Estou lendo atentamente mais uma obra de Robert Dahl: “La Democracia y sus críticos”. É uma obra diferenciada. Sou fã de carteirinha de Dahl por sua obra “Poliarquias” que considero, sem a menor dúvida, “o divisor de águas” da Ciência Política contemporânea, antes pouco distinguida da Filosofia Política. De qualquer forma, Dahl, em “La Democracia y sus críticos” procurou dar um panorama não apenas usual da disposição explicativa do jogo democrático enquanto regime. Ele focou atenção na historicidade desse jogo e mais: em certa parte do livro, procurou debater a democracia com suas “adversárias”. Como assim, “adversárias”? E quais “adversárias”? A anarquia e a tutelagem. E para tanto ele utiliza do debate imaginário entre “a democracia”e os dois outros modelos políticos, anarquia e tutelagem e, no caso desta última, focarei atenção.




Dahl quando situa a democracia, faz uma consideração muito pertinente. Ela, enquanto regime político, passou por duas transformações (embora ele aponte a possibilidade da terceira). Da democracia mais clássica e medieval e da moderna. De certa forma, quando se olha o que foi a democracia antiga (restrita às cidades-Estado) e a moderna (num cenário de Estados nacionais) e mais ainda, quando um modelo de democracia “olha” o outro, é impossível que reconheçam um ao outro como “democracia”, seja pelo primeiro não reconhecer a denominada cidadania a mulheres e estrangeiros e permitir a naturalização da escravidão de outros seres humanos impedindo o princípio da igualdade ou, quanto ao segundo, o acentuado distanciamento existente entre aqueles que tomam as decisões e o cidadão comum num modelo de Estado que incorpora vasto território e amplas cidades. Essas diferenças de democracias refletem, também, a maneira de se pensar a organização política da sociedade.
E neste ponto, a diferença entre democracia e tutelagem fica nítida. Primeiramente, na composição do livro de Dahl, a democracia “que debate” com a tutelagem é uma democracia modern, livre das segregações clássicas. Talvez seja mais claro a leitora e ao leitor os pressupostos básicos da democracia (liberdade de expressão, liberdade de organização política, direito de se candidatar e de ser votado, etc). Mas e a tutelagem? 
No caso, a tutelagem pressupõe a verticalização “natural” existente na sociedade. Seus pressupostos mais clássicos podem ser encontrados tanto na China (com Confúcio, leiam Os Analectos) ou na Grécia, com Platão. Um pressuposto básico é de que o melhor regime político é aquele que seleciona os melhores dentre a sociedade. Para Platão, O Rei-Filósofo (algo que ficou mais na teoria que na prática histórica existente) e para Confúcio, o Imperador e seus colaboradores diretos (historicamente denominados Mandarins). 
Para a tutelagem, as pessoas comuns são como crianças e uma criança não tem a condição e muito menos a capacidade para governar. Essa premissa reflete na forma como seriam desenhados não apenas os mecanismos políticos, mas também na criação de instituições políticas. E a crítica democrática a tutelagem reside na acentuação da verticalização social ancorada num pressuposto que nem aderência à realidade é provada. Para a tutelagem, o exemplo da República de Veneza é salutar, mas salutar na medida em que é dimensionada no seu próprio contexto histórico. A crítica democrática à tutelagem repousa, também, na forma como a última não outorga condições claras de desenvolvimento político, já que uma pequena porção de sua população recebe o benefício e a “responsabilidade” para governar. Mas a pergunta democrática a tutelagem é: quem escolhe?
Reside na ausência dessa resposta clara e objetiva o maior “calcanhar de aquiles” da tutelagem. Embora imperfeita (como todo regime político), a democracia moderna permite a toda cidadã e todo cidadão a possibilidade de poder participar políticamente no processo político. 
A premissa de que “ser governado pelos melhores” resulte em melhores governos é, permitam-me o trocadilho, incorrer na dúvida tostines: vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?
Acho que os pressupostos da tutelagem falham justamente porque suas argumentações repousam mais em especulação e, pior, mais ainda em desagregação social, num engessamento sócio-político baseado em misteriosas orientações de se “buscar e educar os melhores da sociedade” par governar a maioria. Acredito que nem na China, de forte herança confunciana em seu modelo político e também marxiano, exista a possibilidade de uma cristalização de grupos no poder dentro do Partido Comunista Chinês. E, embora não seja democracia, existe a alternância de poder entre os grupos no Partido e, consequentemente, no Estado.
 O livro “La Democracia y sus críticos” é excelente. Deveria ser livro de cabeceira de todo candidato e candidata, desde aos cargos de vereador até a Presidência.