Estou lendo atentamente mais uma obra de Robert Dahl: “La Democracia y sus críticos”. É uma obra diferenciada. Sou fã de carteirinha de Dahl por sua obra “Poliarquia” que considero, sem a menor dúvida, “o divisor de águas” da Ciência Política contemporânea, antes pouco distinguida da Filosofia Política. De qualquer forma, Dahl, em “La Democracia y sus críticos” procurou dar um panorama não apenas usual da disposição explicativa do jogo democrático enquanto regime. Ele focou atenção na historicidade desse jogo e mais: em certa parte do livro, procurou debater a democracia com suas “adversárias”. Como assim, “adversárias”? E quais “adversárias”? A anarquia e a tutelagem. E para tanto ele utiliza do debate imaginário entre “a democracia”e os dois outros modelos políticos, anarquia e tutelagem e, no caso desta última, focarei atenção.
group of people doing rally
Foto por Rosemary Ketchum em Pexels.com
Dahl quando situa a democracia, faz uma consideração muito pertinente. Ela, enquanto regime político, passou por duas transformações (embora ele aponte a possibilidade da terceira). Da democracia mais clássica e medieval e da moderna. De certa forma, quando se olha o que foi a democracia antiga (restrita às cidades-Estado) e a moderna (num cenário de Estados nacionais) e mais ainda, quando um modelo de democracia “olha” o outro, é impossível que reconheçam um ao outro como “democracia”, seja pelo primeiro não reconhecer a denominada cidadania a mulheres e estrangeiros e permitir a naturalização da escravidão de outros seres humanos impedindo o princípio da igualdade ou, quanto ao segundo, o acentuado distanciamento existente entre aqueles que tomam as decisões e o cidadão comum num modelo de Estado que incorpora vasto território e amplas cidades. Essas diferenças de democracias refletem, também, a maneira de se pensar a organização política da sociedade.
E neste ponto, a diferença entre democracia e tutelagem fica nítida. Primeiramente, na composição do livro de Dahl, a democracia “que debate” com a tutelagem é uma democracia moderna, livre das segregações clássicas. Talvez seja mais claro a leitora e ao leitor os pressupostos básicos da democracia (liberdade de expressão, liberdade de organização política, direito de se candidatar e de ser votado, etc). Mas e a tutelagem? 
No caso, a tutelagem pressupõe a verticalização “natural” existente na sociedade. Seus pressupostos mais clássicos podem ser encontrados tanto na China (com Confúcio, leiam Os Analectos) ou na Grécia, com Platão. Um pressuposto básico é de que o melhor regime político é aquele que seleciona os melhores dentre a sociedade. Para Platão, O Rei-Filósofo (algo que ficou mais na teoria que na prática histórica existente) e para Confúcio, o Imperador e seus colaboradores diretos (historicamente denominados Mandarins). 
Para a tutelagem, as pessoas comuns são como crianças e uma criança não tem a condição e muito menos a capacidade para governar. Essa premissa reflete na forma como seriam desenhados não apenas os mecanismos políticos, mas também na criação de instituições políticas. E a crítica democrática a tutelagem reside na acentuação da verticalização social ancorada num pressuposto que nem aderência à realidade é provada. Para a tutelagem, o exemplo da República de Veneza é salutar, mas salutar na medida em que é dimensionada no seu próprio contexto histórico. A crítica democrática à tutelagem repousa, também, na forma como a última não outorga condições claras de desenvolvimento político, já que uma pequena porção de sua população recebe o benefício e a “responsabilidade” para governar.
Mas a pergunta democrática a tutelagem é: quem escolhe?
Reside na ausência dessa resposta clara e objetiva o maior “calcanhar de aquiles” da tutelagem. Embora imperfeita (como todo regime político), a democracia moderna permite a toda cidadã e todo cidadão a possibilidade de poder participar politicamente no processo político. 
A premissa de que “ser governado pelos melhores” resulte em melhores governos é, permitam-me o trocadilho, incorrer na dúvida tostines: vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?
Acho que os pressupostos da tutelagem falham justamente porque suas argumentações repousam mais em especulação e, pior, mais ainda em desagregação social, num engessamento sociopolítico baseado em misteriosas orientações de se “buscar e educar os melhores da sociedade” para governar a maioria. Acredito que nem na China, de forte herança confunciana em seu modelo político e também marxiano, exista a possibilidade de uma cristalização de grupos no poder dentro do Partido Comunista Chinês. E, embora não seja democracia, existe a alternância de poder entre os grupos no Partido e, consequentemente, no Estado.
 O livro “La Democracia y sus críticos” é excelente. Deveria ser livro de cabeceira de todo candidato e candidata, desde aos cargos de vereador até a Presidência.