É possível identificar imediatamente uma característica que une tanto Andrew Arato (2002) quanto Bruce Ackerman (2000) na teoria democrática contemporânea: o caráter normativo de seu debate sobre separação dos poderes. A análise crítica de Ackerman (2000) se concentra e também se expande em torno do quadro analítico envolvendo o constitucionalismo, no qual insere dentro de um grande tema: a democracia e a sua limitação.
O debate em torno da accountability para Arato (2002, p. 96) toma um rumo que transpõe o minimalismo democrático, tanto que considera que para um efetivo regime de accountability a participação da sociedade civil e da esfera pública é de cunho fundamental para a qualidade democrática, mas ainda pressupõe o aspecto retrospectivo da accountability. E mais: seria necessário incorporar graus de deliberação para essa efetividade deaccountability. De certa forma, sua abordagem carrega consigo uma ponte entre a teoria democrática procedimental e a deliberativa.

Andrew Arato, tanto quanto Bruce Ackerman, consideram que o nível deaccountability política mais efetiva se encontra no parlamentarismo, diferenciando-os quanto à dimensão numérica das casas parlamentares. O primeiro considera que apenas uma casa seria fundamental, enquanto o segundo considera duas casas importantes. Essa distinção conceitual normativa de Arato repousa na pressuposição de que a accountabilityassumiria duas tendências: identificabilidade e designibilidade.
Ackerman ainda considera o fator eleições na maneira com que estão diretamente relacionados ao problema da separação dos poderes. Nesse contexto do presidencialismo, ainda que um partido ganhe a eleição, ele não necessariamente terá plena autoridade para legislar, gerando um impasse e três cenários: acomodaçãoimpasse e desagregação constitucional.  Situações que poderiam volver a efetivas crises de governabilidade, criando um ciclo vicioso permeado por quebras de impasses legislativos por meio de decretos unilaterais por parte dos presidentes, expandindo por decreto seus poderes, permitindo um “alívio” aos representantes e com isso um cada vez maior sobredimensionamento do Executivo sobre o Legislativo.
Uma presidência eleita dispõe o sistema político em torno de uma personalidade, outro ponto falho do presidencialismo para Ackerman, que considera o sistema parlamentar menos sujeito a esse contexto. Reflexo também desdobrado na maneira como um presidente atende seu partido de maneira instrumental, enquanto o primeiro ministro encontra-se numa situação na qual deve tratar seu partido de maneira a orientar sua conduta em meio a políticas duradouras. O que gera uma preocupação quanto à supressão dos ideais democráticos em sistemas presidencialistas incorridos em cenários de desagregação constitucional.
Arato também preocupado com a perda de qualidade na institucionalização democrática, listará alguns pontos fundamentais para uma accountabilitypolítica:
1º) O tipo de regime democrático deve ser parlamentar baseado em uma única casa;
2º) Prazos eleitorais mais curtos dispondo a possibilidade institucional de dissolver o legislativo, convocando novas eleições;
3º) Existência de um sistema público de financiamento das campanhas;
4º) Um regime de accountability puro teria grande semelhança com o modelo de Westminster, ainda que duas diferenças sejam fundamentais: a existência de apenas uma casa e a possibilidade de uma Constituição escrita.
Nesse último ponto talvez se encontre o ponto divergente mais perceptível para as reflexões de cunho normativo entre Arato e Ackerman. A separação dos poderes implicaria para Ackerman, retomando a discussão sobre “exportação” de desenhos constitucionais, uma rejeição dupla ancorada no conceito de “constrained parliamentarianism”.
Ackerman, mesmo considerando que o sistema de Westminster não é uma barreira contra crises de governabilidade, acreditará que esse modelo passaria por muito menos crises de governabilidade, bem como uma maior coerência programática. Assim, governos que irrompem da separação dos poderes não se constituem “atraentes”. Tanto no plano da governabilidade quanto no que denomina “pleno exercício da autoridade”. Ackerman sugere um novo modelo de divisão institucional: entre parlamentos e povos, no qual os últimos exprimirão suas vontades por meio de pleitos atenciosamente formulados, o que gera, para o autor, a necessidade de um Tribunal constitucional, consideração muito próxima também da feita por Arato.
Arato considera que o modelo majoritário revela um vínculo fundamental com a accountability política: a existência de uma efetiva oposição no parlamento. Tão importante para Arato (ibidem) esse vínculo que sem ele: “o processo de accountability não poderia existir.” Mas talvez o princípio fundamental da orientação teórica de Arato seja o conceito de dupla accountability cuja consistência se dá pela dupla resposta institucional do regime democrático. Nesse quadro conceitual o executivo seria responsivo para com o legislativo e este para com os cidadãos. Por exemplo, Ackerman reconhece a existência de certa dificuldade nessa engenharia constitucional. E Arato afirma que sem a atividade política dos cidadãos, não apenas restritos numa diminuta participação do processo político por meio do exercício de votar e sim afeitos às instituições deliberativas democráticas e a própria sociedade civil, um sistema de accountability não existirá.
Referências Bibliograficas
ACKERMAN, Bruce. (2000). The New Separation of Powers. Harvard Law Review. Vol-113, NO 03, p. 642-727, January.
ARATO, Andrew. (2002). Representação, soberania popular e accountability. Lua Nova, São Paulo,  no. 55-56.