Os estudos de Política Externa possuem duas principais variáveis explicativas: a Innenpolitik, cujo alcance de explicação se efetua no âmbito doméstico, incluindo em seus matizes abordagens comportamentais e institucionais bem como processos decisórios, pressupondo que a política externa tem maior qualidade explicativa quando dimensionada num espectro de sua dinâmica doméstica. A outra abordagem, comumente designada de Realpolitik, pressupõe que as principais variáveis explicativas seriam fundamentalmente de característica externa. Definitivamente, uma abordagem não exclui a outra na reflexão desenvolvida neste trabalho. Na verdade, as principais teorias de Política Externa derivam de uma maneira ou de outra destas duas variáveis explicativas, diferindo, entretanto, na percepção dos mecanismos institucionais da política externa.
No período que compreende as décadas de 1950-1960 (especialmente), o campo teórico da Análise de Política Externa (sob forte influência do Realismo estrutural) considerou a política externa exclusivamente como um “estímulo” externo (Rosenau, 1966). Entrentanto, ocorreu uma mudança de orientação substantiva no estado do campo especialmente na década de 1980. Passou-se a considerar a interpenetração das variáveis internas e externas na combinação da formulação da política externa (PUTNAM, 1988; MILLNER, 1997).
Para Millar (1969, p.59), não existiriam fatores imutáveis e/ou absolutos em política externa. As nações definiriam suas políticas externas de acordo com critérios como geografia, demografia, segurança, economia e ideologia: “The basis for the foreign policy of a country, therefore, it is necessary to ascertain why relevant decisions were actually mande.” Uma premissa de caráter fundamental na abordagem pretendida para a consecução deste trabalho.
O que nos faz refletir sobre “o que” se constitui como política externa e “por quem” ela é formulada e executada:
A política externa – substância da ação diplomática – é uma política pública. É, no entanto, um tipo especial de política pública, mais qualitativa do que quantitativa, que exige como passo prévio uma análise, em cada conjuntura, tanto das demandas da sociedade nacional quanto das oportunidades oferecidas pelo momento internacional (LAFER, 1993, p. 43).
Explicação didática a ofertada por Celso Lafer. Entretanto, aberta a uma divergência sobre que tipo exato de política pode ser entendida como externa. Duas explicações são bem dimensionadas e expressas. A primeira é de Letícia Pinheiro (2004, p. 07) que define a política externa como o conjunto de ações e decisões de um determinado ator, geralmente mas não exclusivamente o Estado, em relação a outros Estados ou atores externos (organizações internacionais, corporações multinacionais ou atores transnacionais) formulada a partir de oportunidades e demandas de natureza doméstica e/ou internacional.
Por outro lado, Arenal (2002, p. 22) considera que por política externa entende-se o estudo da forma como um Estado conduz suas relações com outros Estados, se projeta para o exterior, ou seja, refere-se a formulação, implementação e avaliação das opções externas, desde o interior, do ponto de vista do Estado, sem atender à sociedade internacional como um tal.
Nesse quadro, as posições de Pinheiro e Arenal diferem quanto a exclusividade de relevância, na análise de Política Externa, de atores que não estritamente o Estado na capacidade de formular política externa. Creio que essa distinção é muito mais clara e devidamente dimensionada quando cerceamos com mais acuidade “como” e “quem” faz política externa, vinculando esse meandro a perspectiva do processo decisório. Farei essa distinção por meio da abordagem clássica sobre o processo decisório em Política Externa (Pinheiro, 2000, p. 453), ilustrando também o processo por meio da Figura 1.
1o) Formulação: concepção de uma conduta que se expresse em atos ou palavras, com relação a um tema de natureza internacional, por iniciativa ou reação, por parte dos atores privilegiados no cenário decisório e que esta se traduza, em última análise, como a posição do governo em algum tema.
2o) Implementação: mera aplicação de uma decisão, desde que neste processo não se acrescente ou se altere substancialmente o conteúdo da mesma – caso em que se deve retornar à categoria de formulação.
Figura 1. Processo de Tomada de Decisão, suas Principais Causas e Resultados Políticos
 

Um outro ponto fundamental para acréscimo ao texto versa sobre os graus de mudança na política externa. Do ponto de vista do processo decisório (vinculando causas e efeitos) podemos, a partir da visualização da Figura 1 apreender que ocorrem:
Pequenos ajustes –  Modificações de objetivos e de programas – Alteração comportamental do país no sistema internacional
Esses graus de mudanças são visualizados buscando identificar suas origens, agrupando-os em quatro fatores institucionais: (i) líderes; (ii) burocratas; (iii) reestruturação doméstica e; (iv) choques externos. Hermann, Herman e Hagan (1987) classificaram as unidades decisórias, identificando-as num quadro onde as unidades de seleção podem ser um líder, um grupo ou uma série de grupos em competição pela exclusividade da tomada de decisão.
Creio que a capacidade decisória de caráter externo restringe-se, fundamentalmente, ao Estado. Entretanto, isto não elimina a capacidade de atuação de atores governamentais e não governamentais (num quadro amplo de grupos de interesse, até mesmo) em fazer valer a capacidade de articulação e influência em alguma política específica junto ao Estado, já que as demandas políticas (em foros comerciais, sociais, ambientais, de defesa, etc) operam sob diversos ângulos e as instituições responsivas (no caso o Ministério das Relações Exteriores) absorvem os interesses e os transformam em conformidade a agenda governamental.
Para Jean Baptiste Duroselle (2000, p. 39-40), a análise comparada em política externa deverá permitir que a pesquisa seja: “fundada na coletânea de acontecimentos – logo empírica -, sobre suas sucessões – logo evolutiva – e sobre as analogias e as regularidades – logo metódica.” Na análise estatocêntrica um Estado possui caráter singular e suas políticas e comportamentos externos resultam de interações complexas estabelecidas entre seus elementos internos.
Neste sentido, forças internas são fundamentais, constituindo-se em fonte primária da política externa. Quanto à análise sistêmica, ela focaliza a estrutura internacional: a distribuição e interações dos Estados como partes de um grupo. Neste quadro, a política externa de um país é dimensionada sob duas condicionantes: a) como uma reação aos perigos e oportunidades do ambiente externo e b) aos posicionamentos e atividades dos demais Estados.
As variáveis de política externa são tomadas, fundamentalmente, em dez dispositivos políticos:
a) Projeto interno dominante; b) contexto internacional; c) estilo de diplomacia; d) condição de dependência transnacional; e) agenda internacional; f) organização institucional voltada para a política externa; g) posição que o país deseja alcançar através da satisfação de seus interesses; h) importância da política externa na estratégia de desenvolvimento; i) tendências políticas, teóricas e ideológicas da política exterior; j) interpretação do sistema internacional.
O exercício da comparação exige atenção, por se tratar de abordagem complexa que permite analisar um quadro de aproximação e distanciamento entre políticas externas, ainda mais assimilando os fatores ideacionais em associação à dinâmica de interesses e poder na formulação de política externa, facultando a possibilidade de identificar processos, demandas e peculiaridades de natureza compartilhada bem como quadros cuja característica é diferenciada e de cunho contrastante entre os países em suas relações exteriores.