Resposta ao diálogo inciado no facebook sobre o movimento “quem não vota na Dilma vai de azul no domingo”.
Eu concordo totalmente com quem defende que os tempos são outros. Esse é um dos motivos pelos quais eu acho que o uso do azul não se parecerá em nada com diretas já ou caras pintadas e me fez imaginar algo mais próximo de uma homenagem ao Rei Roberto Carlos. Mas, até aí é só mais um divergência (política, nesse caso) entre tantas outras sobre tantos assuntos que nós já tivemos, e como eu disse, as pessoas se manifestam do jeito e pelas questões que acharem necessárias e eu sinceramente não imaginei que o meu comentário fosse inflamar os ânimos. O que eu sinceramente acho ótimo porque levando em conta que estamos num país em que as pessoas tem medo de discussão, discutir sobre qualquer assunto que seja é sempre um ganho para todo mundo.

Sobre o discurso de oposição, infelizmente me parece um pouco complicado que a oposição não possa ter discurso de oposição porque com ele não é possível ser eleito. Se assim fosse, o Lula poderia ter mudado o discurso ou ter migrado para o PSDB em 1998 porque pós estabilização econômica advinda do sucesso do plano real não havia possibilidade de que ele fosse eleito. Bom, se nós temos eleições livres e competitivas e a oposição tem que abrandar ou omitir o discurso de oposição então acho que o problema é mais grave do que aparentemente se percebe.
E falou-se no facebook do bolsa família como se eu estivesse assumindo que oposição ao governo tivesse que adotar ou adotasse necessariamente uma postura anti bolsa família, e eu não estou (assim como o Serra não está). Alías, acho que se vai ser contra bolsa seremos então contra bolsa família, contra bolsa banco, contra bolsa Ipi e mais inúmeras outras que ninguém toca porque não é conveniente e sobre as quais ninguém vai mexer sendo oposição ou não.
Mas o meu ponto em relação a essa eleição (e por isso o comentário em relação ao protesto azul) é menos sobre o que esses candidatos serão ou não capazes de fazer pelos próximos quatros anos quando e se forem eleitos e mais sobre o que está além disso. Dado o sistema de governo, o sistema partidário e consequentemente as regras eleitorais que regem as disputas para o Executivo e para as duas casas congressuais eu acredito que Serra, Marina ou Dilma terão tempos difíceis e que existem normas do desenho institucional que constragem a atuação pessoal deles, qualquer um deles, embora eu também reconheça o poder de agenda que o Executivo tem no Brasil e a importância de tais disputas.
Eu entendo também a tragédia que é a junção de movimento sindical com movimento estudantil que deu origem ao PT paulista e que é, na visão de muitos, o PT que vai estar aí nos próximos 4 anos. Eu não só entendo, como eu não concordo e não defendo.
O que eu não entendo é essa cruzada que se travou e que se trava em torno da figura do Executivo e nesse caso, da Dilma e o esquecimento que se tem de todo o restante. Porque afinal, o Netinho de Paula no Senado, pode. O Aloysio Nunes, ex guerrilheiro como Senador, pode. Os irmãos KLB para a Câmara, pode. Agora a Dilma para presidente, aí não pode. O PSDB 16 anos no poder em São Paulo é democracia. O PT tentando se eleger pela terceira vez no âmbito federal aí é facção e anti democrático. E me parece o tempo todo nesse tipo de discurso que se esquece que não se está num sistema presidencialista “tradicional” e que o presidencialismo aqui, assim como em alguns lugares da América Latina, é de coalizão. No caso do atual governo ou mesmo do mandato anterior do presidente Lula, havia uma coalizão de apoio à base governista devido não somente aos membros do Congresso, mas também à força que o PT tinha nas esferas estadual e municipal (embora as eleições do próximo domingo não digam respeito a essa última). E quando esse apoio não esteve presente, comprou-se. Como comprou-se também na época FHC.
Com a eleição desse ano, por uma escassez de recursos que pudessem ser direcionados a todas as esferas foi preciso abrir mão de algumas dessas disputas “menores” para centrar fogo na eleição majoritária. A minha reticência em relação à situação política atual não é sobre o azul ou o vermelho ou sobre se votar em quem tem aparência menos pior no vídeo. A minha reticência em relação a tudo isso é devido ao fato de que tem havido uma politização recente baseada e construída de modo a atacar uma figura que é, na cabeça da maioria do eleitorado, quem decide a política no Brasil. E me desculpem se você ou a maioria das pessoas discorda, mas o presidente, qualquer que seja ele, não vai resolver todas as mazelas que se abatem sobre o sistema político atual. E vocês poderiam dizer que o Serra ou a Marina não vão resolver todas, mas vão resolver a ausência de democracia atual. E aí, como sempre, o discurso acaba sendo direcionado para a democracia. E democracia, nesse caso, acaba sendo tudo aquilo que se acredita em detrimento do que o outro acredita.
