Quem conhece minimamente História (com agá em maiúsculo mesmo) sabe que religião próxima demais da política resulta em perdas de direitos civis. Quem discorda dessa premissa basta lutar intelectualmente contra uma série de livros que abordam os efeitos perversos dessa correlação ao longo da história, seja para “justificar” atrocidades ou para retratar historicamente essa terrível convergência. Poderia citar, para efeito de comparação, “O Martelo das Feiticeiras” (, no primeiro quesito de “justificativa” enquanto manual para bons e humanitários cristãos inquisidores avessos a bruxaria e propensos a torturas e outros fins para “salvação” das almas) ou então o excelente livro de Jean Delumeau, Historia do medo no ocidente: 1300-1800, que registra primorosamente o contexto de fim da dita “idade média” e inicio do período de revolução industrial e os crescentes medos sociais estimulados, muitas ou na maior parte das vezes, pelas instituições religiosas cristãs (claro, estamos discutindo o caso europeu-americano ocidental).


E nesse ponto é importante frisar: misturar na política artimanhas religiosas calcadas em moralismo barato é convidar à destruição, lenta pode ser em alguns casos, mas destruição, de décadas, séculos de conquistas civis de um Estado laico, acima dos pressupostos morais religiosos (e vejam bem, estou partindo do pressuposto que a ética e a moral são distintas sim, ainda mais neste caso que vislumbra o pesadelo de políticas públicas pautadas pelos interesses de uma minoria religiosa e com tendência fortissima ao fundamentalismo no Brasil). Nestas horas que me lembro que a Igreja Católica (observem as Encíclicas Papais dos séculos XV e XVI), bem como os calvinistas (ligados a Igreja Presbiteriana) eram favoráveis a escravidão de populações africanas devido as mesmas não possuírem “alma”. E ae, é de se espantar, não? Para ficar mais dois exemplos: (1) o direito político de votar e se candidatar que as mulheres tão arduamente conseguiram (depois de muita, mas muita contrariedade de setores conservadores e, pasmem, religiosos de sociedades como a brasileira, estadunidense, etc) ou então (2) o direito de homossexuais se casarem (tema que até hoje gera debates acalorados e muita, mas muita desavença e, incrivelmente, no Brasil é jogado para escanteio quando não execrado por parlamentares ligados a bancadas religiosas).
O que ocorreu na última eleiçao para Presidência no Brasil (e reflete e cobra o amargo preço até hoje) é a tentativa séria, sim, séria, de desestabilizar o Estado laico construído com muito esforço ao longo de séculos. Um dos temas é caro: o aborto. Debater o aborto pelos princípios pessoais é uma coisa, agora incorrer na moralização barata do tema é outra coisa. É mais ou menos como disse Ernesto Sabato no “Relatório sobre os cegos”: “E o poder do mal é tão grande e tortuoso que o utilizam até para  recomendar o bem: se não fizermos isto e aquilo, nos ameaçam com o inferno”. A questão de verdade que os moralistas baratos com pretenso “moralismo cristão” (e Jesus, coitado, deve se revirar no túmulo nestas horas) não querem enxergar é a do aborto enquanto problema de saúde pública. Preferem viver sob a sombra da hipocrisia (sepulcros caiados, já diria o mesmo Jesus) do que encarar a realidade cinzenta de milhares de mulheres pobres que precisam se submeter a procedimentos açougueiros porque não tem amparo do Estado brasileiro (ou um amparo muito restrito e mesmo assim querem tirar).
O que a ala conservadora e perigosa da aliança PSDB-DEM quis (e a bancada evangélica/católica suprapartidária), ao que indicou e indica a forma inflamada e pouco racional do debate sobre aborto ou união homoafetiva, é instituir no Brasil a perda de ganhos dos direitos civis e também impedir a ampliação destes direitos civis. E uma vez aberta essa porta, não é fácil fecha-la.
O debate sobre aborto e também sobre o direito civis dos homossexuais (que trabalham e pagam impostos igualmente aos heterossexuais) tem de ser pautado pela racionalidade laica dos parlamentares e não pela miséria intelectual dos pretensos moralistas. Como disse anteriormente, a abertura dessa porta pode introduzir comportamentos nocivos no Brasil, como alguns existentes nos Estados Unidos. Ou mesmo no Irã, como retomarmos algumas leis que reduziam e legitimavam o papel subalterno da mulher em comparação ao homem (lembram do papo de “legitima honra”). No caso mais grave, perder garantias conquistadas pela Lei Maria da Penha, lei que inclusive desagrada e muito setores conservadores da Igreja Católica e das Igrejas Protestantes Evangélicas.
Fugir desse cenário é dever de cada um que queira viver num país onde não é a religião (na verdade, aspectos da religião que condiz aos interesses de alguns) que regula as relações sociais e sim a política, ancorada pelo debate e troca de ideias sem a perda de direitos civis conquistados, como já disse, com muito esforço, sangue e suor.