Me lembro como se fosse ainda hoje: mas lá pelos idos de 1987, ainda um infante, fui a uma banca de revista procurando por algum gibi dos “Superamigos”. A coisa toda era simples. Eu era fã (e ainda sou) da animação e, mesmo criança, era um leitor assíduo de gibis de super-heróis. Fui à banca procurando alguma revista em quadrinho que mostrasse o que eu via na animação. E, trocadilho a parte, estava muito animado com encontrar alguma revista que mostrasse Batman, Superman, Mulher Maravilha e companhia interagindo e enfrentando a “Legião do Mal”. Mas quão grande não foi minha surpresa quando encontrei a capa de uma revista chamada Batman – O Cavaleiro das Trevas. Considero aquele um marco na minha biografia e na maneira como passei a enxergar o mundo. O motivo? Bom, para quem queria encontrar os “Superamigos”, acabei encontrando esta capa que, de “superamigos” não tinha nada…
Capa da quarta edição pela Editora Abril de Batman – O Cavaleiro das Trevas
E este foi apenas o começo das minhas seguidas agradáveis surpresas nesta, que considero ao lado de V de Vingança, a melhor História em Quadrinhos de todos os tempos. E a política nisto tudo? Bom, é no pano de fundo político da história que, lendo e relendo por mais de 40 vezes, considero esse Batman de O Cavaleiro das Trevas, de autoria de Frank Miller, o melhor de todos e também um sólido anarquista…

Imagine um mundo mais cinza. E um mundo além de mais cinza, também regido por uma Guerra Fria que, ao momento da história desenrolada, está numa aguda crise em “Corto Maltese”. Esse momento cinza por que passa o mundo se localiza, temporalmente, na década de 1980. E quem é o Presidente dos Estados Unidos é Ronald Reagan, uma mistura de ator, cowboy e político. Essa mistura é palco de momentos surreais na HQ, me lembro especialmente daquele em que, sendo entrevistado sobre a “Crise Batman”, o Presidente Cowboy responde à câmera: “isto não é de meu rancho”. E de onde viria essa “Crise Batman” e no que ela interferiria na estabilidade política daquele mundo?
Este é, na verdade, o grande gacho da HQ.
O Morcego Triunfa: auge de Frank Miller
Nesta realidade, Bruce Wayne, com seus 50 anos, se aposentou do manto do Morcego devido a morte do Robin Jason Todd. Vivendo a boa e velha boêmia, Wayne entorpece-se de álcool e futilidades e vê sua cidade, Gotham City, desmoronar e ser tomada pela criminalidade mais diversa possível. Entretanto, essa aposentadoria é artificial, dentro da alma de Bruce Wayne arde a chama de combater a criminalidade. O velho Morcego ainda está lá e conclama Wayne a abandonar a miséria de vida que leva e abraçar novamente a verdadeira realidade de sua alma: o Batman.
Mas os tempos são outros. Os heróis desapareceram. Apenas Superman está na ativa e mesmo assim trabalhando para o governo dos Estados Unidos. E daí nasce a antítese de toda a série. O contraponto entre Batman e Superman. Dois símbolos distantes um do outro. E nesta HQ, luz e trevas possuem utilidades e valores significativamente diferenciados. E também na percepção política do mundo e da maneira como os heróis devem ser e estar neste mundo.
Triunfando sobre o Caos?
Para quem estava na aposentadoria, ou, no caso, largando-a, o retorno de Batman se torna a grande sensação política doméstica em meio a uma crise internacional entre Estados Unidos e União Soviética. Batman é um verdadeiro “pistoleiro solitário”, um agente do caos a serviço da ordem num mundo babacamente correto. Sua presença se torna alvo de desejo e de repulsa. É claro que politicamente o Batman bate de frente com a estrutura política-judicial não apenas de Gotham, mas dos próprios Estados Unidos. Embora seja um combatente do crime, ainda assim é um criminoso aos “olhos cegos da Justiça” e é com isto que Frank Miller “brinca” o tempo todo. Como deve atuar o Estado no combate aos criminosos? Tendo um “braço também criminoso” para combater este crime? É uma contradição em termos, ou ao menos seria. E o que Batman pensa de tudo isto? Ele não se importa, ou ao menos não tem tempo para se importar.
Ao contrário do Superman. Para o Último Filho de Krypton a volta de Batman significa perigo num mundo de frágil equilíbrio. Num verdadeiro “monólogo surreal” com o Presidente, Superman escuta do mesmo: 

Num rancho não há problema nenhum que os cavalos tenham tamanho e cor diferentes! Nenhum contanto que eles fiquem dentro da cerca! A gente pode até ter um garanhão meio louco de quando em vez! Dobrar o bicho ajuda a treinar a mão, mas se esse animal dá coice, salta a cerca e ouriça os outros cavalos…bem, isso não é nada bom!

