Muitos (as) consideram que a melhor obra de HQ do bruxo barbudo Alan Moore seja Watchmen. Eu discordo. As razões são variadas. Seja pela empatia pela temática da obra, seja pela qualidade textual que a cerca (os melhores diálogos que já li, até mesmo na literatura). Até quero, um dia, escrever um post no Cabaré das Ideias comparando detalhadamente as duas histórias em quadrinhos mostrando, por A + B, que V de Vingança é uma obra mais completa que Watchmen. Mas o objetivo deste post não é incorrer nessa comparação de obras, mas sim me deter em V de Vingança através de uma observação politológica da HQ que, na sua própria “razão de ser”, é política em essência. 
V de Vingança é, na minha opinião, mais do que uma HQ. É um verdadeiro manifesto, no melhor dos sentidos. E é essa acentuada parcela política que me deterei a seguir, fechando, acredito, com chave de ouro essa série de posts no Poliarquias sobre Histórias em Quadrinhos e Política.
Vamos lá!

Não há calibre que mate uma ideia!
Imagine um Estado totalitário. Numa definição rasteira, um Estado totalitário é aquele tipo de organização sócio-política que tem alto teor de concentração decisória política e pouco ou nenhum espaço para representação e participação política amparadas em eleições livres e idôneas, ausência de espaço político para oposição ao governo, entre outras necessidades poliárquicas simples. A coisa engrossa mesmo para o lado das liberdades civis (aquelas individuais, relativas a liberdade de expressão, etc) que são o baluarte da premissa iluminista dos Direitos Humanos. Num Estado totalitário, Direitos Humanos e quaisquer direitos que não sejam deveres e comprometimento com o regime é ‘a mais pura balela e história para boi dormir…encarcerado”.
Nos mais nefastos e clássicos Estados totalitários do século XX, um dos pontos altos (e negativos, claro) foi as constantes e genocidas perseguições a minorias. Sejam políticas, étnicas, sexuais e religiosas. É claro que não foram apenas Estados totalitários que promoveram “limpezas étnicas”, mas foram exemplos na administração de medidas políticas e sociais para eliminar populações. Tudo devido a diferença. O que me faz pensar na real dificuldade da alteridade para os fundamentos de um regime político que seja totalitário. No caso,existe uma completa e crua incompatibilidade de termos e princípios entre alteridade (política, social, econômica, étnica) e regime totalitário.
Mas porque, diabos, estou fazendo esse preâmbulo todo para entrar na análise da HQ V de Vingança? 
Simples. É porque a HQ “só” tem razão de ser entendida, como proposta artística, se for entendida através das ideologias políticas que personificam alguns de seus personagens.
E talvez analisar V de Vingança através da jornada de alguns de seus personagens seja meritório para entender, de certa forma, o que leva muitos a aderirem a um modelo hegemônico e outros partirem para sua antítese. E dois personagens, mais do que quaisquer outros detêm essas características: o Líder e, claro, V. Por suas ideologias, mas muito mais do que por isso, por suas respectivas amantes: e o conflito, de certa forma passional que os segue com a Justiça, a Anarquia e o Destino. E, como já diria o próprio V:
“Como se vê, vale tudo no amor e na guerra. Como no caso trata-se de ambos, maior a validade!”
Primeiramente, a história. A HQ V for Vendetta retrata um mundo pós-apocaliptico, que sobreviveu por pouco a Terceira Guerra Mundial. Os regimes democráticos e mais abertos politicamente encontram-se em extinção e, na Grã-Bretanha (palco da história em quadrinhos), ascendeu ao poder um partido totalitário. Seus tentáculos ampliaram-se de tamanho e envergadura e passaram a dominar completamente o Estado. Mas o que o fez ganhar força? O desespero das pessoas. Num mundo de pouca estabilidade política, econômica e social, os receituários fascistas são fascinantes. Suas promessas são simples, assim como a identificação dos “reais” causadores da instabilidade que cerca a sociedade: as minorias. Foi assim na Alemanha Nazista, com os judeus, ciganos, entre outros, para ficar no caso, lamentavelmente, mais famoso. E não foi diferente nessa Grã-Bretanha fascista. Na HQ narra-se, através de vários personagens como Evey Hammond (por uma lógica ainda em amadurecimento de todo esse processo histórico) ou do próprio V (numa visão poética, mas duramente poética) esse mundo que existia antes, cheio de “pessoas de cor” e de “homens afeminados”. Analisando agora a HQ, me recordo da carta de Valerie que Evey recebe de V, durante sua “libertação”. É mais do que bela essa carta. É viva. E relata esse mundo onde ser diferente passa a ser crime.
