“O nacionalismo surgiu mais uma vez na agenda das questões mundiais” (p.227). Partha Charttejee expressa de imediato a percepção de que o fenômeno político do nacionalismo tomou nova envergadura, uma nova envergadura devido ao colapso do socialismo soviético (e não necessariamente nos termos de um “colapso do comunismo”), e esse ressurgimento do nacionalismo, segundo Chatterjee, foi encarado por analistas políticos como o verdadeiro risco para paz mundial.
7 - Nacionalismo
Entretanto, para o teórico indiano, o debate em torno do nacionalismo (e seu ressurgimento) tem se mostrado pouco condizente com o contexto histórico pelo qual o fenômeno do nacionalismo transitou tanto nível de espaço quanto em âmbito de tempo, já que sua configuração tomou dimensões diferenciadas ao longo do século vinte, especialmente. É interessante observar como Chatterjee traz, ao debate sobre nacionalismo, dois elementos conceituais fundamentais para uma devida compreensão sobre o contexto de descolonização de imensas regiões do planeta:

À medida que as novas práticas institucionais da economia e da política dos Estados pós coloniais disciplinadas e normalizadas sob as rubricas conceituais de “desenvolvimento” e “modernização”, o nacionalismo foi sendo relegado ao campo das histórias particulares desse ou daquele império colonial (p. 227).
 
Chatterjee continuará sua reflexão apontando as transformações de percepção por meio do qual o nacionalismo passou, redimensionando-o dentro de contextos próprios e tomando novas “roupagens”. O nacionalismo, versátil perceptivelmente, passava ora a ser visto como causador de problema X ora como instaurador de problema Y (mas esquecendo, claro, que o próprio nacionalismo era visto como uma “dádiva” européia ao mundo), lutando guerras que poderiam ser entre exércitos regulares ou fratricidas guerras civis, e para Chatterjee, essa transformação do nacionalismo e dos líderes anti-colonização foram sendo reapropriadas e realocadas, para não dizer quando os mesmos líderes dos processos de descolonização não manchavam suas biografias com corrupção e genocídio.
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Chatterjee reconhece que seria difícil a imagem do nacionalismo, dentro de um contexto como esse, não ser maculada essencialmente e hoje ter uma caracterização negativa, uma  “força obscura, rudimentar e imprevisível, de natureza primitiva, que ameaça a ordeira calma da vida civilizada.” (p. 228)  O debate em torno da historiografia da colonização e descolonização é delineado fundamentalmente por Chatterjee, nos processos de ruptura e busca por uma origem do
nacionalismo em terras não européias. Mas é trazendo Benedict Anderson, e seu trabalho, considerado pelo teórico indiano, de sutileza e originalidade, que Chatterjee aprofundará um tanto quanto mais a proporção múltipla do nacionalismo:
Benedict Anderson demonstrou que as nações não eram os produtos determinados de certas condições sociológicas, como a língua, a raça ou a religião; na Europa e em todas as outras partes do mundo, elas tinham sido trazidas à vida pela imaginação (p. 229).
Mas embora reconheça a importância do estudo e da operacionalização de Anderson sobre o nacionalismo, Chatterjee aponta uma objeção central à teoria de Anderson:

Se os nacionalismos do resto do mundo tem que escolher suas comunidades imaginadas entre certas formas “modulares”, já colocadas a seu dispor pela Europa e pelas Américas, que lhes resta imaginar? A história, ao que parece, teria decretado que nós, do mundo pós-colonial, seremos apenas os perpétuos consumidores da modernidade (p. 229).
 
Chatterjee se interroga até mesmo se a imaginação de povos asiáticos ou africanos precisa continuar a permanecer colonizada. Historicamente trágica questão para uma resposta no mínimo de lucidez irônica. Chatterjee acredita que os resultados mais significativos e poderosos da imaginação colonialista asiática e africana se basearam não em uma identidade, mas em uma diferença em relação às manifestações da sociedade nacional da modernidade ocidental, além, é importante esclarecer, de que o nacionalismo para ele não pode ser encarado fundamentalmente como um movimento político. Uma diferença de percepção consubstancial entre os dois autores. Outro ponto que Chatterjee observa em relação ao nacionalismo é o de que “o nacionalismo declara o campo do espiritual como seu território soberano e se recusa a permitir que o poder colonial intervenha nele. Assim, o Estado colonial é mantido fora do domínio “interno” da cultura nacional, mas esse “domínio espiritual” não permanece inalterado.” (p. 230) Nesse ponto nasce uma cultura nacional inserida dentro da modernidade, mas não ocidental, e se a nação é uma comunidade imaginada, então seria nesse ponto que ela nasceria.
A história do nacionalismo como um movimento político se concentraria na luta contra o Estado colonial, modelo de Estado baseado na premissa de que a dominação se dava a partir da diferença colonial, preservando o caráter alienado do grupo dominante (p. 234). O que Chatterjee faz em seu texto é apresentar outros elementos (comparando ou não com os pressupostos andersonianos), principalmente ancorados na história contemporânea da Índia, mas reconhecidamente dentro da prerrogativa de que os nacionalismos não tiveram muitas alternativas para se influenciar para a sua própria contextualização.

Para Chatterjee, os antigos colonizados precisam ter a liberdade de estabelecer a própria liberdade de imaginação. E para o Ocidente, o nacionalismo,  “tal como as drogas, o terrorismo e a imigração ilegal, é mais um produto do Terceiro Mundo do qual o Ocidente não gosta, mas que é impotente para proibir.” (p. 228)