E definitivamente o que Batman fazia era “ouriçar os outros cavalos”, ou seja, não apenas outros heróis, mas todo cidadão comum. E isso em Estados Totalitários ou no caminho disto é inadmissível. Superman entende o recado. O “modelo Batman” é um modelo de afronta ao modelo falido adotado por Superman para manter, supostamente, a estabilidade daquele mundo em ruínas. 
Superman até tenta convencer Batman de que aquele caminho que seguia os levaria a um confronto. Batman não se importa. A cidade de Gotham estava imunda demais e muito trabalho havia a ser realizado para uma devida faxina. Os adversários seriam muitos, sejam novos (como o Líder da gangue mutante) ou velhos (como o Coringa e Duas Caras). A tênue ligação de Batman com o Poder Público, através do Comissário Gordon deixa de existir através da aposentadoria forçada deste. O isolamento seria algo ruim para os planos do Morcego? Não. A “guerra santa” que travaria acabaria por fazer Batman enfrentar, hora menos hora, o rogue state (na linguagem dos internacioanalistas, Estado falido). 
E num ritmo frenético, Frank Miller nos leva a esse enfrentamento. Quando se partem as instituições, outras tomam forma e “assumem” o antigo posto das broken institutions. O papel que a mídia desempenha na HQ é quase onipresente. É ela que apresenta o desenrolar do caos através de noticiários fantasiosos e sensacionalistas. Para se enxergar além do verdadeiro “véu de Maya” que impera, o cidadão médio precisa ver e presenciar a realidade e não apenas figurar nela.
Batman convida a todos para isto num dos momentos mais apoteóticos das HQ, quando conclama a todos e todas a participarem da organização da cidade num momento de blecaute que “prenuncia o fim do mundo”.
Literalmente assumindo as rédeas do caos urbano em Gotham
Mas é com Superman que se encontra a antítese, como já havia dito, de toda a série. E Batman sabe disso, bem como o Homem de Aço. O caminho de confronto é inevitável. Se Batman consegue inspirar outros a descobrir um caminho próprio sem as amarras que prendem, de verdade, as pessoas ao modelo de Estado falido que existe, Batman passa a ser o maior risco ao Poder Político existente, um perigo muito maior do que a crise e guerra com a União Soviética. 
O confronto inevitável entre essas “duas forças da natureza” é apoteótico e marcou minha vida. Quantas e quantas vezes li e reli essas história e não me espantei com a qualidade do texto de Frank Miller. A transformação do Batman num líder de multidões é espetacular. E ver o desenvolvimento do personagem, neste sentido, é muito bom. Batman representa a Anarquia, mas não o caos, mas não a clássica “anarquia”, mas um modelo hard de anarquia, controlador e autoritário, necessariamente autoritário, como ressoa a frase do velho Morcego: 

Esta Noite, Nós Somos a Lei! EU SOU A LEI!

É o que faltava para que o Estado mascaradamente autoritário do Presidente (nunca nomeado) Reagan necessitava para declarar uma guerra contra Batman. E numa guerra contra o Batman, a melhor arma seria o Superman.
Diz o Batman ao Superman: “Já passou da hora de você se tornar um homem”
O confronto final entre a anarquia do Batman com o Estado autoritário e falido representado pelo Superman é, talvez, o melhor confronto na história das HQ. É um confronto não apenas físico, mas também ideológico. O resultado é a aparente vitória desse Estado autoritário e falido, mas é uma vitória aparente, orquestrada pelo Batman (com a ajuda da Robin e do Arqueiro Verde, hilário por sinal). O velho Morcego reconhece que deve agir nas sombras, mas acima de tudo agir. E Superman é convencido disto. Frank Miller apresenta um desfecho digno de toda a história. Batman – O Cavaleiro das Trevas, como disse no início do post, está ao lado de V de Vingança como a melhor HQ de todos os tempos em minha opinião. Uma coisa em comum entre ambas é que seus protagonistas representam a Anarquia, embora “anarquias” distintas. De qualquer forma, ver essa “correlação” entre as duas obras é um exercício de imaginação bacana tomando uma cerveja preta (como gosto de fazer).
Lamentavelmente, para minha grande frustração, Frank Miller retornou a esse universo de Batman – O Cavaleiro das Trevas. E fez uma obra lamentável que prefiro nem comentar. Basta, ao leitor que não conhece, que o velho Frank deveria estar puto ou muito chapado (no péssimo sentido) para escrever e desenhar aquele trombolho que prefiro nem nomear para não dar azar.
Mas Batman – O Cavaleiro das Trevas está para sempre na vida de todo bom nerd. Sua significação é grande e sua leitura e releitura é “obrigação” para todo e toda apreciadora de HQ.