Para superar as amarras que nos prendem, temos de renascer. Mas todo parto é dor, acima de tudo, como sente Evey.
Talvez um dos momentos mais marcantes da HQ seja a descoberta, pelo detetive Finch (que investigava a séirie de assassinatos cometidos por V) se depara com os restos de um campo de concentração. Imagina o choque de observar um campo de concentração “de cara”. Agora imagine olhar esse campo de concentração após usar LSD. Foi o caso do detetive Finch. E fico imaginando, através das páginas da HQ, o pavor das visões que a imaginação inconsciente inflige ao consciente. A própria existência de um campo de concentração e o que se faz em um é a degradação máxima de qualquer anseio por justiça. E por falar em Justiça, V foi enamorado por ela. E esse caso de amor não terminou bem, como ilustra a imagem abaixo.
V & Justiça: traição e dor no final do “relacionamento” ideal
O mundo que nos traz V é um mundo onde a Justiça se dobrou ao Fascismo. O diálogo (entre os três melhores da HQ) entre V e a “Madame Justiça” é o reflexo da passionalidade não apenas de nossos sentimentos, mas também de nossas ideologias. Como nota, reconheço que até hoje fico rindo ao reler a passagem que a Justiça chama a Anarquia de “aquela meretriz de lábios vermelhos e sorriso vulgar“.V se sente traído pela Justiça e encontra nos braços da Anarquia aquilo que tanto ansiava: uma forma de enxergar uma realidadee para além daquela que lhe cercava. Reconhecer que sua amada lhe traiu com aquele (outro ideal) que mais despreza é mortal para qualquer coração e V reconhece isto. E planeja sua vingança. Sua vingança é detalhista. V quer quebrar o sistema político fascista acima de tudo. 
Não adianta destruir apenas a estátua da Justiça ou o Parlamento (como o faz magistralmente inspirado por música clássica), mas dobrar suas convicções. Ao mesmo tempo que persegue todos seus carcereiros (sim, V foi um detido num campo de concentração e cobaia de experimentos), executando-os primeiramente em suas crenças e depois eliminando-os, V orquestra a quebra do sistema através daqueles que sustentam o regime: o povo. E seu recado não é nada delicado. Assumindo os meios de comunicação oficiais, V se torna interlocutor do passado e agente responsabilizador do presente. E deixa claro: se o mundo está essa bosta, boa parte da culpa é de vocês, telespectadores, que permitiram que isso ocorresse.
 E quanto ao Líder, autoridade máxima do Regime? Bom, o Líder também é um sujeito apaixonado, não pela Justiça e muito menos pela Anarquia, mas pelo Destino. No caso, Destino é um computador, mas representa a ordem, mas uma ordem imposta, exercida pelo controle absoluto e lealdade também absoluta ao regime. O próprio Líder reconhece que direitos são luxos que não cabiam mais neste mundo que vivia. Mas assim como a Justiça traiu V com o totalitarismo “dos homens com botas”, Destino também traiu o Líder. E logo com V. Mas quem é V? 
Quem é V? Uma ideia…
Durante toda a revista tenta-se descobrir quem é essa pessoa, que foi torturada e submetida a experimentos científicos, se é homem ou mulher, se era um “paqui” ou homossexual, o que era V? A resposta nunca veio. E nunca virá. V é antes de tudo uma ideia, como ao final da revista comprova-se. E ideias não podem ser mortas a tiros, como ocorreu com o Líder e com o próprio V. O que V ofereceu ao povo, após desmontar o sistema totalitário, foi uma nova chance de se guiar, não através do medo imposto pelo regime fechado e fascista, mas através da liberdade política. A escolha, ao final da revista, é dada ao povo. E aceita. Como diria V, “Anarquia não é caos, Anarquia é ausência de líderes”.
Mas será que V é, essencialmente, apenas um V de Vingança? Acho que não. Também é V de Virtú. Que, segundo Maquiavel, deve cada governante possuir ao lado da Fortuna. E acima de tudo, cada um de nós, cidadãos e cidadãs dos mais variados cantos dessa Terra.