Eu não sei que democracia é essa que essas pessoas tanto falam no Brasil, do mesmo jeito que demorou muito tempo para que eu entendesse porque é que algumas pessoas defendem que a Grécia era uma democracia nos tempos Antigos (embora outro tipo). Em relação ao Brasil, foi iniciada a transição de um regime autoritário para um regime democrático em 85 e para muitos, terminada em 88. Eu acho que embora a gente viva numa democracia pelo fato de haverem inclusão e participação, isso é tudo. Nós não somos dotados de instituições democráticas consolidadas e é por isso , entre outros motivos, que se quebra sigilo fiscal e bancário, é por isso que se convive e se tolera a corrupção.
E de fato, os governos Lula foram palco de inúmeros desses escândalos, mas não foram os únicos. E é com esses esquecimentos, que acabam embasando muitos dos discursos pró Serra ou pró PSDB, que eu não concordo. E não por ser Lula ou FHC, Dilma ou Serra, PT ou PSDB, mas porque a gente tem um histórico de importação de modelos e memória muito curta do lado de cá do mundo. Porque ninguém se lembra da Criação da Controladoria Geral da União em 2000/2001 para abafar os escândalos no governo FHC e evitar a instalação da CPI da Corrupção, ninguém se lembra dos milhões embaixo do pano destinados à favorecimentos nas privatizações da Vale e da Telebrás, ninguém se lembra dos deputados do PFL (atual DEM) da região norte que foram pegos recebendo dinheiro para votar a favor da emenda sobre a reeileição, ninguém se lembra das panes nos telefones, do apagão do sistema elétrico, do absurdo que foi ceder território nacional para uso dos Eua (a base de Alcântara), dos casos Sudam e Sudene, das alterações na CLT que modificaram os direitos de milhões de trabalhadores e foram aprovadas na calada da noite, do aumento vertiginoso da dívida pública/externa e das mudanças nas regras dos fundos de investimento que deixaram todo mundo de cabelo em pé. Bom, disso tudo que foi FHC, dos envolvimentos do Serra com as sanguessugas ou da ligação do Serra para o Gilmar Mendes para empatar uma decisão do STF noticiada pela Folha hoje ninguém se lembra porque afinal eram outros tempos. E se os tempos eram outros, talvez fossem até tempos de democracia.
Enfim (e me desculpando pela minha incapacidade de ser concisa), eu não concordo com boa parte do que esta aí agora e não tenho nenhum apreço ou simpatia pelo PT ou pela Dilma.
Respondendo suas últimas perguntas, eu não votarei nesse eleição devido ao fato de que, por motivos que eu desconheço, não é possível votar fora de onde o título de eleitor foi emitido a não ser em algumas capitais. Mas, apesar disso, se eu fosse votar, votaria na Marina. Apesar da constatação óbvia de que ela não ganhará, apesar das possíveis crises de ingovernabilidade que alguns podem imputar a isso e apesar de a posição pessoal dela ser divergente da minha em grande parte dos assuntos, eu votaria pelo fato de que eu não concordo com o que está aí, mas também não concordo com intransigência e o jogo de soma zero que costuma pautar as negociações políticas e administração do Serra. Mais uma vez, eu não estou defendendo aqui personalidades ou candidatos, fazendo propaganda ou querendo convencer as pessoas de que votar em x ou y é roubada. É sobre os argumentos que se usa para defender determinados candidatos e determinadas situações, baseado na falta de memória que costumam imperar ao sul do equador, que eu não concordo.
Para concluir, na minha opinião o problema maior vem da incapacidade nossa, da elite, de admitir que pela terceira vez consecutiva possivelmente não seremos nós a eleger o presidente do país. E aí então o que temos é populismo, facção, anti democracia ou qualquer nome que se queira dar.
Mas até aí, como eu disse lá em cima, é só a minha opinião e as pessoas tem direito de protestarem e fazerem o que quiser das suas vidas e de seus direitos. Se a que vocês encontraram é sair de azul no próximo domingo acho super legítimo. Respondendo sua última pergunta, eu que não sou pró Dilma poderia sim sair de azul, mas sairei com a roupa que estiver na mala domingo e ela poderá ser de qualquer cor.

Mônica Sodré Pires