Ideias definem o universo de possibilidades de ação, afetando interações estratégicas. Por isso sua importância explicativa para os processos de Política Externa. Entretanto, julgo oportuno contextualizar a disposição deste instrumental dentro da Ciência Política e adotar de seus pressupostos elementos para a explicação da alocação das idéias como construções estratégicas em Política Externa.


Os trabalhos de Peter Hall (1989) representam uma contribuição seminal, dentro do campo do Institucionalismo Histórico, na defesa de uma papel significativo dos fatores ideacionais na determinação dos resultados políticos alcançados pelas instituições. Em seu estudo sobre a difusão das idéias keynesianas, Hall identifica três fatores para explicar porque idéias se difundem mais entre alguns países do que em outros. Ele identifica três variáveis explicativas para determinar as causas da emergência das idéias keynesianas no período pós 1930, a saber: a Economia, o Estado e as Coalizões:
    a) Economia: neste primeiro aspecto, o enfoque nas idéias repousa na sua habilidade de persuasão, percebida na configuração de redes de compartilhamento de políticas tanto por parte de economistas profissionais quanto por parte dos formuladores de políticas. Desse quadro deriva a inferência de que essa característica associa-se à própria qualidade das idéias, em vista dos dados diagnósticos e as medidas efetivas que proporciona-se para problemas fundamentais em determinados contextos históricos;
    b) Estado: quanto ao segundo aspecto, para Hall, a disseminação de novas idéias dependerá diretamente do arranjo institucional do Estado e do exercício prévio com políticas a elas vinculadas. Já em relação à formulação de políticas, a eventual acessibilidade dos cenários decisórios à influência de atores externos pode acelerar a incorporação de novas idéias e proposições às políticas públicas. Também deve-se destacar um último aspecto na abordagem concentrada no Estado: a dupla contingência (incentivador ou inibidor) na adoção de novas idéias. A disposição do incentivo institucional aumenta em muito a absorção das novas idéias e propostas, assim como a percepção de fragilidades no arranjo institucional influi no reforço das resistências à assimilação de novas idéias;
    c) Coalizões: por fim, o último aspecto, centrado em coalizões, busca explicar o papel das idéias (bem como das políticas) na configuração mais dilatada do sistema político. Para Hall, essa abordagem contribui no sentido de reinserir a relevância analítica da dinâmica política no âmbito das relações conjunturais do sistema político, encontrando diversas modalidades de articulação de interesses, refletindo as inúmeras clivagens no tecido social.
    É inegável que as presentes abordagens oferecem perspectivas interessantes sobre as causas da disseminação das idéias e do seu impacto nos projetos políticos adotados por diversos governos. Para Hall (1989), quatro fatores podem explicar a disseminação e os impactos das idéias sobre as políticas: (i) o programa político do governo; (ii) o nível estrutural do Estado e a interação Estado-Sociedade; (iii) o caráter do discurso político e, por fim; (iv) os impactos do sistema internacional. Uma importante inferência deve ser reforçada neste âmbito: não há sentido em dissociar o poder das idéias dos arranjos institucionais bem como dos diversos interesses organizados, tanto econômicos quanto políticos e sociais, ainda que haja insuficiência nessa inferência. Insuficiência do ponto de vista da preemência de se qualificar, em termos analíticos bem como empíricos, como se processam e dinamizam essas interações.
Para Golfas (2001), é possível identificar dois modelos fundamentais para a conceituação da interação entre interesses/instituições e idéia.
(1) O primeiro modelo identifica as idéias como output das condições de incerteza e complexidade social, derivando desse quadro a inferência de que as idéias antecedem os interesses;
(2) Já o segundo modelo identifica uma previedade dos interesses às idéias, tomando as últimas como variáveis de mediação, auxiliando nas explicações dos arranjos políticos, tendo por variável dependente as instituições.

O “resgate” das idéias tem gerado um cenário teórico-metodológico no qual a abordagem racionalista, por exemplo, separa as idéias dos interesses, acolhendo-as como variáveis competitivas, no qual o tratamento metodológico deve ser avaliado de maneira sistemática. Um problema ontológico das instituições, segundo Golfas (2001a). Para ele, seria fundamental atentar para a interação idéias-interesses de maneira a observá-la como um processo de formação concomitante ou intercambiável: “as idéias fornecem um quadro de trabalho no qual os interesses se definem ou se constituem” (Golfas, 2001a).

Por que determinado conjunto de idéias é aceito em detrimento de outros conjuntos de idéias?
A resposta para a pergunta encontra-se no perfil dos arranjos institucionais, servindo-se, neste sentido de escolha, das idéias mais aderentes ao arranjo institucional.