Segundo Marcelo Coutinho (2005), a inclusão política gera a estabilidade dos regimes democráticos, ou seja, sem a existência de acordos tende-se a existência de instabilidade democrática:
Democracias inclusivas causam dependência mútua, compromisso e cooperação entre os atores. Uma vez incluídos nas instituições políticas, não apenas por meio da participação eleitoral, mas também nas instâncias decisórias do Estado, os atores envolvidos automaticamente tornam-se parte do sistema, passam a ter que responder pelo que ele gera e, simultaneamente, desenvolvem uma noção de pertencimento (Coutinho, 2005, p. 16).

Retomando a discussão em torno da transição democrática, o caso brasileiro, por exemplo, realizou uma transição democrática relativamente longa e controlada, iniciada em 1974 e perdurou por, mais ou menos, quinze anos, ao contrário da África do Sul, que realizou sua transição democrática de forma mais breve e concentrada (em torno de cinco anos). É interessante observar que a política externa sul africana também será influenciada por esse modelo (algo a ser averiguado com mais acuidade na parte 3 da Dissertação), oscilando de um estado de cooperação e conflito, no âmbito das negociações entre os interesses dos partidos (Partido Nacional e o Congresso Nacional Africano) pelo desenho político sul africano pós apartheid e também no âmbito de negociação internacional, com outros Estados (para, no período de transição, ocorressem ou não maior flexibilidade nas restrições ao país sul africano).
A perspectiva “vencedora” foi a de continuidade das restrições (ancorada na perspectiva do Congresso Nacional Africano), ainda que o processo de transição dirigido pelo Presidente De Klerk do Partido Nacional tenha conseguido obter maiores garantias de flexibilidade à África do Sul, postura derivada das ambições do Partido Nacional em continuar no jogo político pósapartheid.
É possível avaliar que o tipo de transição entre os dois países também foi diferenciado bem como o papel e o desenho das instituições. Enquanto a África do Sul, com uma necessidade social urgente de compartilhamento de poder decisório, gerou um regime onde o Executivo tendia mais a inoperância (a causa da inoperância seria a forma de transição pactuada realizada ao fim do apartheid) o Brasil gerou um regime onde o Executivo desempenhava um papel hiper-controlador do poder decisório, ou seja, ambientado num tipo de “decretismo” sem a existência de negociações amplas, ao mesmo tempo que caracteriza-se como um “presidencialismo de coalizão”.
É interessante observar que ao comparar, ainda que de forma breve, o quadro democrático (em seu processo de democratização e mudança de regime), por exemplo, de cada um dos países (Índia, Brasil e África do Sul) com outros países denominados Potências Médias e Estados Intermediários, existe um caminho, ou melhor, uma percepção a ser escolhida ao se comparar os processos de democratização dos países, reconhecidamente com trajetórias dependentes acentuadamente diferenciadas. De um lado existe a abordagem estrutural (ou morfológica) e do outro a abordagem mais “genética”.
A primeira sustenta que a democracia bem como sua sobrevivência em longo prazo depende de condições pré-existentes (no caso, fatores estruturalmente favoráveis). Quanto a segunda, diferentemente, considera que a democracia se faz possível em toda parte e não limita-se a limites estruturais, ou seja, para essa vertente, a democratização depende diretamente das escolhas políticas e da institucionalização de mecanismos apropriados ao conjunto estrutural particular de uma determinada sociedade, o que, ressalta-se, não deve ser encarado como entrave aos resultados do processo de democratização. Creio que a segunda abordagem possui maior correspondência explicativa dos processos de democratização dos Estados Intermediários, como a Índia, o Brasil e a África do Sul.
Considero que a ideia de algum pré-requisito, hoje, para o processo de democratização de um país, e quando pensamos nos três países participes do Foro IBAS, é a distribuição de renda muito mais que, necessariamente, o desenvolvimento econômico (SCHMITTER, 1996). E, no caso, tanto a Índia quanto o Brasil e a África do Sul são exemplos, infelizmente, de péssima redistribuição de renda. Ressaltando, entretanto, que o caráter de redistribuição de renda é muito menos acentuado no Brasil e na África do Sul do que na Índia.
Quanto à dimensão política, a reflexão presente utilizou-se de seis variáveis para identificar o desempenho democrático indiano, brasileiro e sul africano, tomados enquanto índices de Governança e Processos Democráticos abaixo dispostas, observando-se os graus de institucionalização democrática da Índia, do Brasil e da África do Sul: R1: Média; R2: Participação Democrática;R3: Governança e Eficiência Econômica; R4: AccountabilityR5: Direitos Humanos; R6: Estabilidade Política; R7: Regra da Lei.
No gráfico 1, operacionalizado a partir das variáveis acima alocadas, é possível visualizar, em nível comparado a outros países também emergentes (Rússia, México e China), o desempenho democrático de Índia, Brasil e África do Sul.
Como é possível observar, no gráfico, a Índia, o Brasil e a África do Sul encontram-se, na escala média disposta pela CIFP (2008), distantes da média geral de países desenvolvidos, mais próximos do grau 01 da escala. Entretanto, como países em desenvolvimento, tanto a Índia quanto o Brasil e a África do Sul (com a exceção do México que obteve a média de 4,56) tiveram um desempenho melhor na média (R1) que a China (6,46) e a Rússia (6,16) e a África do Sul (uma média de 3,95) teve uma média de desempenho melhor que o Brasil (4,83), que por sinal, teve melhor desempenho que  a Índia (5,09).