeiro, é um nítido parceiro perverso do incremento da degradação ambiental. Olhar e culpar apenas os pobres que “sobem o morro para construir” é ser míope demais. 
Literalmente, numa área de preservação permanente, “um dia a casa cai!”
Na minha opinião, por parte do poder público que autoriza as licenças ambientais para a construção em áreas de encostas (para pensar somente nas encostas de morros) é da mais gritante, nababesca e descarada falta de visão pública, para não dizer de solidariedade. Sim, porque dizer que não existem pesquisas sérias, há anos, que apontam para esse terrível perigo articulado entre crescimento urbano descontrolado e degradação ambiental é ser no mínimo mentiroso (a) e no máximo de péssimo caráter. Trocando em miúdos: se sujeito quer construir em área de preservação permanente já tem de saber que é proibido. Fiscalização!!! Mas para dar certo, é fundamental controle da corrupção e vontade política em dizer “não, fica para nunca essas construções em encostas e topos de morros, etc”. Tem de ser duro, caso não, a coisa pode e vai dar errado, para não dizer outra coisa.

E, por fim, num momento de perdas de vidas humanas e economias municipais quebradas, temos para ser votado, no Congresso Nacional, o projeto de lei que estabelece um novo Código Florestal. Chega a ser brincadeira de péssimo gosto. Sabe porque? Porque um dos pontos do novo Código Florestal, cuja relatoria foi do Deputado Aldo Rebelo (PCdo B-SP), autoriza/libera as construções em áreas de preservação permanente como topos de morros e libera a construção de moradias em encostas.
E agora, Deputado Aldo Rebelo?
É demais para minha cabeça. Chega a ser um insulto ao intelecto os parlamentares, como o deputado Moacir Micheletto (PMDB-PR), que apoiam o novo Codigo Florestal dizerem que eixste uma espécie de “ranço ideológico, uma infâmia mesmo, atribuir ao projeto do novo Código Florestal Brasileiro às tragédias que se verificam nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo”. Esta é a boa e velha “história para boi dormir”. E não engulo esta. Essa mudança no Código Florestal favorece e muito quem pratica especulação imobiliária. E podem ter certeza que existiu fortissimo lobby para que uma mudança dessa natureza no Código Florestal fosse incorporada.
Parabéns, campeões! Certinho que estão esses resorts e pousadas!
Talvez desta tragédia algo de bom possa surgir. Ou algumas coisas boas, para ficar melhor: (1) sistema de prevenção de enchentes, (2) iniciar uma maior profissionalização, nas prefeituras, da gestão pública do meio ambiente com elevado nível de transparência decisória e financeira, (3) maior interação entre universidades e centros de pesquisa climatológica e de gestão de políticas públicas. São algumas medidas e muitas outras devem ser feitas. O que é imperdoável é a repetição e, como dizia meu compadre Orlando, “o inferno é a repetição”.