Findadas as eleições presidenciais e legislativas em âmbito federal (e também em nível estadual), pululam na internet artigos e editoriais comentando qual deve ser o papel da Oposição ao Governo Dilma. E como deve se dar essa oposição. Mas, neste momento, quero me ater ao “recado eleitoral” (ou recados, talvez seja melhor) dado, nas urnas, aos partidos de Oposição que, em minha opinião, vem sendo um recado eleitoral aos surdos. Uma saída, já apontada pelo Senador eleito por Minas Gerais pelo PSDB, Aécio Neves, é a refundação do maior partido político de Oposição, o PSDB. De certa forma, essa ideia de refundação deriva da percepção de Aécio de que o “recado eleitoral” ao PSDB é refundar-se políticamente no Brasil e não apenas em São Paulo. Ou seja, de maneira, metaforica, incorporar outros centros políticos nacionais associados às avenidas Guararapes (Recife), Bento Gonçalves (Porto Alegre) ou Goiás (Goiânia) e não apenas a avenida Paulista, fundamentando, na percepção do eleitorado, que o PSDB é um partido de São Paulo e entende apenas de São Paulo e não do Brasil. Mas tem sentido essa idéia se o núcleo duro do PSDB acredita que, mesmo sob as derrotas de 2006 e 2010, deve manter o mesmo prumo político?

Talvez a maior falácia das eleições presidenciais de 2010 foi a divisão do Brasil entre “regiões ricas a favor de Serra e regiões pobres a favor de Dilma”. Tão enganosa essa divisão que ela pode ser facilmente desmascarada se observarmos o mapa eleitoral do país neste cenário eleitoral. Na figura acima posicionada, a distribuição de votos, sob os municípios brasileiros de todas as regiões do país, mostra que o Brasil saiu destas eleições livres e competitivas (os parâmetros poliárquicos) como entrou: um país eleitoralmente diversificado em suas preferências, algo fundamental do ponto de vista da qualidade democrática.
Mas, então, existiu algum recado eleitoral nas eleições presidenciais de 2010?
Eu acredito que sim. Um recado para o Poder Executivo e um recado para o Poder Legislativo e não foram o mesmo recado, definitivamente. Vamos começar pelo “recado eleitoral” ao Poder Legislativo.
Congresso Nacional: “menos mais do mesmo?”
Duas questões pessoais nortearam o papel do Presidente Lula nas eleições 2010. A primeira foi a necessidade do bloco governista aumentar numericamente no Congresso Nacional, especialmente no Senado, Casa Legislativa que o Governo Lula sofreu alguns entraves e sua pior derrota política nos oito anos de governo: o fim da CPMF. Findar o “imposto da Saúde” não desceu na garganta do Presidente Lula até hoje e sua “vingança política” seria fazer com que, eleitoralmente, seus principais desafetos políticos, os senadores Mão Santa (PSC-PI), Arthur Virgílio (PSDB-AM), Marco Maciel (DEM-PE), Heráclito Fortes (DEM-PI), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Demóstenes Torres (DEM-GO) e Agripino Maia (DEM-RN) perdessem as eleições. Sua “taxa de sucesso” foi altissima. Destes senadores, apenas os dois últimos conseguiram se reeleger.
Dados Comparativos das eleições para o Senado em 2006/2010
O Governo Dilma, graças em parte a Lula, conseguiu uma base parlamentar muito favorável ao padrão de governabilidade favorável ao Poder Executivo. Ainda que lideranças políticas da Oposição tenham sido eleitas (Aécio Neves, Itamar Franco, Demóstenes Torres, etc), sua margem de manobra política ficará muito mais reduzida. Quadro do Senado que não difere da Câmara dos Deputados. Se houve essa ampliação de base parlamentar ao Governo (percebendo a eleição de Dilma Rousseff como uma continuidade desse governo e de suas políticas) que recado eleitoral houve nas urnas à Oposição?
Se houve algum recado eleitoral direto ao quadro político de Oposição foi: fiscalizar sim, mas não entravar o Poder Executivo.
E Aécio Neves percebeu isso. E repetiu a quem quisesse ouvir: “precisamos de uma Oposição responsável”. Muito hábil politicamente, Aécio Neves joga com habilidade. Percebeu que a Oposição no Congresso foi uma Oposição pouquíssimo propositiva e propensa a promover entraves às políticas (muitas das quais sociais) do Governo. E quando afirmou a necessidade de “refundação” do PSDB, Aécio provavelmente olhou para a necessidade de reordenar alianças e bandeiras de seu partido. E expandir o PSDB ao Brasil. O que, em minha opinião, foi o “recado” ao plano do PSDB em retomar democraticamente o governo federal.
Ser ou como voltar a Ser Governo: um dilema de prisioneiro ao PSDB?
O PSDB vive, em minha opinião, uma série crise de identidade neste atual momento político de sua trajetória. Diz que não renega o governo FHC, mas procura se esquivar, a todo custo, desse governo. Aponta lideranças para concorrer ao cargo de Presidente que mal sabem que a capital do Piauí não é São Luís e sim Teresina e teima em não aprender em se renovar e ser mais propositiva.
Entretanto, o PSDB vive um verdadeiro dilema do prisioneiro. Prisioneiro em torno de sua fundação alheia a aderência popular e pouco ou nada voltada à construção dessa base popular. Ser um partido de classe média, como é visualizado, não é problema algum, mas ser um partido social democrata no nome e não no comportamento já vem cobrando seu preço ao partido. E uma elitização decisória concentrada em São Paulo também cobrou seu preço eleitoral. Mas aí neste ponto, acredito, vem um claro recado eleitoral das eleições 2010: o PSDB precisa ampliar seu comando decisório e oxigenar sua liderança.
A eleição e força política de Aécio Neves em Minas Gerais é notória. E Beto Richa no Paraná também, para ficar apenas em dois casos.
Neste sentido, duas situações políticas podem ser entendidas como recados eleitorais: oxigenação política ao PSDB, principal partido de oposição ao Governo Dilma (que venha a sustentar sua trajetória como um todo) e renovação do capital político com uma oposição moderada, propositiva e fiscalizadora. Só assim é possível que politicamente as duas derrotas eleitorais à Presidência (três, se contarmos 2002) sejam dispostas como aprendizado político ao partido. Por que caso não seja, outras derrotas virão e novas lideranças políticas, como Aécio Neves e Beto Richa, procurarão alçar võos em outros ares políticos.