Excelente capa da Revista Isto É!
Não nego que tenho forte simpatia pela centro-esquerda brasileira, constituída pelo Partido dos Trabalhadores (PT), pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). São partidos constituídos por homens e mulheres sérios, mas também constituídos por pessoas com baixo valor público, situação de qualquer partido político mundo a fora. Mas mais do que por partidos, pelo modelo de gestão que concilie desenvolvimento econômico com desenvolvimento social e, também importantíssimo, pelo positivo desempenho ambiental (na verdade, o tripé do desenvolvimento sustentável). E ainda que simpatize pelos partidos de centro-esquerda já enumerados, também tenho simpatias por conquistas que o PSDB, partido que considero de centro, outorgou ao Brasil, como a consolidação da estabilidade econômica no Brasil, fator que retirou da pobreza milhões de brasileiros e que possibilitou ao governo Lula ampliar e desenvolver esse modelo de desenvolvimento econômico de forma a agregar positivamente o desenvolvimento social como fator de estímulo econômico.
Este post no Poliarquias diz respeito, justamente, ao papel que o PSDB representa no Brasil agora, neste cenário pós eleição de Dilma Rousseff ao cargo de Presidente do Brasil. E mais ainda: diz respeito ao papel que desempenhará politicamente um ex-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), exilado político na época da nefasta ditadura militar (que não tinha nada de ditabranda) e membro de um partido que, em seu nome, representa a social democracia brasileira: José Serra. 
E agora, José?

Ao percorrer os diversos periódicos nacionais (desde o Estadão, passando pela Carta Capital e pela Folha) que trataram analiticamente do resultado da eleição presidencial, percebi um denominador comum na análise da derrota de José Serra, candidato do PSDB, nas urnas “Brasil afora”: seu centralismo decisório e sua incapacidade política de dialogar com as forças políticas regionais que pertenciam a sua coligação. Claro, não foram apenas estes fatores. Serra teve de enfrentar nesta eleição a massacrante popularidade do Presidente Lula (no auge de seus 83% de aprovação) e a capacidade de transferência de votos a sua candidata Dilma Rousseff do PT. Tudo bem, obviamente seria uma luta feroz por se mostrar um candidato acima das diferenças entre o modelo de gestão do PSDB e do PT. E reside aí o maior problema, em minha opinião, que travou o desenvolvimento da campanha de José Serra: sua incapacidade de mostrar ao eleitor que estaria acima dessa divisão artificial entre PSDB e PT. E essa incapacidade deriva de seu centralismo decisório (algo péssimo no jogo político e também eleitoral) e na sua incapacidade de dialogar com membros de seu próprio partido e de aliados.
Mas como “vender o peixe” de que continuaria, ao menos, as políticas sociais do governo Lula? Acho que parra responder essa questão Serra teria de retroceder no tempo. Na verdade, na construção de uma oposição mais propositiva e politicamente mais hábil em divulgar seus méritos (e eles existiam), coisa que o PSDB, através da sua seção paulista, tão porcamente deixou de fazer. E como candidato dessa oposição, Serra teria de optar em articular as forças políticas de oposição, não desagregá-las, como fez em relação a desconstruir a candidatura de Aécio Neves, então governador de Minas Gerais na época das inexistentes primárias. A ausência delas, em minha opinião, reforçou o isolamento do PSDB paulista e também reforçou um autismo político em agregar positivamente uma verdadeira agenda política para o Brasil pós Lula.
Isso ocorreu? Não.
Vale a pena para o PSDB manter essa aliança com o DEM?
E o preço está sendo pago agora. Enquanto as forças políticas em torno da candidatura de Dilma Rousseff agregavam além de partidos de centro esquerda, também partidos de centro e os elevava a Vice-Presidência, caso do PMDB. Enquanto o PT estruturava estrategicamente uma aliança nacional, o PSDB permitia-se uma luta intestina e se aliava e elevava estratégicamente a sua Vice-Presidência um partido que decresce politicamente no Brasil: o DEM. Serra perdeu até nessa escolha de vice, quando deixou para última hora essa escolha e mesmo assim ainda permitiu trocar o Senador Álvaro Dias (PSDB-PR) pelo desconhecido e “picolé de chuchu” deputado federal Índio da Costa (DEM-RJ). Associar-se a um partido, percebido como extremamente elitista e anti-políticas sociais foi mais um fator negativo para a candidatura Serra do PSDB. Dilma Rousseff fez questão de explorar isto nos debates televisivos, quando indagava a Serra se ele, como Presidente, continuaria o PRO-UNI, programa de bolsas a estudantes universitários de baixa renda em faculdades e universidades privadas. No caso, o DEM entrou com uma ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade) no STF. Pensem: como Serra poderia “vender o peixe”de que continuaria as políticas e programas sociais se o partido de seu vice chegou ao ponto de uma ação dessa envergadura contra um programa de educação?
Todo esse quadro me faz pensar no quale a pena para o PSDB hoje. Continuar com essa aliança estrita em torno de alianças mais conservadoras e uma oposição menos propositiva e mais raivosa ou enveredar por uma oposição com propostas de centro-esquerda e mais propositiva e estratégica. Se José Serra encabeçar, como líder da Oposição ao governo Dilma, acredito pouco provável essa última alternativa. Serra parece ter esquecido sua própria história e pior: não aparenta ter aprendido nada com duas derrotas para Presidência. Aécio Neves pode mudar essa configuração política e trazer o “jeito mineiro”de fazer política ao âmbito nacional e assim oxigenar o PSDB. Diálogo direto com o PSB, por exemplo, Aécio Neves tem. Como aproveitar isso de forma política e eleitoral? Uma saída é dispersar o poder decisório dentro do PSDB, que hoje se concentra fortemente em São Paulo.
E o papel de José Serra?
Por enquanto deveria ser tirar umas boas férias numa praia. E repensar seu modelo de política porque estamos sempre aprendendo, de uma forma ou de outra, seja com vitórias, seja com derrotas.