Na teoria democrática normativa e positiva existem diferenças de abordagem. Herbert Kitschelt observa que a primeira busca debater a justificabilidade e desejabilidade dos mecanismos de vinculação (clientelista, carismático e programático), a segunda primará sua abordagem focando nas condições empíricas que fomentam diferentes mecanismos de vínculo e suas conseqüências funcionais em políticas democráticas no âmbito de durabilidade, legitimidade cívica e desempenho político.

Kitschelt explora pontos de intersecção entre as políticas clientelistas, carismáticas e programáticas, “desmistificando” prerrogativas analíticas em torno, principalmente, das políticas clientelistas em nível comparativo com as políticas programáticas. O problema da escolha social e da assimetria informacional se entrelaça quando os eleitores escolhem entre partidos baseados em posições temáticas (em virtude de reduzidas informações), então os partidos terão sucesso tão somente se eles puderem direcionar estas posições temáticas em torno de alternativas conceituais simples, como entre Direita e Esquerda.

Existirá dificuldade na conciliação entre políticas clientelistas e programáticas, separando fundamentalmente suas práticas: de um lado, o clientelismo e sua prática informal de disposição de recursos, como incentivos antes e depois das eleições na troca do voto ou sua característica de não criar conteúdo programático e sim acordos com seus seguidores. Do outro lado, os mecanismos programáticos de vinculação política que contemplam princípios universais, que para o autor são contemplados tanto por socialistas quanto por liberais mais assertivos reduzindo margens de atuação de práticas clientelistas.

É interessante observar que para Kitschelt tanto o clientelismo quanto o vínculo programático são dois mecanismos políticos de certa forma incompatíveis (mas não absolutamente) com o carisma político. Líderes carismáticos obtêm suas lealdades por meio de suas qualidades pessoais e qualquer tipo de partido que venha surgir e que tenha uma coesão partidária engessa a atuação do líder carismático.
Kitschelt também afirmará que partidos no âmbito institucional não são necessariamente partidos no sentido funcional, já que, para o autor, não seriam constituídos como veículos coletivos de resolução de problemas (de ação coletiva e de escolha social).
Quando políticos investem em infra-estrutura técnica administrativa sem, todavia, promover modos de agregação de interesses e formação de programa criam mecanismos “indiretos” de clientelismo, estabelecendo compromissos com seus eleitores por meio de pagamentos diretos e pessoais, já que vínculos clientelistas envolvem diferentes circuitos de trocas. Kitschelt considerará que políticas clientelistas favorecerão a accountability. Julgo que essa “reviravolta de percepção” das políticas clientelistas é coerentemente costurada, pois quando tomamos a institucionalização como pré-requisito para a estabilidade democrática, logo as democracias com predominância de práticas clientelistas podem frequentemente ser duradouras, em envolvimento com reciprocidade e voluntarismo, mas também exploração e dominação.

Um outro ponto fundamental é sobre a relação da política clientelista e a corrupção. Existirão outras formas de inserção clientelista, cimentadas em práticas de corrupção, como a privatização e a desregulação do setor público. A corrupção incorrerá mais acentuadamente em democracias com mecanismos clientelistas e se esses regimes democráticos forem presidencialistas, maior a chance de corrupção.
Ele reconhece que o elo entre clientelismo e sistema eleitoral não se configura tão consistente, e também discorrerá sobre a relação entre executivo e legislativo em sistemas presidencialistas e como a prática de separação de poderes estimula o clientelismo, percepção semelhante à de B. Ackerman e de A. Arato. Resumo a crítica de Kitschelt ao regime presidencialista em alguns pontos:
1) A competição eleitoral é incentivada por meio da personalização da campanha e não por seu programa político;
2) Existe um desestímulo aos candidatos apresentarem programas políticos, já que exigiria esse contexto de uma maior disposição em concentrar esforços em temas de apelo aos eleitores;
3) Para governarem efetivamente, os presidentes necessitam construir amplas maiorias no parlamento, favorecendo práticas clientelistas;
4) Como o legislativo não necessita de fidelidade ao presidente, constitui-se outro incentivo aos parlamentares buscarem apoio clientelista junto ao presidente e “repassar” a mesma prática juntamente aos seus eleitores.
Referências Bibliográficas

KITSCHELT, Herbert. (2000). Linkages between citizens and politicians in democratic polities. Comparative Political Studies. 33, p. 845 – 879.