Robert Dahl não nega que haja dificuldade em arregimentar as múltiplasvariáveis teóricas que formaram a teoria democrática. Tanto não nega que reconhece que existem várias teorias democráticas, mas também reconhecendo um elemento de insatisfação que cerca tais teorias, tanto em nível normativo quanto procedimental. Dahl afirmará que não se propõe a “definir rigorosamente o termo democracia” (p. 11). Mas apontará sua reflexão dentro de um contexto que toma a teoria democrática dentro da prerrogativa de que essa teoria versa sobre processos nos quais os indivíduos exercem um grau que chamará de relativamente alto sobre seus líderes.
Entretanto, mesmo reconhecendo essa variedade teórica que contempla o estudo da democracia, Dahl procura, logo de início em Um Prefácio à Teoria Democrática, esclarecer que irá reduzir esse escopo de análise. Reduzir para não espalhar sua reflexão em múltiplos recantos dos modelos representativos que se ajustaram ao longo dos últimos séculos da história dos países ocidentais.


O trânsito teórico ao qual se propõe fazer inicia dentro do pensamento político madisoniano, sumamente importante para o entendimento do pensamento democrático nos Estados Unidos, embora, tomando corretamente como um pensamento “republicano” mais próximo daquilo que poderíamos denominar como modelo democrático de representação.
A preocupação essencial apontada por Dahl, que cerca a teoria madisoniana se contextualiza dentro de um “esforço para se chegar a uma acomodação entre o poder das maiorias e o das minorias” (p. 13).
É claro que essa preocupação se insere no quadro de igualdade política de todos os cidadãos adultos e o limite que poderia e deveria ser outorgada a sua soberania por outro, não podendo esquecer que dentro do contexto histórico-político de Madison pensava-se a tirania procedendo-a tanto da maioria quanto da minoria.
Dahl, que reconhece o valor do pensamento madisoniano para o entendimento do sistema democrático estadunidense, aponta alguns aspectos elementares da teoria democrática de Madison (os freios constitucionais, por exemplo) e duas hipóteses por Dahl levantadas podem mui bem esclarecer melhor o grau de importância para as instituições políticas democráticas. Primeiramente, é o reconhecimento de que a ausência de controles externos (tanto em nível individual quanto coletivo) produzirá tirania aos demais. O segundo aspecto versa sobre a acumulação de todos os poderes (ver legislativo, executivo e judiciário) nas mãos de uma mesma pessoa ou grupo implicará na eliminação de controles externos, gerando um desdobramento tirânico (e Dahl concebe essa tirania como toda uma privação de um “direito natural”).
Dahl transita sobre Condições, Definições e Hipóteses do pensamento madisoniano e contextualiza-as no momento histórico, mas “de imediato” fundamenta críticas e inconsistências desses mesmos pressupostos. Críticas versadas sobre conceitos como facções, tirania da maioria (conceito que dirá ser nada operacional) ou mesmo a relação entre unanimidade e facção. Dahl, entretanto, exercita as hipóteses de Madison e reflete-as em condições elencadas como possíveis. Exemplo pode ser admoestado pela hipótese do desenvolvimento de uma facção de maioria ser contida por uma variável no qual o eleitorado numeroso é diversificado, bem como seus interesses.
É interessante observar que Dahl, no capítulo subseqüente que tratará da Democracia Populista, procura concatenar conjuntos teóricos clássicos com os princípios madisonianos de democracia, melhor, de “republicanismo”. É claro que muitas das visões clássicas sobre a democracia e, principalmente, sobre o papel da maioria choca-se diretamente com as prerrogativas madisonianas, mesmo que exista a necessidade de freios também à maioria em outros clássicos, como o próprio Dahl reconhece. Para isso basta ler trechos separados por Dahl de discursos ou escritos de Lincoln, Tocqueville ou Rousseau (p. 42).
É interessante observar que Dahl elenca quatro definições sobre a questão da soberania popular e o princípio da maioria (p. 44) e, particularmente, chama-nos a atenção como ele as relaciona com uma situação específica da história dos Estados Unidos: a guerra da Secessão. Ele levanta essa questão trazendo um impasse acerca de preferências e alternativas e se as preferências são ardorosamente defendidas existe
possibilidade de violência e guerra civil, o que ocorreu nos Estados Unidos no tocante a questão da escravidão de seres humanos de origem africana.
Ainda sobre a questão da história do pensamento democrático, Dahl afirmará que: 
Todos os defensores da democracia cuja existência conheço e todas as definições generosas dela feita incluem a idéia de restrições às maiorias. Um ponto fundamental, porém, é se essas restrições são ou devem ser: 1) fundamentalmente restrições internalizadas no sistema de comportamento individual, tal como a consciência e outros produtos da doutrinação social; 2) fundamentalmente controles constitucionais (p.43).
Retomo essa questão das restrições à maioria por vê-la como fundamental na reflexão de Dahl na presente obra resenhada, já que o mesmo apresenta a democracia populista em meio a críticas ao fato da mesma não
aplicar corretamente o valor da intensidade das preferências (e também de não ser empírica e consistente muito mais com postulados lógicos de ordem ética) e “ela postula apenas duas metas a serem valorizadas – a igualdade política e a soberania popular” (p. 53).
Como Dahl reconhece que os métodos da democracia madisoniana e populista não necessariamente se excluem, ele procurará, no terceiro capítulo versado sobre a Democracia Poliárquica, discorrer sobre conceitos anteriormente apontados (como democracia maximizadora) e como operam os mesmos postulados das democracias madisoniana e populista (alternativa de preferência e regra de maioria).
Dahl, então, trará oito condições poliárquicas (algo que trabalhará de forma mais ajustada em sua obra Poliarquia), condições perfeitamente compreendidas como regras ou mesmo normas (ancoradas sobre a hipótese do consenso, embora Dahl reconheça essa problemática múltipla que cerca o consenso) para alocar os ajustes e detalhes que tangenciam sua reflexão das duas outras democracias (madisoniana e populista), algumas dessas condições mais visíveis, outras nem tanto (p. 76).
E um dos pontos que consideramos mais interessantes na reflexão de Dahl na presente obra que resenhamos é sobre a condição da poliarquia ser ajustada à diversidade social. Dahl afirmará que:
“Certamente é verdade que a diversidade de opiniões constitui um fato da sociedade humana. Em nenhuma sociedade conhecida todos os membros concordam sobre todas as políticas durante todo o tempo, e isto torna necessário que todas as organizações socais possuam algum meio, por mais primitivo que seja, de solucionar conflitos sobre metas. (…) Mas todas essas proposições são inteiramente diferentes da asserção de que diversidade de opinião, ou conflito sobre metas, constitui uma condição necessária à poliarquia.” (p. 79)
Definitivamente, essa relação não é simples, assevera Dahl. E ele apresenta dois pontos para um melhor entendimento sobre essa relação (diversidade e democracia). O primeiro versa sobre o continuum sobre acordos e desacordos sobre metas; o segundo trataria de um continuum de autonomia ao controle. Dahl encerra o capítulo sobre a Democracia Poliárquica reconhecendo a necessidade de um melhor arranjo entre a teoria e os dados dispostos e reconhece também que a poliarquia, enquanto teoria, ainda necessita de
melhores e mais proveitosos ajustes para a construção de uma teoria um tanto quanto mais satisfatória acerca da igualdade política (e suas implicações), tema que transpassou a obra resenhada em questão.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
DAHL, Robert. (1989). Um Prefácio à Teoria Democrática. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.