A menor participação do Poder Legislativo no processo político exterior se efetua mais por competências constitucionais do que pela falta de interesse na matéria de política externa. Contudo, temas que constituem a agenda internacional e exercem forte pressão na opinião pública e em grupos de interesses organizados, como comércio e desenvolvimento (a retomada ou não da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio ou a quebra de patentes farmacêuticas para a produção de medicamentos antiretrovirais no combate ao HIV, por exemplo) ou meio ambiente (as mudanças climáticas e as políticas de combate ao aquecimento global) geram uma revisão do procedimento decisório, no sentido de ampliação da participação do Congresso Nacional, reduzindo os graus de liberdade do Poder Executivo (LIMA, 2000).
Nesse sentido, uma indagação é praticamente imposta na reflexão sobre o papel que a política externa têm como uma política pública e, ainda mais, o (s) papel (eis) que as instituições políticas democráticas, no Brasil, desempenham no processo decisório político exterior e na qualidade de seus resultados: que organizações devem estar implicadas no processo decisório político exterior? A resposta pode repousar em maior decisividade ou em maior responsividade no processo político exterior brasileiro.
O que, infere, elementarmente, uma questão de escolha. Essa escolha deriva da possibilidade da maior inclusividade, complicar o processo decisório político exterior assegurando a representação de todos os atores pertinentes e de alguma forma interessados na matéria de política externa ou “isolar” o processo decisório político exterior dos diversos atores políticos e sociais de alguma forma gerando maior decisividade na tomada de decisão e perder, de alguma, a maior credibilidade outorgada pela maior participação de atores diversos.
Aparentemente, para responder a questão da manutenção da qualidade da política externa brasileira, especialmente, o “isolamento” político-institucional no processo decisório político exterior, denota-se que quanto mais concentrado o processo de formulação e tomada de decisão em política externa maior “qualidade” na inserção internacional. Essa percepção é muito próxima da perspectiva realista clássica que concebia os interesses nacionais do Estado de maneira homogênea e seu processo decisório ocorria de maneira isolada a partir de uma instituição insulada, como o Itamaraty. O que, segundo autores como Lima (2000) e Oliveira (2007), é pouco aderente como viés contemporâneo das relações internacionais e, por consequência, de formulação da política externa brasileira. Segundo Souza (2002), dois temas têm ascendido na agenda governamental em matéria de interpenetração entre a política doméstica e a política exterior: (i) a representação de interesses e (ii) a formação da política externa.
Ao examinar e caracterizar a política externa como uma política pública, devemos observar que os processos de formulação de políticas públicas caracterizam-se por uma acentuada complexidade. Complexidade essa derivada não apenas da multiplicidade de atores participantes, caracterizando um modelo de poliarquia decisória, mas também dos diferenciados graus de poder, os horizontes temporais e os incentivos político-institucionais.